Opinião

O clique não morreu, mas perdeu importância

Quando a busca vira síntese, marcas deixam de disputar atenção e passam a almejar espaço nas respostas

Thiago Cesar Silva

Diretor de marketing para a divisão de Consumer Electronics da Samsung Brasil 5 de maio de 2026 - 15h00

Hoje, a mudança começa pela forma como procuramos informação. A inteligência artificial (IA) passou a mediar esse processo, da descoberta à resposta. Se antes dependíamos da navegação entre links para encontrar o que queríamos, agora as respostas acontecem dentro da própria interface. Isso altera de forma relevante essa dinâmica.

Não é o fim do tráfego pago. O link patrocinado continua performando e convertendo. A novidade é que ele deixa de ocupar a posição como eixo absoluto da estratégia. Na nova arquitetura da forma como consumimos informação, a economia do clique está sendo substituída pela economia da referência.

Melhorar posição no ranking, trabalhar indexação, reduzir CPC, aumentar CTR, tudo isso segue sendo importante. No entanto, o desafio passa a ser a necessidade de performar bem nas respostas geradas pelos motores de IA.

Quando alguém pergunta a uma IA qual é a melhor marca de sabão em pó, a expectativa não está em uma lista de dez links patrocinados. Espera-se um raciocínio organizado a partir de fontes que demonstrem coerência, continuidade e densidade.

Modelos de IA tendem a priorizar conteúdos consistentes e semanticamente alinhados ao longo do tempo. Isso desloca o papel da marca de produtora de campanhas para organismo gerador de repertório no tema de atuação.

Grande parte da indústria de comunicação ainda opera como fábrica de ads, com campanhas, flights e ondas de mídia paga que geram picos e depois desaparecem. No ambiente generativo, esse modelo perde tração, pois sistemas de IA aprendem por recorrência e reconhecem autoridade através da consistência.

As marcas passam a assumir uma nova posição em marketing. Precisam influenciar o que é incorporado pelas respostas geradas por IA. Marcas que operam como “media company” tendem a se beneficiar dessa lógica, pois constroem ao longo do tempo lastro em torno de seu território de atuação.

A Red Bull entendeu isso antes mesmo da ascensão do clique. Deixou de se comunicar como fabricante de bebida energética e passou a operar como veículo, organizando territórios claros nos esportes radicais e na cultura jovem e performance humana como editoriais perenes.

A Nike segue lógica semelhante. Não comunica apenas tênis, mas um território contínuo sobre superação e identidade esportiva. Sua força está na consistência acumulada. É como se, de tanto falar sobre um tema, conquistasse um lugar de fala. E é esse lugar que tende a ser recuperado nas respostas dos sistemas de IA.

A Patagonia leva essa lógica ao extremo quando deixa de organizar sua comunicação em torno de roupas técnicas e passa a sustentar uma posição ambiental ao longo de décadas. Nada a ver com campanha ocasional sobre sustentabilidade. Trata-se de arquitetura contínua sobre ativismo climático e responsabilidade corporativa.

Quanto mais delegamos à IA a síntese, mais estratégico se torna o critério humano, pois nosso diferencial não está em resumir melhor as informações, mas em escolher melhor. Esse é o novo papel que se espera de uma marca: o de curadora, que estrutura sentido. Isso demanda clareza conceitual, continuidade temática e produção de conhecimento proprietário.

A IA pode sintetizar o que já foi dito, mas não pode originar experiência nem produzir leitura cultural profunda. Marcas que replicam tendências tornam-se ruído otimizado. Aquelas que produzem pensamento passam a ser referência.

O clique, especialmente o comprado, não desapareceu. Mas deixou de ser o centro simbólico da influência. O que surge em seu lugar é mais exigente: visão editorial, disciplina narrativa e a coragem de abandonar a obsessão por picos momentâneos em favor de presença contínua. A mídia paga acelera algo que já está estruturado, mas não substitui a construção de valor. No novo cenário, é preciso construir relevância que sobreviva à síntese da IA.