O que aprendemos com Shakira: celebrar a vida e as mudanças
Ao repetir que “mulheres já não choram”, artista inverteu a dinâmica de fragilidade e de fraqueza
“Das quedas ninguém se salva. O que sei é que nós, as mulheres, cada vez que caímos nos levantamos um pouco mais sábias, mais fortes, mais resilientes. Porque as mulheres já não choram”. “O Brasil tem mais de 20 milhões de mulheres solteiras, sem ajuda, que têm que lutar a cada dia para sustentar sua família. Eu sou uma delas”. Para quem acompanhou o show da Shakira no sábado (presencialmente ou pela TV) ou esteve ligado nas notícias nesse fim de semana, as frases são familiares. Ela as disse em (ótimo) português, enquanto emendava um hit atrás de outro, para alegria dos fãs.
Assistir ao show em 2026, certamente, foi muito diferente de ter visto a mesma apresentação dez ou vinte anos atrás. Como mãe de um adolescente, líder de marketing de uma multinacional e uma mulher independente, esse discurso me tocou de uma forma muito ímpar. Por muito tempo, ser mãe não coexistia com ter foco na carreira — não aos olhos da grande maioria. O mesmo se aplicava a ser do gênero feminino e querer dedicar tempo a si própria. Essa segunda situação era (ainda é, sejamos honestas) acompanhada de culpa e julgamentos silenciosos.
E existe ainda uma pressão silenciosa que atravessa muitas dessas escolhas: o chamado “relógio biológico”. Uma cobrança quase invisível – social, cultural e, muitas vezes, interna – que coloca prazo para a maternidade, como se houvesse um momento “certo” e universal para isso acontecer. Como se fosse possível planejar a vida, a carreira, os relacionamentos e o desejo de ser mãe dentro de uma linha reta. Para muitas mulheres, essa decisão vem carregada de dilemas: esperar ou antecipar, priorizar ou conciliar, querer ou não querer. E todas essas escolhas, inclusive a de não ser mãe, ainda são atravessadas por expectativas externas.
Contudo, por mais clichê que soe, mas os tempos estão mudando. E ainda há muito pela frente. Com a proximidade do Dia das Mães, fico lembrando de como as empresas já erraram nesta data (falando agora da cadeira de gestora de marketing de uma marca de varejo). Alguns equívocos eram comuns: indicações de presentes para a cozinha, para toda a família, itens ligados à beleza (não sou contra a vaidade, mas existe uma linha tênue entre um regalo e uma cobrança pela perfeição estética), isso tudo sem mencionar as campanhas que endossam a posição de cuidado e até mesmo de subserviência das figuras maternas.
No show de sábado, ao cantar e repetir que “mulheres já não choram”, Shakira inverteu, aos olhos de dois milhões de presentes e de mais outros milhões acompanhando pela TV, a dinâmica de fragilidade e de fraqueza. Não que chorar seja um problema, de forma alguma, mas endossar esse lugar supostamente sensível das mulheres reforça o outro lado, muito perigoso ao meu ver, de homens fortes e provedores.
Esse movimento de ressignificação passa, inevitavelmente, pela vida real, que é menos simbólica e muito mais desafiadora. Ser uma mulher independente, mãe de um adolescente e uma liderança exige um exercício constante de equilíbrio, negociação e, sobretudo, autoconhecimento. Existe uma expectativa silenciosa de dar conta de tudo com excelência: performar no trabalho, estar presente na vida dos filhos, cuidar de si, manter relações, evoluir constantemente. E, no meio disso tudo, ainda encontrar espaço para os próprios desejos, ambições e preferências, que muitas vezes ficam em segundo plano.
A verdade é que essa jornada não é linear nem perfeita. Talvez nunca seja. Há dias de potência e outros de exaustão. Há conquistas que vêm acompanhadas de renúncias. Há escolhas que libertam e, ao mesmo tempo, cobram um pedágio. Reconhecer essa complexidade é, também, um ato de coragem. É sair do lugar da expectativa inalcançável e ocupar um espaço mais honesto, humano e, acima de tudo, possível.
Nesta data, reforço que é hora de consciência, atitude e, na mesma proporção, fazer jus às palavras de Shakira: “celebrar a vida do jeito que ela é, com seus acertos e imperfeições”. Porque, no fim, talvez a maior transformação esteja justamente em permitir-se viver sem precisar caber em modelos prontos – e, ainda assim, seguir com os nossos anseios, sempre em movimento.