Opinião

Comunicar saúde sem vender, transformando consciência em conversão

Num cenário de públicos tão diversos, a comunicação precisa desdobrar diferentes mecanismos de conversão linguística

Erika Baruco

Diretora da Baruco Comunicação Estratégica 30 de abril de 2026 - 15h00

O desafio de comunicar saúde nunca foi apenas uma questão de criatividade, mas um exercício de responsabilidade sob múltiplas camadas de restrição: regulatória, científica, ética e institucional. Diferente de outros setores, aqui não existe liberdade plena de persuasão. Não se vende diretamente, não se promete e não se simplifica além do que a ciência e os órgãos reguladores permitem. E, ainda assim, é preciso engajar, mobilizar e, sobretudo, provocar ação.

Esse é o paradoxo central da comunicação em saúde, em todas as suas especialidades, enquanto necessidade de gerar awareness que se converta em comportamento em um ambiente onde não se pode atuar pelos mecanismos clássicos de urgência artificial ou apelo comercial, mesmo quando há oferta de produtos e serviços envolvidos.

Mas, então, qual é a solução? A resposta começa por entender que a saúde, com exceção do segmento da estética, não é, por natureza, um objeto de desejo. Ela só se torna prioridade quando há perda, risco ou dor instalada. Isso direciona completamente o papel da comunicação para a construção da relevância antes da necessidade.

O desafio se amplia quando consideramos o ecossistema envolvido: indústria farmacêutica, profissionais de saúde, áreas de compliance, órgãos reguladores e, claro, a população. Cada um opera sob lógica distinta, com interesses legítimos, porém frequentemente desalinhados em ritmo, forma e objetivo.

Nesse cenário de públicos tão diversos, a comunicação precisa desdobrar diferentes mecanismos de conversão linguística no sentido amplo da palavra: tom, vocabulário, estrutura de mensagem, profundidade. Ou seja, traduzir ciência sem distorcer, traduzir norma sem engessar, traduzir risco sem alarmar, traduzir prevenção sem cair no vazio da recomendação genérica.

A maioria das iniciativas falha não por falta de informação, mas pela forma como informa, deslocada de contexto cultural, social, emocional e prático, comprometendo a capacidade de aderência dos públicos. E Isso se torna ainda mais sensível em um ambiente contaminado por desinformação, polarização e baixa literacia em saúde.

Redes sociais amplificam vozes, mas não necessariamente conhecimento, fazendo com que as iniciativas de comunicação disputem atenção com conteúdos simplistas, opinativos, muitas vezes incorretos que, infelizmente, têm uma vantagem competitiva: são fáceis de consumir.

Para competir com essa dinâmica não adianta replicar o formato, mas entender a lógica de consumo e o fato de que clareza, ritmo, identificação e utilidade imediata não são inimigos da ciência, são condições essenciais para que ela chegue em quem precisa.

Outro grande equívoco é tratar o público como bloco único, pois ainda que o sistema seja o mesmo, as realidades são múltiplas. A linguagem que engaja um jovem urbano não é a mesma que mobiliza um idoso no interior. A percepção de risco varia, assim como o acesso e o valor dado à informação.

Por isso, pensar comunicação em saúde exige uma lógica 360 que não é apenas multicanal, é multicontexto. A mesma diretriz precisa ser desdobrada em narrativas específicas, respeitando repertórios, barreiras e motivações distintas.

Outro ponto estrutural: não existe awareness efetivo sem direcionamento efetivo de ação. Campanhas que “conscientizam”, mas não mostram o próximo passo, não geram mudança de comportamento. Em saúde, isso é insuficiente.

O caminho precisa ser explícito: onde ir, o que fazer e quando agir para que a comunicação conduza para a resolução do problema de forma real.

Por fim, é necessário reconhecer que comunicar saúde é operar em um território de tensão permanente, de crise iminente, seja no público ou privado, com riscos de vida, imagem, reputação e recursos financeiros.

Não há solução simples, mas há um caminho efetivo, que é o de tratar a comunicação em saúde como disciplina estratégica de alta complexidade, de atuação cirúrgica, e não como extensão adaptada do marketing tradicional.