Como o luto e finitude atravessam criação e escolhas
Andres Kisser, do Sepultura e a escritora Natalia Timerman abordar como perdas, limites e morte influenciam criação, decisões e a forma de existir

Natalia Timerman, Andreas Kisser e Regina Augusto no painel Finitude, presença e a força dos novos ciclos do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)
Experiências de luto, perda e finitude, – e como esses temas atravessam o processo criativo e influenciam a forma como indivíduos lidam com escolhas e reorganizam a própria vida – conduziram a conversa entre Andreas Kisser, músico da banda Sepultura e cofundador do movimento “Eu Decido”, e Natalia Timerman, escritora e psiquiatra, em painel mediado por Regina Augusto, diretora executiva do Cenp, no WW Summit.
Ao abordar a própria trajetória, Kisser relembrou a morte da esposa, Patricia, ocorrida em 2022, como um ponto de ruptura que exigiu reconstrução.
“Você precisa inventar um novo jeito de ser. É um processo de reorganizar o caos da dor”, afirmou. Para ele, a experiência da perda não se encerra no vazio, mas desencadeia movimentos de adaptação que também podem se refletir na criação.
Natalia também destacou que a noção de finitude está diretamente ligada à forma como se constrói sentido. “A gente é finito. E é justamente isso que nos obriga a escolher, a dar forma às coisas”, disse.
Segundo a escritora, reconhecer limites, de tempo, de corpo e de existência, é parte do processo de elaboração e também da criação.
Criação, limites e decisões
Kisser associou o processo criativo à experiência de lidar com limites e transformações ao longo da vida. “A gente precisa fazer escolhas o tempo todo. E elas vêm muito desses momentos de ruptura”, disse.
Natalia trouxe a escrita como um exemplo desse movimento. Segundo ela, um dos seus livros foi produzido pouco tempo após a morte do pai, ainda em um momento de dor intensa. “Escrevia chorando. E acho que isso fica no texto. As pessoas leem chorando nos mesmos trechos”, afirmou.
Para a escritora, o processo não teve caráter terapêutico, mas ajudou a estruturar a experiência. “Não escrevi para me curar. Até porque tem coisas que não têm cura. Escrevi porque não havia mais nada que eu pudesse fazer”, disse.
Ela também destacou que o luto pode ser entendido como um processo criativo, na medida em que exige reorganização da vida após a perda. “Quando alguém muito importante morre, a gente precisa inventar um novo jeito de ser”, afirmou.
O artista reforçou essa relação a partir da própria trajetória na música. “Lido com tudo o que acontece na minha vida através da arte. Para mim, é uma coisa muito natural”, disse.
A partir disso, por exemplo, que Kisser criou o Patfest, evento beneficiente que reúne músicos de diversos estilos, em tributo à sua falecida esposa, que chegou a sua quarta edição no ano passado.
Para os dois, a relação entre criação e limite também aparece na necessidade de fazer escolhas. “A gente não consegue estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso também é ser finito”, afirmou Natalia. “A partir dos limites, você tem que ser mais criativo para encontrar outros caminhos”, completou Kisser.