Women to Watch

Na era da IA, relações ainda serão o alicerce da vida

Para além dos negócios, conexões sólidas entre as pessoas, sejam nos ambientes de trabalho ou em outras esferas sociais, seguirão como o termômetro para o sucesso

i 31 de março de 2026 - 11h53

Relações IA

Da esq. para a dir.: Jandarci Araújo, Carol Romano e Dani Juno, debatem a partir das colocações feitas pela moderadora Claudia Colaferro (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

A inteligência artificial permitirá que as pessoas deleguem às máquinas boa parte das atividades cotidianas, sejam as do trabalho ou as que fazem parte da vida pessoal. Uma delas, no entanto, não poderá ser desempenhada por nenhuma tecnologia e assumirá papel ainda mais central nessa nova era: as relações entre as pessoas.

A conexão humana, acima de qualquer tecnologia e até mesmo dos negócios, foi o tema escolhido para abrir a programação da edição 2026 do Summit Women to Watch. Por mais um ano, o evento reúne líderes e profissionais de agências, anunciantes, veículos e empreendedores para analisar a comunicação e evolução das relações a partir da perspectiva das mulheres no mercado de trabalho.

O primeiro debate do evento reuniu, no palco do Hotel Unique, em São Paulo, quatro mulheres que direcionaram suas carreiras para funções que extrapolam o objetivo de negócios e propõem conexões – sejam elas entre empresas e pessoas com propósitos em comum ou até mesmo entre indivíduos que, muitas vezes até sem saber, compartilham as mesmas dores e desafios.

Dani Junco, por exemplo, decidiu começar por um desabafo no LinkedIn. Por volta de 2015, após ter passado pela gravidez, sentia-se sozinha e um pouco isolada em meio a diversas postagens de pessoas que pareciam levar a vida perfeita tanto em suas carreiras quanto em casa, com os filhos. Em um ato de sinceridade, ela usou a rede social para perguntar se havia outras mães, assim como ela, sentiam-se sem perspectivas na carreira e impaciente com os filhos e com as diversas demandas. Mais de 80 mulheres sinalizaram que se identificavam com todos aqueles sentimentos.

A partir daí, surgiu a semente da B2Mamy, hoje uma consultoria de inteligência de mercado dedicada a conectar empresas e músicas ao universo das mães, ao mesmo tempo em que se propõe a ser um elo de conexão entre essas mulheres.

“Me dedico a ver a transformação e as mudanças das mulheres em relação à maternidade e como isso impacta em suas carreiras. As mulheres tomam a maior parte das decisões de compras e a tendência é que os filhos reproduzam e sigam o comportamento de consumo das mães”, citou Dani, pontuando como a questão da maternidade também é crucial quando se pensa em negócios.

Relações no trabalho

Assim como Dani, que colocou a visão humana, da maternidade, a frente de uma proposta de negócio, a psicanalista Carol Romano também aprofundou-se em uma questão específica quando estruturou o trabalho de sua consultoria, a Futuro Company: as relações entre as pessoas – mais especificamente, as conexões que as pessoas constroem dentro do ambiente de trabalho.

Ao estudar sobre performance organizacional, analisando também essas observações com seu trabalho como psicanalista, Carol conta que mapeou que os maiores desgastes humanos, em qualquer esfera, estão nas relações com as outras pessoas. Como exemplo, ela cita um estudo recente que apontou que, no Japão, cerca de 25% dos jovens afirmam que não querem se relacionar, do ponto de vista romântico. Como justificativa, eles dizem que relacionamentos carregam uma gama de frustrações e desapontamentos com os quais eles não estão dispostos a lidar.

“Os principais desgastes do mundo são as relações, mas sem relações, o ser humano não sobrevive. Somos seres emocionais e quando tiramos a emoção das nossas vidas, adoecemos. Quando pensamos no futuro, sabemos que ele será tecnológico, mas nao há como olhar para o futuro sem pensar na importância das relações”, comentou.

Abordar conexões e fazer com que mais pessoas façam parte dessas grandes teias de relações é o propósito da CEO e conselheira da Orev, Jandaraci Araújo. Vivenciando a importância das relações desde o nascimento – por ter 7 irmãos e 88 primos – a executiva, que também é especialista em governança e diversidade, passou a abordar, em seu trabalho, como as relações de negócios devem ser pensadas para que mais pessoas façam parte do mesmo jogo.

A síndrome da solidão, tão propagada nos eventos nacionais e internacionais como um efeito colateral da atual era tecnológica e das relações, Jandaraci destacou que essa sensação de isolamento abre caminhos para comparações e que elas escancaram desigualdades ainda amplamente presentes.

“Quando alcançamos algumas posições mais altas e mais vantagem social, minimamente é preciso pensar sobre a questão dos privilégios. Essa conversa de que temos que chegar ao topo é mesquinha, porque no topo, muitas vezes, cabe uma pessoa só. Nosso papel é pensar sobre como criar espaços e ampliar os lugares para que mais pessoas possam crescer”.

A executiva disse que essa conversa passa diretamente por uma análise a respeito de justiça econômica. Jandaraci citou que, por exemplo, apesar de saber que mulheres pretas, como ela, representam 28% da população, esse percentual não tem a mesma equivalência se essas mulheres ganham menos e não conseguem acessar os mesmos pontos de consumo. “Só conseguimos banir a escassez a partir da construção de relacionamentos”, pontuou.

Moderadora do painel, Claudia Colaferro, CEO e sócia-fundadora da AngelUS, destacou o fato de as três convidadas representarem causas conectadas à questão humana mas, ao mesmo tempo, serem executivas que transformaram essas questões em uma plataforma de negócios, para auxiliar empresas e marcas a prosperaram a partir da construção de relações mais humanizadas e com propósito.

“É importante lembrar que, por mais que a gente debate sobre o avanço da inteligência artificial, ela não comprará produtos: ela receberá o comando de alguém para efetuar esse consumo. Precisamos sair da nossa bolha, de nossa zona de conforto e entender que continuaremos precisando de gente, por todos os lados e em todos os lugares”, finalizou Claudia.