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Criatividade e diversidade na era da inteligência artificial

Eduardo Saron, da Fundação Itaú, e Dora Kaufman, professora na PUC-SP, analisaram como a IA reforça a criatividade e não favorece a diversidade

i 31 de março de 2026 - 17h14

inteliência artificial

Dora Kaufman, professora na PUC-SP, Amanda Graciano, fundadora da Trama, e Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú (Crédito: Máquina da Foto)

A inteligência artificial e suas implicações na sociedade e, principalmente no mercado de comunicação, foi um dos assuntos abordados no Women to Watch Summit 2026. E, inclusive, foi o principal tópico de uma conversa entre Eduardo Saron, presidente da Fundação Itaú, Dora Kaufman, professora na PUC-SP em IA e sociedade e senior fellow do CEBRI, mediada pela fundadora da Trama e content creator de negócios e IA, Amanda Graciano.

Antes de começar sua fala, Saron salientou que que não é nenhum especialista em inteligência artificial, mas que acha importante que as pessoas sejam curiosas e ativas na compreensão desse tema. Neste sentido, Dora reforçou que quanto mais se fala sobre IA, mais complexo se torna falar sobre o assunto.

A professora da PUC discorda do pensamento comum entre a maioria das pessoas de que a IA é uma ferramenta. Para ela, em nada a IA se assemelha com um “martelo”, que é, de fato, uma ferramenta. “Ela [IA] é uma tecnologia de propósito geral que, como tal, está mudando a lógica de funcionamento da sociedade”, comentou.

E essa tecnologia de propósito geral, na sua visão, está impactando significativamente, dois atributos fundamentais para os seres humanos: está mudando a maneira como o ser humano decide e como ele cria, inova.

Saron ressaltou que, apesar de a inteligência artificial ser uma tecnologia de propósito geral, assim como a energia elétrica, por exemplo, ela é agêntica e exponencial. “Tem uma outra coisa que deixa tudo mais complexo, ainda mais para vocês da comunicação. Ela lida com imaginários, e ela lida com imaginários de maneira silenciosa”, argumentou.

Transformando o processo de criação

No processo de escrita de seu livro, em parceria com Giselle Beiguelman, Dora revelou que fizeram um estudo que chegou em uma série de conclusões sobre criatividade e inteligência artificial. Uma delas foi que, no estágio em que a IA se encontra atualmente, quem controla a inovação, a criatividade e inovação, ainda são os humanos. “Mas, por outro lado, ela [IA] está transformando a maneira como criamos”, enfatizou.

Apesar de já apresentar transformações mais objetivas em alguns aspectos, a IA na questão cognitiva, na visão de Dora, ainda precisa de maiores estudos, “porque não é fácil nem perceber como que muda a nossa cognição e muito menos fazer pesquisa nesse sentido”.

No entanto, a professora salientou que a enquanto a cognição humana baseia-se em intuição, repertório e relações de causa e efeito, a IA opera sob um modelo estatístico de probabilidade. “Ela [IA] correlaciona nesse conjunto enorme de dados, imenso de dados, chamado big data, faz correlações entre palavras. E a resposta que te dá é sempre a probabilidade daquela junção ou de imagem, de pixels, ou de palavras”.

Diversidade como vantagem competitiva

Ao analisar a posição do Brasil na corrida global de desenvolvimento da IA, Saron argumentou que embora o País possa estar atrás em termos de infraestrutura e disciplina, atributos em que outras civilizações, principalmente asiáticas, se destacam, o Brasil, por sua vez, possui um insumo valioso: a diversidade. “Ela [IA] te entrega a disciplina. Este é pressuposto para essa modelagem estatística a partir das LLMs. Agora, ela não nos entrega diversidade”.

Justamente por trabalhar sob um modelo de probabilidade estatística, que replica padrões, Dora salientou que a inteligência artificial ameaça a diversidade. “A tendência da IA generativa, por exemplo, que produz conteúdo, é exatamente trazer esse o padrão dominante. Quando eu reproduzo o padrão dominante, acaba eliminando as nuances, a diversidade”, complementou.

Investir em letramento

Para evitar essa reprodução da “mesmice”, Dora reforçou a importância do letramento em IA para todos os níveis das organizações. E para a professora, letramento em IA significa entender a lógica por trás de seu funcionamento e todas suas nuances.

“Quando você entende que IA é um modelo estatístico de probabilidade, que trabalha identificando padrões em grandes volumes de dados, quando entende o que pode te trazer e o que não pode te trazer, quais são os riscos embutidos, quais são os potenciais danos, quando você se capacita nesse sentido, ela é fenomenal”, comentou.

Após esse entendimento, para Dora, o foco do ser humano é focar no que a tecnologia não é capaz de replicar. “O que tem para nós é exatamente o que ela não é capaz de fazer, que é o controle, a intencionalidade da criação”, argumentou.

Diante disso, na visão Saron, a resposta para a soberania cognitiva humana frente à inteligência artificial, é justamente a vivência, o vínculo, a vida vivida. “Ser ser humano é, sobretudo, estar presente”, concluiu.