WW Summit

Futebol feminino: quando o legado vai além do campo

Prestes a receber a Copa do Mundo feminina, em 2027, Brasil celebra a maior valorização do esporte, mas barreiras ainda precisam ser superadas

i 1 de abril de 2026 - 6h02

futebol feminino

Da esq. para a dir.: Formia, Gal Barradas, Johson e a jornalista Milly Lacombe (Crédito: Eduardo Lopes/Máquina da Foto)

Quando tinha 10 anos de idade, a garota Miraildes Maciel Mota apanhava dos irmãos, em casa, por querer jogar futebol. A menina – que anos depois, escreveria seu apelido, Formiga, na história do esporte brasileiro como a recordista em participações em Copas do Mundo – teve de sair de casa aos 13 anos para perseguir seu sonho e ter o direito de entrar em campo como atleta profissional.

Já em fevereiro de 2026, Ingrid Aparecida Borges de Morais, aos 20 anos, entrava em campo para disputar a final da Copa do Mundo de Clubes Feminina, pelo Corinthians, seu time do coração. O clube brasileiro perdeu a partida, na prorrogação, para o Arsenal, da Inglaterra, mas as brasileiras, incluindo a atacante Jhonson, foram elogiadas por sua postura e pelo futebol apresentado.

Entre as trajetórias de Formiga e de Jhonson, muita bola rolou no futebol feminino no Brasil e no mundo. A modalidade, que chegou a ser proibida para mulheres, hoje é a que, globalmente, mais cresce em quantidade de fãs e em termos de visibilidade. E esse holofote deve ser ampliado no próximo ano, quando, pela primeira vez, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina.

Para falar sobre esse momento único na história do esporte mais popular do País – mas que, por décadas, não teve lugar ou espaço para elas – reuniram-se no palco do Summit WW nessa terça-feira, 31, em São Paulo, Formiga (hoje não mais como jogadora, mas na posição de diretora de políticas de futebol e promoção do futebol feminino no Ministério do Esporte), Jhonson (atacante do Corinthians) e Gal Barradas (diretora de receitas e marketing da Copa do Mundo Feminina Fifa 2027).

Com a moderação da jornalista Milly Lacombe, as atletas relembraram a diferença de seus históricos. Enquanto Formiga, além do preconceito dentro e fora de casa, enfrentou também todas as dificuldades possíveis para praticar o esporte que amava, a jovem promessa do Corinthians e da seleção brasileira encontrou um terreno mais aberto.

“Desde pequena, ia com meu pai jogar futebol, na várzea, e sempre me destaquei, entre os moleques. Achei que aquilo seria legal para mim, fui para a escolinha em Londrina (Paraná) e, algum tempo depois, fechei meu primeiro contrato com a Nike e, logo após com o Corinthians, o que era a realização de um sonho, por ser corintiana. Sempre existe a dificuldade em ser mulher e querer jogar futebol, mas não passei nem a metade do que ela [Formiga] passou”, disse Jhonson.

Dificuldades, realmente, fazem parte da trajetória profícua de Formiga, que acabou se tornando a única atleta de futebol da história, entre homens e mulheres, a disputar sete Copas do Mundo.

“Cheguei em São Paulo com 19 anos e me deparei com um preconceito maior do que encontrei em Salvador, onde nasci e cresci. Não tínhamos marcas parceiras e ninguém se interessava pelo futebol feminino. Na minha primeira Copa do Mundo, minha caneleira foi um pedaço de papel. Ouvíamos que as mulheres tinham que lavar louça, ficar no fogão e cuidar da casa”, relembra a ex-jogadora e, hoje, uma das maiores vozes em prol da valorização do esporte.

A oportunidade de uma Copa

Mediadora do painel, a jornalista Milly Lacombe sentenciou que nada será como antes, para o futebol feminino, após a Copa do Mundo do próximo ano.

A opinião foi compartilhada por Gal Barradas, que abraçou a missão justamente de levar marcas e negócios para a competição de seleções da Fifa. Após uma longa carreira na indústria da publicidade, a executiva, que se diz apaixonada por futebol, diz que a oportunidade, agora, é mudar o patamar do esporte tanto do ponto de vista econômico como do social.

“O interesse pelo futebol feminino só cresce. Em 2019, na França, tivemos um público de 1 milhão de pessoas nos estádios. Já em 2023, na Austrália e Nova Zelândia, esse número subiu para 2 milhões. Imaginem o que podemos fazer no Brasil”, declarou Gal, pontuando que, para esse crescimento, consistência é a palavra de ordem.

“Quem se preocupa com as causas e questões femininas precisa estar atento a movimentos maiores. E um evento como a Copa do Mundo, com a excelência que a Giga entregará, será uma grande oportunidade de instalar o poder desse esporte no imaginário das pessoas”, completou Gal

Formiga também pontuou que o fato de receber o Copa abre oportunidades para que a sociedade veja o futebol feminino com outros olhos. “Por muitos anos, não tivemos mulheres na posição em que estou hoje. E nada melhor do que alguém que realmente entende as necessidades do futebol feminino para pensar na evolução que ainda precisamos ter. A nossa realidade em São Paulo não é a mesma do que em outros locais do País. São Paulo sempre foi a casa do futebol feminino, mas há muitos clubes ainda no Nordeste e em outras regiões do Brasil que não têm essa realidade”, lembrou.

Jhonson também compartilhou suas expectativas sobre a Copa do Mundo, sob o ponto de vista de quem espera fazer a diferença em campo. “Claro que quero jogar a Copa, minha expectativa está muito alta. Estou muito feliz em saber que a Copa será aqui e que poderei levar minha família para assistir. Espero que eles possam me ver brilhar e que a gente possa mostrar a raça que tem o Brasil”, declarou a jovem atacante.

Gal Barradas destacou que lutar pela evolução do futebol feminino não se trata somente de valorizar o esporte e as atletas. Ela conta que, nesta trajetória atual na Fifa, conseguiu assimilar como a força feminina em uma Copa do Mundo vai bem além das jogadoras, envolvendo árbitras, técnicas, médicas, massagistas e outras especialistas.

“Vamos aprendendo, dia a dia, como esse movimento é muito maior e que ele não pode parar. Essa é nossa missão e faremos a maior Copa do Mundo feminina que a Fifa já viu”, prometeu Gal.