WW Summit

“IA pode acabar com a escravidão do trabalho”, diz Viviane Mosé

Filósofa discute impactos da tecnologia na organização do trabalho e nas relações humanas

i 31 de março de 2026 - 12h10

Viviane Mosé durante o painel “Humanidade, emoção e laços: nossa tecnologia ancestral” no palco do WW Summit  (Créditos: Máquina da Foto)

Viviane Mosé durante o painel “Humanidade, emoção e laços: nossa tecnologia ancestral” no palco do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)

O painel “Humanidade, emoção e laços: nossa tecnologia ancestral”, realizado na manhã desta terça-feira, 31, moderado pela jornalista Cris Guterres, trouxe a filósofa e psicanalista Viviane Mosé no palco do WW Summit para discutir o papel das capacidades humanas em um cenário cada vez mais orientado por tecnologia.

Durante a conversa, Viviane abordou os impactos da inteligência artificial nas relações sociais e na organização do trabalho. Para ela, o avanço da tecnologia abre espaço para uma revisão estrutural desse modelo.

“O nosso problema não é a tecnologia. A escravidão do trabalho pode e deve ser substituída pela IA. A questão é o que vamos fazer com o tempo e com a vida que sobra”, afirmou.

A filósofa também diferenciou a lógica das máquinas da experiência humana. Segundo ela, a IA opera com base em dados e padrões, mas não acessa dimensões como o instante, o afeto e a presença.

“A inteligência artificial tem uma hipercapacidade de lidar com dados e multidões, mas não acessa o agora. Não acessa o afeto. E não existe inteligência que não seja emocional”, disse.

Redes, virtualização e saúde mental

Segundo Viviane, há uma transição de um “mundo em pirâmide”, em que alguns, no topo, ditavam as regras, para uma sociedade conectada em rede, o que altera dinâmicas de poder e decisão e amplia a complexidade das interações.

Para ela, esse novo cenário levanta desafios sobre como lidar com decisões e comportamentos distribuídos. “Como vamos, horizontalmente, lidar com esses gestos individuais?”, questionou, destacando que a IA tem uma hipercapacidade de lidar com multidões, intensificando dinâmicas sociais em escala.

O público também participou com perguntas sobre saúde mental e os impactos das dinâmicas digitais. Em suas respostas, a filósofa chamou atenção para o que descreveu como uma “ilusão de presença” nas interações mediadas por tecnologia, que pode intensificar sentimentos de desconexão.

Viviane Mosé e Cris Guterres durante o painel “Humanidade, emoção e laços: nossa tecnologia ancestral” no palco do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)

Viviane Mosé e Cris Guterres durante o painel “Humanidade, emoção e laços: nossa tecnologia ancestral” no palco do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)

“A gente vive uma ilusão de estar no instante, de estar junto, mas muitas vezes isso não se sustenta no corpo, no encontro real. Isso pode gerar um tipo de vazio e, em alguns casos, incentivar processos de adoecimento psíquico”, afirmou.

Ela também destacou a fragilidade como parte da experiência humana. Para Viviane, reconhecer isso é essencial para a construção de vínculos mais consistentes.

“Se a inteligência artificial acelera processos, são os vínculos que sustentam a vida. E vínculo exige presença, exige corpo, exige tempo. A fragilidade não é um erro, é parte do que nos constitui”, concluiu.