WW Summit

O papel dos homens no combate à violência contra mulheres

Painel abordou responsabilização masculina, desafios culturais e formas de ampliar o diálogo com a sociedade

i 1 de abril de 2026 - 12h50

Guilherme Valadares, Luciana Temer e Paulo Germano no palco do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)

Guilherme Valadares, Luciana Temer e Paulo Germano no palco do WW Summit (Créditos: Máquina da Foto)

O avanço da violência contra mulheres no Brasil e o papel dos homens diante desse cenário conduziram a conversa entre Guilherme Valadares, fundador e diretor de pesquisa do Instituto PDH PapodeHomem, e Luciana Temer, advogada e presidente do Instituto Liberta, em painel mediado pelo jornalista Paulo Germano, do Grupo RBS, no WW Summit.

Para Germano, o momento atual evidencia uma contradição entre o aumento da conscientização sobre desigualdade de gênero e a persistência dos índices de violência.

Ao citar o conceito de backlash, da sociologia, que descreve reações de grupos dominantes diante da perda de poder, ele apontou que avanços sociais podem desencadear respostas agressivas.

Já Luciana Temer destacou que a ampliação de leis e políticas públicas voltadas à proteção das mulheres contribuiu para dar visibilidade ao problema, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) e a Lei do Feminicídio (Lei 13.104/2015).

“A gente está falando de legislações que surgem a partir do momento em que a sociedade começa a ter consciência da violência. Até então, a gente não sabia o que era feminicídio, porque era tudo homicídio e ainda hoje muitos casos não são registrados como feminicídio”, afirmou.

A advogada também chamou atenção para o caráter histórico da violência, ao mesmo tempo em que destacou mudanças recentes na forma como ela se manifesta.

“A violência contra a mulher e contra crianças existe desde que o mundo é mundo. O que a gente precisa analisar é o que reforça essa violência e por que ela está mais explícita, mais violenta e mais pública”, disse.

Reconhecimento e responsabilização masculina

Sobre o papel dos homens nesse contexto, Valadares afirmou que a dificuldade de avanço passa pela ausência de reconhecimento individual e pela dificuldade de responsabilização.

“Outro dia, em um debate, me perguntaram: ‘Onde o homem se vê no ciclo da violência?’. E eu respondi: ‘Ele não se vê’. Se eu não me vejo, não tenho consciência, não tenho reflexão, não tenho nada para reconhecer e, se não tenho nada para reconhecer, não tenho nada para assumir como responsabilidade”, disse.

“Eu trago isso também em primeira pessoa, porque é um exercício que a gente faz com homens. Digo publicamente, há mais de dez anos, que já fui machista, já fui violento. Porque, senão, a gente entra em uma situação em que todo mundo conhece uma mulher que foi agredida, mas nunca existe um homem que diga que já foi agressivo ou machista”, completou.

Luciana reforçou o caráter estrutural desse comportamento ao destacar que a dificuldade de reconhecimento não é apenas individual, mas construída ao longo do tempo.

“Muitos homens não se reconhecem porque eles, de fato, não se reconhecem. É tão estrutural que a gente não se dá conta”, disse.

Valadares então destacou que a transformação exige processos contínuos e estruturados. “Não é uma palestra, não é um workshop. É um compromisso mais longo, que passa pela autorresponsabilização”, afirmou.

Segundo ele, há ainda uma responsabilidade específica de homens que ocupam posições de liderança. “Se não tem recurso e comprometimento de quem está no espaço de poder, muitas vezes ocupado por homens, não tem transformação acontecendo”, disse.

O pesquisador também chamou atenção para a dificuldade de homens se posicionarem diante de outros homens. “Existe um medo de se indispor, de criar constrangimento, e isso mantém comportamentos que não são questionados”, afirmou.

O papel da comunicação

A advogada destacou a necessidade de ampliar o alcance das mensagens.

“O discurso não pode afastar, tem que convidar as pessoas a se aproximarem”, disse. Ela acrescentou que ainda há dificuldade em dialogar com quem não está engajado no tema: “Às vezes a gente fala demais com quem já está dentro da causa e não consegue se comunicar com quem está fora”.

Para ela, o enfrentamento da violência passa por processos educativos mais amplos. “A gente tem que ter coragem de educar. Mas, para ensinar as crianças, primeiro é preciso ensinar os adultos”, destacou.

“Existe a responsabilidade de homens que estão com a caneta na mão, com poder de decisão, com recursos, de transformar a maneira como eles estão se colocando nessa conversa. Porque, se não tem recurso e comprometimento de quem está nesses espaços, muitas vezes ocupados por homens, não tem transformação acontecendo”, completou Valadares.