Opinião

A miopia sobre as festas juninas

Eventos vão além da tradição e do forró, mas poucas marcas entenderam o negócio

Cris Pereira Heal

Sócia e vice-presidente da Batux 6 de maio de 2026 - 6h00

O mercado brasileiro continua tratando festas juninas como celebração regional, quase folclórica, enquanto bilhões circulam, picos de consumo são atingidos e oportunidades de marca desaparecem. Festas juninas são momentos culturais, forró ou tradição, e são também plataformas robustas de negócios capazes de gerar vendas expressivas, engajamento intenso e awareness real. Muitas marcas chegam tarde, operam de forma pontual e sem planejamento adequado, ignorando o público e desperdiçando escala, relevância e resultado.

Os números deixam clara a dimensão da oportunidade. Em 2025, segundo a Empetur, do Observatório do Turismo de Pernambuco, Recife e Caruaru (PE) movimentaram R$ 1,1 bilhão e receberam 1,6 milhão de visitantes, sendo 81% de fora do estado. Campina Grande (PB), conforme a prefeitura local, gerou R$ 742 milhões e segue em expansão.

De acordo com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo, Teresina (PI) soma R$ 290 milhões e Maracanaú (CE), um dos novos protagonistas da festa, ultrapassa R$ 100 milhões (dados da Prefeitura de Maracanaú), com público massivo. Rock in Rio e Lollapalooza juntos reuniram menos de 1 milhão de pessoas. Ainda assim, muitas marcas continuam tratando as festas juninas no Nordeste como oportunidade no calendário e não como negócio.

No varejo, o impacto é direto e expressivo. O consumo de cerveja, conforme pesquisa Nielsen IQ/Exame, cresce cerca de 34%, o de refrigerantes sobe 17% e o de leite em pó registra aumento de 3%. Os produtos típicos da festa, conhecidos como cesta junina, incluindo milho, pamonha, canjica, bolo de milho e amendoim, representam, segundo pesquisa Scanntech, 14,3% das vendas do varejo alimentar e, em algumas regiões do Nordeste, podem chegar a 3,7% do faturamento anual. Para muitas categorias, o São João é o pico absoluto de vendas do ano.

O problema não está no tamanho ou retorno do investimento. As principais festas movimentam R$ 100 milhões por evento entre cotas e ativações, com cerca de 30 patrocinadores e aportes médios de R$ 3 milhões, ultrapassando R$ 150 milhões quando grandes categorias, como cerveja, entram em cena. Além disso, o Ministério do Turismo estima que as festas juninas movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões em 2025. O ponto central está na visão estratégica. Muitas marcas padronizam atuação, ignorando nuances regionais. Caruaru combina forte presença de turistas e alto poder de consumo; Campina Grande tem tradição consolidada e forte engajamento local; Teresina é uma praça em ascensão e com valorização acelerada; e Maracanaú apresenta crescimento explosivo e público massivo. Tratar tudo de forma igual é equivocado.

Essa miopia não se limita ao São João. Ela se repete em outras grandes manifestações culturais, como Festival de Parintins, Círio de Nazaré ou Oktoberfest. Marcas que não entendem o contexto cultural aparecem, mas não se conectam. Como diz minha sócia Chris Bradley, “nordestina raiz”, o São João é o “Rock in Rio do Nordeste”, reforçando a lógica de que presença sem conexão é custo, não investimento.

Outro ponto frequentemente ignorado é o uso de estrutura, mão de obra e expertise locais. Profissionais inseridos na cultura traduzem códigos, evitam ruídos e tornam ativações legítimas. O público percebe imediatamente quem realmente pertence ao território e quem apenas está tentando participar.

A experiência ao vivo gera memória, cria vínculo e engajamento. Não é por acaso que 73% do público presta atenção nas marcas presentes. Ignorar isso significa abrir mão de atenção, relevância e vendas. Em 2026, a coincidência das festas juninas com o campeonato mundial de seleções da FIFA vai elevar ainda mais o fluxo, o consumo e a competição por atenção.

Quem sabe o São João não vira um dos melhores lugares para assistir à Copa? Entre uma quadrilha e outra, uma bandeirinha e outra, o Brasil real está ali, consumindo, celebrando e movimentando a economia. As festas juninas já deixaram de ser apenas calendário ou tradição cultural há muito tempo. São plataformas vivas de negócio, de conexão e de construção de marca. No fim do dia, quem entende o ritmo do forró chega junto. Quem não entende… acaba só assistindo – de fora da roda.