Opinião

Transparência além da hashtag

Por que uma indústria que reivindica sofisticação estratégica ainda convive com níveis de clareza comercial inferiores aos de outras disciplinas de marketing?

Daniela Cadena

Sócia e CEO da Purpple Creators 7 de maio de 2026 - 6h00

Durante muito tempo, o debate sobre transparência no marketing de influência esteve concentrado no ponto mais visível da cadeia: o influenciador. A discussão girava em torno da sinalização de publicidade, da ética com a audiência e do uso adequado das plataformas. Mas, na prática do mercado, quem opera influência diariamente sabe que o ponto mais sensível raramente está no feed.

À medida que o setor amadurece, a questão deixa de ser apenas como o criador comunica a publicidade e passa a ser como as relações comerciais por trás dela estão estruturadas.

O marketing de influência deixou de ser experimento e se tornou linha orçamentária estratégica. Ainda assim, seguimos convivendo com uma zona cinzenta relevante na relação entre marcas, agências e creators. Marcas nem sempre têm clareza sobre como se compõe o investimento total. Creators desconhecem o valor global negociado em seu nome. Agências operam com modelos de margem que nem sempre são explícitos. No centro desse triângulo, a dinâmica ainda se apoia mais em confiança presumida do que em transparência estruturada.

Não se trata de questionar a legitimidade da intermediação, ela é parte essencial do ecossistema. A provocação é outra: por que uma indústria que reivindica sofisticação estratégica ainda convive com níveis de clareza comercial inferiores aos de outras disciplinas de marketing?

Em campanhas tradicionais, composição de custos, fee de agência e critérios de avaliação são elementos institucionalizados. No marketing de influência, muitas negociações seguem pouco padronizadas e altamente dependentes de percepção. Isso amplia a assimetria de informação e compromete não apenas a eficiência financeira, mas a solidez das relações.

Nem toda precificação seguirá lógica puramente numérica, porque influência não é ciência exata. Nem toda entrega será traduzida em ROI imediato e está tudo bem. O que não está tudo bem é manter estruturas em que critérios não são compartilhados, expectativas não são formalizadas e o entendimento de valor muda conforme o lado da mesa.

Complexidade não pode ser sinônimo de falta de transparência.

Transparência comercial fortalece todos os lados. Para a marca, reduz o risco e aumenta a previsibilidade. Para a agência, consolida seu posicionamento estratégico ao vincular remuneração à complexidade do trabalho e não à falta de visibilidade na composição de suas margens. Para o creator, garante segurança jurídica e reconhecimento proporcional à entrega.

Crescer em volume sem fortalecer a estrutura é um risco que o mercado já não pode mais naturalizar.

A verdadeira evolução da transparência no marketing de influência está nos contratos, nas planilhas e, principalmente, na qualidade das conversas que acontecem antes da campanha ir ao ar.