Opinião

O “devorar” ao “ser devorado”: como o Brasil virou linguagem global

Se antes a antropofagia era um gesto de resistência, o Brazil Core é um gesto de projeção

Albano Neto

CSO da Score 8 de maio de 2026 - 6h00

Por muito tempo, o Brasil foi um país que olhava para fora para se entender.

Hoje, talvez pela primeira vez de forma consistente, o mundo começa a olhar para o Brasil para se expressar.

Essa virada não é óbvia muito menos acidental.

Ela tem raízes profundas.

Em 1928, ao publicar o Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade propõe uma das ideias mais sofisticadas já produzidas pela cultura brasileira: a antropofagia como método.

Mais do que uma metáfora provocativa, tratava-se de uma estratégia cultural. Diante de um cenário em que o Brasil ainda operava como reflexo da Europa, a proposta era inverter a lógica: não mais copiar, mas absorver e, sobretudo, transformar.

A força não estaria na origem, mas na capacidade de recombinação.

A partir dali, a identidade brasileira deixa de ser um problema a ser resolvido e passa a ser um processo. Quase um século depois, esse processo atravessa um ponto de inflexão.

O que antes era um movimento de construção interna começa a se manifestar como linguagem exportável.

O chamado “Brazil Core” (ainda difuso como conceito, mas evidente como fenômeno) traduz esse momento. Não se trata de uma estética única, mas de um conjunto de sinais: sobreposição de referências, contraste entre precariedade e potência, improviso como linguagem, sensualidade crua, excesso visual, energia quase caótica.

Se antes o Brasil digeria o mundo, agora começa a devolvê-lo em uma forma própria e reconhecível.

O cinema talvez seja o território onde essa virada se tornou mais visível e mais recente.

Em março de 2025, Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, se tornou o primeiro filme brasileiro a vencer o Oscar de Melhor Filme Internacional. Com Fernanda Torres no papel de Eunice Paiva — e um Globo de Ouro no currículo —, o filme levou uma história da ditadura militar brasileira ao centro da conversa global sem precisar se adaptar a expectativas externas.

Um ano depois, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, chegou ao Oscar de 2026 com quatro indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Wagner Moura.

Dois anos seguidos, dois filmes brasileiros disputando as principais categorias da maior premiação do cinema mundial.

Não é coincidência. É sintoma.

Na música, o movimento é ainda mais explícito — e mais complexo do que parece.

Historicamente, o Brasil sempre foi uma ilha dentro da América Latina musical. Enquanto o reggaeton conectava Colômbia, Porto Rico, Argentina e México em um circuito cada vez mais integrado, o Brasil operava à parte, produzindo e consumindo majoritariamente a si mesmo. Hoje, 75% do streaming no País ainda é de artistas nacionais. Mas o que mudou não foi o Brasil ter se aberto para o mundo. Foi o mundo ter começado a entrar.

Em fevereiro de 2026, Bad Bunny fez seus primeiros shows no Brasil — duas datas esgotadas no Allianz Parque, em São Paulo. O maior artista latino do planeta levou quase uma década para pisar aqui. Não veio antes porque não precisava. Veio agora porque não podia mais ignorar: o Brasil já é seu terceiro maior mercado fora do mundo hispânico no Spotify. Após sua apresentação no Super Bowl, suas streams no país cresceram 426%. Bad Bunny não veio “conquistar” o Brasil — veio responder a uma demanda que já existia.

Na direção oposta, artistas brasileiros já não esperam convite para entrar na conversa global. Anitta transformou Funk Generation (2024) no primeiro álbum de funk indicado ao Grammy, alcançando paradas em mais de 65 países. Pabllo Vittar dividiu o palco com Madonna diante de 1,6 milhão de pessoas em Copacabana, entrou na Billboard Hot 100 e, em 2026, gravou com o grupo de K-pop NMIXX. Liniker venceu três categorias no Latin Grammy de 2025 com Caju.

Mas talvez os sinais mais reveladores venham de fora.

Bruno Mars gravou um funk em português.

Travis Scott sampleou baile funk em “K-Pop”.

Karol G e Maluma entraram no remix de “Tá OK”, misturando reggaeton e funk carioca.

Quando artistas desse porte passam a gravar em português, incorporar batidas de favela e olhar para o Brasil como fonte, e não como destino, o vetor se inverte.

Há, nesses movimentos, uma inversão simbólica importante.

Durante décadas, a globalização operou como um vetor de homogeneização cultural: centros irradiavam códigos e periferias os absorviam. O que começa a emergir agora é um fluxo mais complexo, em que geografias antes periféricas passam a influenciar o centro, não como exceção exótica, mas como fonte legítima de linguagem.

É nesse ponto que a conexão com a antropofagia deixa de ser apenas histórica e passa a ser vista.

O princípio continua o mesmo: absorver, misturar, transformar.

Mas a direção mudou.

Se antes a antropofagia era um gesto de resistência (uma tentativa de afirmar identidade diante de referências dominantes), o Brazil Core é um gesto de projeção.

A pergunta deixa de ser “quem somos?” e passa a ser: “o que podemos gerar a partir do que somos?”

Para as marcas, essa mudança não é semântica. É operacional.

O Brasil deixa de ser apenas um mercado a ser interpretado e passa a ser um território de produção cultural com potencial de exportação.

Isso exige uma inversão de lógica: sair da adaptação e entrar na originação.

Durante muito tempo, construir marca no Brasil significou traduzir códigos globais para um contexto local. O que começa a se desenhar agora é o oposto: desenvolver códigos locais com capacidade de escalar globalmente.

Nesse cenário, a cultura brasileira (com toda sua complexidade, contradição e potência) deixa de ser desafio e passa a ser um ativo.

Talvez a melhor forma de sintetizar essa transição seja simples: Se a antropofagia ensinou o Brasil a digerir o mundo, o Brazil Core marca o momento em que o mundo começa, finalmente, a digerir e consumir o Brasil.