Opinião

A Casa Verde e a produção

Os novos vetores de valor na transformação da indústria publicitária brasileira

Tato Bono

Presidente da Publicis Production 12 de maio de 2026 - 12h00

Em O Alienista, de Machado de Assis, Simão Bacamarte estabelece a Casa Verde como uma instituição de ordem social e caráter autoritário. A população, liderada por Porfírio, se revolta e critica o sistema. No entanto, mesmo aqueles que se opõem a ele acabam reproduzindo a mesma lógica de poder. Ou seja, independentemente de quem esteja no controle, a mudança estrutural não acontece.

Fazendo uma analogia com a atual tensão entre os grupos de comunicação e as produtoras independentes, é possível traçar um paralelo bastante útil. Mais do que uma disputa por poder, a obra revela um padrão recorrente de comportamento coletivo: a crítica a um sistema que, paradoxalmente, sustenta aqueles que o contestam.

De um lado, grandes grupos de comunicação avançam na verticalização da produção, internalizando etapas antes terceirizadas e operando com foco crescente em uma oferta ágil aos clientes, com escala, eficiência, qualidade e bom custo-benefício. De outro, produtoras independentes apontam a perda de espaço criativo e comercial, questionam a concentração de margem, mas ainda dependem fortemente desses grupos como principais demandantes de projetos.

Tal qual na narrativa machadiana, a oposição ao sistema não conduz necessariamente à sua transformação, mas à reprodução de sua lógica. Enquanto o debate permanece centrado em participação de mercado, uma mudança mais profunda ocorre: a transformação do eixo de valor da indústria.
À medida que essa mudança se torna mais compreendida, os papéis tendem a se redefinir e as formas de atuação, a se tornar mais claras.

O mercado se organiza em torno de quatro pilares principais: tecnologia, criatividade, escala e talento.
Os grandes grupos possuem capital para investir em apuro criativo, automação, uso de inteligência artificial (IA), integração de pipelines digitais e capacidade de produção em escala, com padronização e eficiência. Processos os quais demandam um novo pensamento de craft, mas não menos importante. Por outro lado, reconhecem limitações na diversidade de talentos para demandas específicas, o que mantém a relevância das produtoras independentes, responsáveis por agregar craft e projetos autorais.

Já as produtoras independentes, na prática, operam dentro de um modelo de dependência estrutural, no qual os grandes grupos de comunicação concentram a demanda e o controle da receita. Embora atuem indispensavelmente como parceiras criativas e produtivas, permanecem subordinadas a essa dinâmica de mercado.

No discurso, muitas vezes resistem à transição para novos vetores de valor, mas, no dia a dia, continuam inseridas nesse mesmo arranjo. Como consequência, perdem força estratégica no relacionamento, quando poderiam se posicionar de forma mais ativa em uma dinâmica que está em transformação, mas não, necessariamente, em deterioração.
Quando não acompanhada de mudanças de paradigma, a crítica apenas reforça a lógica atual de funcionamento, na qual cada agente atua dentro de seus próprios princípios. A mudança real ocorre quando os protagonistas estão dispostos a assumir novos papéis.

A verdade é que o mercado está mudando de lógica e a produção pulou de uma área marginal, em que era vista como um apêndice criativo, para o centro da indústria criativa, operando como um dos principais elos entre criação, mídia e conteúdo. Quem entender mais rápido onde o valor está sendo gerado e como se posicionar dentro dessa nova dinâmica tende a capturar mais relevância. No fim, os clientes são soberanos e determinarão como esse movimento ocorrerá. São eles que vão direcionar o investimento para quem melhor responder às suas necessidades.