Opinião

Educação como experiência coletiva

Em meio ao avanço das IAs, estudantes ainda valorizam contato humano no aprendizado

Eduardo Guedes

CMO do CNA+ 13 de maio de 2026 - 14h00

Nos últimos anos, a gente passou a acreditar que o melhor aprendizado é aquele que cabe na rotina individual: no celular, no próprio ritmo, sem depender de ninguém. A ideia é ótima. Conveniente, eficiente, sob medida. Mas, quando o assunto é idioma, ela esbarra em uma limitação simples: ninguém aprende a se comunicar sozinho.

Idioma é interação. É construção conjunta de sentido, negociação, erro compartilhado, escuta, adaptação constante ao outro. Quando a gente reduz esse processo a jornadas individuais mediadas por algoritmos, pode até ganhar eficiência. Mas perde interação real, troca, construção conjunta, justamente o que sustenta o aprendizado de um idioma.

Realizamos um levantamento que mostra que 83% dos estudantes de idioma concordam com a frase “mesmo com as inteligências artificiais, o professor e o contato humano são fundamentais para o aprendizado de outros idiomas”. E isso aparece também na prática: conversação, proximidade com professores e experiências mais dinâmicas seguem entre os fatores mais valorizados por quem quer evoluir de verdade.

É curioso como a sala de aula, tantas vezes tratada como ultrapassada, volta a fazer sentido nesse contexto. Não necessariamente como espaço físico, mas como ambiente social. Um lugar onde o aprendizado acontece de forma viva, meio imprevisível, dependendo do outro o tempo todo. Afinal, aprender em grupo não é só um formato, é o que sustenta o processo.

E mais, o aprendizado em grupo cria ritmo. Cria compromisso. Dificilmente alguém abandona com a mesma facilidade quando existe uma dinâmica coletiva envolvida. Tem uma responsabilidade ali que não vem só de meta individual, mas de pertencimento. E tem um outro ponto que quase não aparece nessa conversa: o ganho cognitivo. Quando você observa o erro do outro, antecipa caminhos, amplia repertório. Quando se arrisca, testa hipóteses, ajusta a forma de se comunicar. Aos poucos, constrói confiança.

Afinal, fluência não é apenas domínio técnico. É comportamento. E comportamento não se desenvolve isoladamente. A diferença entre saber palavras e falar com pessoas é uma verdade pedagógica reconhecida: os estudos de aquisição de segunda língua chamam isso de “fluência produtiva versus competência receptiva”.

Claro, isso não significa negar o papel da tecnologia e dos aplicativos, por exemplo. Pelo contrário. Plataformas digitais ampliam acesso, oferecem prática complementar e trazem inteligência de dados valiosa. O problema é quando a tecnologia passa a ocupar o lugar de solução completa, e não de ferramenta a serviço de algo maior.

Sabemos que esse resgate do coletivo não acontece de uma hora para outra. Ele faz parte de um movimento maior de revisão do papel da tecnologia na educação e na vida cotidiana, especialmente entre crianças e jovens. Iniciativas como a Lei Felca, que propõe limites mais claros para o uso de dispositivos em contextos educacionais, são um sinal disso.

Ao mesmo tempo, a cultura popular começa a refletir esse desconforto: o Toy Story 5, ao colocar um dispositivo eletrônico como antagonista, traduz uma sensação crescente de saturação. Não se trata de rejeitar a tecnologia, mas de recolocá-la no seu devido lugar. E, quando isso acontece, experiências presenciais e coletivas deixam de ser exceção e voltam a ser centrais.

No marketing, já entendemos que marcas fortes não se constroem apenas com alcance, mas com experiência. Na educação, existe uma oportunidade clara, ainda pouco explorada, de reposicionar o aprendizado como jornada relacional, e não apenas transacional. Nesse cenário, o papel das instituições de ensino se transforma. Não são mais apenas provedoras de conteúdo, mas curadoras de experiências coletivas de aprendizagem. Ambientes onde o aluno não apenas consome informação, mas participa, testa, erra, ajusta e evolui com o outro.

Marcas de educação precisam voltar o olhar para a qualidade da interação que conseguem promover para os seus alunos. Na capacidade de formar grupos que funcionam, professores que mediam, e jornadas que fazem sentido, não só individualmente, mas coletivamente.

Em um mercado obcecado por escala, o verdadeiro diferencial competitivo está justamente no que não escala com facilidade: interação de qualidade, mediação humana e experiências compartilhadas.

Porque, no fim, aprender um idioma não é sobre estudar sozinho até acertar. É sobre se comunicar com o outro. E isso, inevitavelmente, começa junto, em grupo.