Opinião

Esse marketing não serve

A maioria dos negócios nasce pensando em quanto vai lucrar, e não em quem irá ajudar a ter um serviço melhor, mas o cliente percebe

João Branco

Professor e conselheiro 14 de abril de 2026 - 16h30

Por que você escolheu a sua profissão? Se trabalha com publicidade ou marketing, aposto que em algum momento já valorizou sua criatividade, proatividade ou habilidade de se expressar. Foi por isso que aceitou a vaga onde está hoje? Você caiu nesse meio por acaso? Ou está nessa carreira simplesmente porque tem boletos para pagar?

Fiquei tão curioso para entender melhor como os brasileiros decidem as suas atividades profissionais que rodei uma pesquisa sobre isso. Em parceria com a consultoria Provokers, entrevistamos 1.033 brasileiros e pedimos que eles definissem os três fatores mais importantes ao avaliar uma oportunidade de trabalho. O resultado? O salário aparece com folga na liderança… é o fator mais importante. Na sequência, estão temas relacionados a carga horária, localização, benefícios e habilidades exigidas. Histórico da empresa e cargo aparecem com uma importância menor. E, empatados em último lugar, estão: os colegas com quem vou trabalhar, a missão do negócio e quem serão os meus clientes.

Isso significa que, na prática, quase ninguém escolhe a profissão pensando em quem vai servir. Para ser mais exato, 96% dos brasileiros decidiram seu trabalho por outros fatores, e não pelo tipo de cliente que terão.

Entendo a importância da remuneração. Quem está com fome precisa de pão, não de frase bonita. A primeira razão para trabalhar é subsistência, comida na mesa, conforto para a família. Mas ouso dizer que a maioria dos leitores deste texto não está nessa situação. Você tem algum grau de
opção de como vai colocar o pão na sua mesa. Um publicitário pode empreender. Uma profissional de marketing tem a chance de uma vaga mais perto ou mais longe de casa. Mesmo quando a vida empurra, você ainda escolhe caminhos dentro do empurrão. E a sua escolha muda muita coisa.

Pense comigo: prefere levar seu filho a uma pediatra apaixonada por crianças ou a uma obcecada por aparecer em rankings das médicas mais famosas? Prefere uma escola em que professores se realizam vendo crianças escreverem pela primeira vez ou uma que só pensa em ser a mais lucrativa do país?

Você consegue perceber a diferença?

O cliente percebe. O tema mexeu tanto comigo que esse virou o título do meu terceiro livro, que acaba de ser lançado e contém essa pesquisa completa.

A maioria dos brasileiros não escolhe sua carreira pensando em quem vai servir, mas no tipo de trabalho que fará e na remuneração que espera alcançar. Da mesma maneira, a maioria dos negócios nasce pensando em quanto vai lucrar, e não em quem irá ajudar a ter um serviço melhor. O cliente entra na história depois, quase como detalhe operacional.

Estamos em uma indústria que fala o tempo todo sobre consumidor, audiência, experiência e jornada. Discutimos dados, segmentações, insights e comportamento. Nossos negócios têm frases bonitas no estilo “consumer is the boss” coladas na parede. Mas o que ele realmente sente quando recebe o que oferecemos?

O mercado nos treinou para olhar para o bolso, para o concorrente e para o curto prazo. Ao fazer isso, acabamos afastando o cliente do lugar onde ele sempre deveria ter estado: o centro. É para ele que o seu negócio existe e é para ele que você trabalha. Quando não fazemos marketing assim, não serve. Literalmente.

É difícil encontrar pessoas e marcas que trabalham com essa consciência. Isso pode ser visto como um grande erro. Mas eu prefiro enxergar como uma gigantesca oportunidade: já pensou se os seus consumidores percebessem que a sua marca é diferente? Já pensou se os seus clientes sentissem que o seu trabalho tem um cuidado extra?

Não se esqueça: o cliente percebe.