SXSW

Publicidade tem responsabilidade na solidez do cinema, diz Fernando Meirelles

Fernando Meirelles e Rodrigo Pesavento descrevem processo por trás de Corrida dos Bichos e descrevem papel da publicidade no audiovisual

i 17 de março de 2026 - 6h00

O Rio de Janeiro é uma cidade distópica. E pode ser ainda mais. A capital fluminense é cenário de Corrida dos Bichos. O longa dirigido por Fernando Meirelles, Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis retrata a cidade fragmentada pela luta de classes e é cenário para um espetáculo que é sinônimo de opressão para uns, mas entretenimento para outros.

Nesta terça-feira, 17, o South by Southwest será palco para o lançamento do longa que tem produção da Prime Video, da Amazon. O elenco conta com nomes de peso do cinema e da televisão brasileira, como Rodrigo Santoro, Grazi Massafera, Isis Valverde, Bruno Gagliasso, entre outros.

Corrida dos Bichos

Fernando Meirelles, Ernesto Solis e rodrigo Pesavento: codireção complementar em Corrida dos Bichos, exibido nesta terça-feira, 17, no SXSW (Crédito: Divulgação)

Mas este não é um filme de ficção científica, segundo Pesavento, mas, sim, de um filme de ação com drama, que se passa em um Rio de Janeiro distópico. “Estamos falando de uma sociedade distópica que tem uma relação muito forte com o que encontramos hoje. É uma alegoria”, diz.

“Não existe muito deste gênero no Brasil”, acrescenta Fernando Meirelles. “Ciência não é muito identificada como uma coisa brasileira, apesar de termos cientistas brilhantes. Bacurau, ou Corrida dos Bichos, não é exatamente ficção científica, mas fala de um mundo no futuro, não muito feliz”. Bacurau também foi exibido no South by Southwest, em 2020, na edição que ocorreu de forma remota logo nos primeiros dias da pandemia.

A exibição ocorre em um bom momento para o cinema brasileiro. Ainda que o País não tenham levado a estatueta ao Brasil no Oscar (estava concorrendo na premiação com representantes nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Filme Internacional, Melhor Elenco e Melhor Fotografia), a visibilidade no cenário internacional é notória, sobretudo após o triunfo de Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, no ano passado.

O sucesso remonta há quase 30 anos. “Desde a criação das leis audiovisuais há 27 anos, a produção no Brasil aumentou. O número de escolas de cinema saltou de 12 para 186 em 20 anos, fora os cursos técnicos. E a indústria se fortaleceu”, justificou Meirelles. “Não estamos vivendo um soluço, com anos de bons filmes, mas sim colhendo os resultados de um investimento feito há mais de 20 anos que veio para ficar”, declara.

Corrida dos Bichos está sendo lançado com Prime Video, da Amazon, e, de acordo com o diretor, os streaming fomentam a produção audiovisual: é graças às plataformas, defende, que hoje se produzem e se assistem mais filmes do que em qualquer outro período.

Por que uma codireção?

Corrida dos Bichos foi criado por Enersto Solis, nome por trás do conceito e da idealização do projeto. Apesar disso, tinha menos experiência em sets — e é aí que entraram os parceiros para ajudar a transferir a visão de Solis às telas. “Pesavento entrou porque é um diretor habilidoso, e nem o Ernesto, nem eu, conseguiríamos fazer as sequências de ação que ele dirigiu com os recursos e tempo que teve”, diz Meirelles.

Corrida dos Bichos

Elenco de Corrida dos Bichos tem Grazi Massafera, Rodrigo Santoro, Isis Valverde, Leandro Firmino e  Thainá Duarte, entre outros (Crédito: Divulgação)

Ele esteve à frente da direção dos jogadores no filme, os apostadores no salão de jogos – que estavam estritamente ligados às cenas de ação dirigidas por Pesavento. Apesar das funções bem definidas de cada um dos diretores, houve uma simbiose orgânica feita a quatro mãos.

“Foi muito interessante trabalhar ombro a ombro, porque em todos os sets do Fernando eu estava junto sugerindo uma segunda câmera, um outro ângulo, e também conferindo com eles, porque eu tinha a coreografia da corrida na cabeça, eu sabia de cor. No meu set ele estava junto também, dando um apoio, fazendo segunda câmera, ou cobrindo detalhes necessários. Então, o set era meu, mas ele participava, ou no set dele eu acompanha”, descreveu Pesavento.

Entre a publicidade e o audiovisual

Pesavento tem longa trajetória na publicidade. Ele integrou o time de diretores de cena da O2 Filmes em 2014 e faz parte do hall dos diretores de filmes publicitários mais premiados do Brasil, acumulando prêmios como Profissionais do Ano, além de atuar como roteirista e diretor de documentários.

“Minha vida sempre foi contar histórias no meio audiovisual”, lembra. Ainda que a publicidade tenha sido a base, sua carreira foi marcada por inúmeros formatos, entre curtas-metragens, videoclipes, documentários e episódios de séries. “O que a publicidade nos dá é um fôlego pra uma corrida curta, uma força de explosão”, afirma.

O mercado publicitário dá tônica à produção cinematográfica, justamente, por manter e alimentar a velocidade das mudanças, seja tendências comportamentais, tecnológicas ou até mesmo formas de produzir e se comunicar. Segundo Pesavento, a relação entre a publicidade e o cinema e os filmes de ações, por exemplo, mora na visão diferenciada e na experiência que vivência na disciplina proporciona.

“As equipes não são as mesmas. Os tempos, os prazos, os custos. Sempre foi um grande aprendizado trabalhar e dirigir filmes publicitários”, detalha.

A relação entre a publicidade e o cinema também é um dos fatores que contribui para a longevidade da arte no País. Meirelles saúda o funcionamento das leis audiovisuais, mas defende que marcas podem — e devem — se associar a projetos com os quais se identificam e se beneficiar quando os projetos dão certo. Estratégias como o product placement, por exemplo, podem ser benéficos para projetos menores.

“Hoje temos uma indústria sólida e a produção para a publicidade tem muita responsabilidade nisso. Foi o que manteve técnicos e artistas em atividade por décadas. Com este chão sólido, creio que as perspectivas são muito positivas”, prevê Meirelles.