Opinião

De super-heróis a líderes reais

De super-heróis a líderes reais

Beatriz Bottesi

Lider de marketing da Meta na América Latina 14 de abril de 2026 - 18h00

Um dado recente me assombra. E me move. Uma pesquisa da Gallup revelou que 86% das pessoas infelizes no trabalho apontam seus líderes como o principal motivo. Oito em cada dez pessoas. Isso significa que a infelicidade corporativa, o burnout e a falta de engajamento não são problemas abstratos. Eles têm nome e sobrenome. Eles se sentam na cadeira da liderança.

Por muito tempo, o mercado nos vendeu a imagem do líder super-herói: infalível, inabalável, sempre com as respostas certas. Uma figura que inspira pelo poder, não pela conexão. Eu mesma já caí nessa armadilha. Tentei ser a líder que dava conta de tudo, que não demonstrava fraqueza. Mas a verdade é que esse modelo de liderança está quebrado. E os dados provam isso.

Mas outro dado me dá esperança: uma pesquisa da Catalyst com quase 900 funcionários descobriu que, em empresas com líderes empáticos, os funcionários são 76% mais engajados e 61% mais inovadores. A mesma pesquisa mostra que a empatia dos líderes reduz em 40% as chances de burnout.

Se a liderança é a causa de 86% da infelicidade, ela também pode ser a fonte da felicidade, do engajamento e da inovação. Está em nossas mãos, como líderes, a escolha de sermos heróis distantes ou humanos que conectam. É sobre isso que falei no meu primeiro TEDx: a jornada de deixar de ser um super-herói para se tornar um líder real.

A Queda do Super-Herói: Por que o modelo antigo não funciona mais

A liderança baseada no comando e controle, no medo e na infalibilidade, pertence a um mundo que não existe mais. Em um ambiente de trabalho pós-pandemia, onde a saúde mental se tornou uma prioridade e a “grande renúncia” mostrou que os talentos não hesitam em deixar culturas tóxicas, o custo de um líder “super-herói” (ou, na prática, tóxico) é devastador.

• Custo financeiro: A consultoria SHRM estima que a rotatividade causada por uma cultura tóxica custou às empresas americanas US$ 223 bilhões nos últimos cinco anos. Substituir um funcionário pode custar de 50% a 200% de seu salário anual.

• Custo humano: O Brasil bateu recordes de afastamento por saúde mental em 2025, com mais de 546 mil casos. O burnout, agora oficialmente uma doença do trabalho, disparou.

O líder super-herói, com sua armadura de perfeição, cria um ambiente onde ninguém se sente seguro para errar, para pedir ajuda ou para ser vulnerável. E a falta de segurança psicológica é o maior destruidor de inovação que existe.

O Projeto Aristóteles do Google e a Segurança Psicológica

Não sou eu quem diz isso. É o Google. Em seu famoso “Projeto Aristóteles”, a empresa passou anos tentando descobrir o que fazia uma equipe ser de alta performance. A resposta não foi a quantidade de PhDs, a senioridade ou o entrosamento fora do trabalho. O fator número 1, de longe, foi a segurança psicológica: um ambiente onde os membros da equipe se sentem seguros para assumir riscos e serem vulneráveis uns com os outros.

E quem cria essa segurança? O líder.

A Ascensão do Líder Real: Empatia como Ferramenta de Gestão

O líder real não é perfeito. Ele é humano. Ele entende que seu papel não é ter todas as respostas, mas fazer as perguntas certas. Que sua força não está em ser o melhor da sala, mas em potencializar o que cada um tem de melhor. Ele troca a capa pela coragem da vulnerabilidade.

Liderança empática não é “ser bonzinho”. É uma competência de gestão estratégica com resultados mensuráveis:

• Aumenta a Inovação: Em um ambiente seguro, as pessoas ousam mais, experimentam mais e, consequentemente, inovam mais (61% mais, segundo a Catalyst).

• Aumenta o Engajamento: Pessoas que se sentem vistas e cuidadas se conectam com o propósito da empresa e entregam seu melhor (76% mais engajadas).

• Reduz o Burnout: Um líder que reconhece os sinais de esgotamento e age para proteger sua equipe retém talentos e evita os custos humanos e financeiros do burnout (40% menos casos).

• Melhora os Resultados: Empresas com culturas empáticas superam seus concorrentes em até 20%, segundo a Harvard Business Review.

Como ser um Líder Real na Prática?

No meu dia a dia na Meta, tento praticar essa liderança de três formas:

• Vulnerabilidade Intencional: Eu compartilho meus desafios, meus “pratos caindo”, minhas incertezas. Quando o líder se mostra humano, ele dá permissão para que todos os outros também o sejam.

• Escuta Ativa: Eu tento (muitas vezes não consigo) ouvir mais do que falo. Entender o contexto de cada pessoa, suas motivações e seus desafios. A empatia começa pela curiosidade e pela escuta.

• Cuidado Genuíno: Eu me preocupo com as pessoas, não apenas com os profissionais. Pergunto como elas estão, não apenas o que estão fazendo. Cuidar de pessoas e de suas carreiras não é uma tarefa do RH; é a principal tarefa da liderança.

A Escolha que Define o Futuro

O mundo do trabalho mudou. A era do líder super-herói acabou. O futuro pertence aos líderes reais, que lideram com o coração e com os dados, que equilibram o High Tech com o High Touch.

O dado que me assombra, 86% de infelicidade causada por líderes, não precisa ser nosso destino. Ele é um chamado à ação. Uma escolha que cada um de nós, que ocupa uma cadeira de liderança, precisa fazer todos os dias.

Que tipo de líder você escolhe ser hoje?