Opinião

Como devolvemos tempo às mães?

O mundo funciona às custas disso, mas não reconhece o custo individual e coletivo dessa sobrecarga

Mafoane Odara

Psicóloga, executiva de relações humanas e professora 2 de junho de 2026 - 6h00

Vivemos uma época em que se fala muito sobre produtividade, equilíbrio e bem-estar. Multiplicam-se livros, cursos e aplicativos ensinando a gerenciar melhor o tempo, mas existe uma contradição silenciosa nesse discurso, para milhões de mulheres, especialmente mães, o problema não é falta de organização e sim falta de tempo disponível para organizar.

A forma como distribuímos tempo, cuidado e responsabilidade revela muito sobre o tipo de sociedade que estamos construindo. E, apesar dos avanços das mulheres na educação, no mercado de trabalho e nos espaços de decisão, uma parte significativa do cuidado continua concentrada sobre elas.

Quando observamos a exaustão feminina, tendemos a tratá-la como um problema individual, falta de autocuidado, descanso e/ou equilíbrio, mas essa leitura ignora uma dimensão fundamental, a exaustão nasce da concentração invisível do cuidado, não apenas do excesso de tarefas. Existe uma estrutura inteira funcionando a partir do tempo, da energia e da carga invisível das mães.

Lembrar. Antecipar. Organizar. Mediar. Sustentar.

Tudo aquilo que mantém a vida funcionando e quase nunca é reconhecido como trabalho. Por trás de cada agenda organizada, de cada aniversário lembrado, de cada lanche preparado, de cada consulta marcada, de cada conflito familiar mediado, existe uma quantidade enorme de trabalho mental, emocional e operacional que raramente aparece nas estatísticas, nos currículos ou nos indicadores de desempenho.

Este artigo é um convite para refletirmos sobre aquilo que ainda estamos naturalizando dentro de casa, nas empresas e na sociedade e sobre o que precisamos fazer, de forma concreta, para devolver tempo de qualidade às mães.

Há uma lógica cultural que naturalizou a ideia de que mulheres, e especialmente mães, conseguem fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Como se existisse uma habilidade inata para sustentar múltiplas demandas simultaneamente, mas isso não é natureza, é adaptação e sobrecarga aprendida.

Aprendemos a operar no excesso e passamos a chamar isso de competência. O problema é que toda sobrecarga cobra um preço e o custo de uma mulher cansada não é apenas individual. Uma mulher exausta tende a tomar decisões mais reativas e menos estratégicas. Sua capacidade de presença diminui, sua saúde se deteriora, os vínculos se fragilizam, o adoecimento mental aumenta e o ciclo de

desigualdade se perpetua. Por isso, o cansaço das mulheres não pode ser tratado como um problema privado, ele é um risco coletivo.

Mas existe uma pergunta ainda mais importante: o que acontece quando uma mulher descansa? Costumamos enxergar o descanso como pausa, como ausência de produção, recompensa após o esforço e já passou da hora de mudar essa perspectiva.

Descanso é o que sustenta a produtividade ao longo do tempo. Quando uma mulher descansa, melhora a qualidade das suas decisões, amplia sua presença, recupera sua criatividade, sustenta relações com mais qualidade, fortalece sua saúde física e emocional, recupera autonomia sobre o próprio tempo e deixa de apenas sobreviver à rotina e volta a existir plenamente dentro dela.

Se o problema é estrutural, a solução também precisa ser. Dentro de casa, devolver tempo significa reconhecer que cuidado não é ajuda. É responsabilidade compartilhada. Significa dividir não apenas tarefas, mas também planejamento, decisões e carga mental.

Nas empresas, significa parar de confundir disponibilidade irrestrita com comprometimento. Transformar flexibilidade em política, e não em favor. Rever jornadas excessivas, reuniões intermináveis e critérios de desempenho baseados em presença, em vez de resultado. Significa reconhecer que organizar, acolher, mediar e sustentar relações também é trabalho.

Na sociedade, significa entender que cuidado é responsabilidade coletiva. Creches, escolas integrais, transporte eficiente, redes de apoio e políticas públicas são estruturas que sustentam a vida real e não benefícios acessórios.

Enquanto o cuidado continuar concentrado nas mães, o tempo continuará faltando e o descanso continuará sendo privilégio, e nenhuma sociedade será verdadeiramente saudável enquanto o funcionamento da vida depender da exaustão das mães. Devolver tempo a elas, além de se uma questão de justiça, é uma decisão sobre o futuro que queremos construir.