O pêndulo de Schopenhauer
De salsa picante a Titãs, a criatividade ainda pulsa
A essência do ser humano vive um pêndulo emocional entre o desejo, que é sofrimento, e o tédio, que é vazio: sofremos ao desejar e, quando conseguimos, sentimos vazio. Schopenhauer, com seu pêndulo sempre no lado oposto ao otimismo, talvez não imaginasse que a analogia também serve para a criatividade — que, para mim, funciona como o pulsar do coração.
Num papo com um amigo publicitário na La Croisette, durante o Cannes Lions, ele trouxe uma paráfrase de Descartes feita por Ricardo Guimarães: “tenso, logo existo”. Uau, certo? Conversamos sobre a criatividade ser pulsante como o coração, em que a tensão é um dos movimentos necessários para funcionar. Foi isso que me despertou o pensamento do pêndulo: a alternância entre duas forças opostas e igualmente necessárias, que coexistem para formar algo maior — como o próprio batimento.
Essas duas imagens, para mim, representam o que vivemos agora com a IA, ainda que estejamos no início do movimento do pêndulo. O que antes era incredulidade e resistência começa a se mover para a aceitação, o aprendizado e a exploração. Isso nos ajuda a construir novas formas de olhar para a tecnologia, saindo da resistência às cegas para uma elaboração mais estratégica sobre como ela coexiste em nossas vidas.
Aquele papo na La Croisette durou alguns minutos e gerou uma inspiração sem data de validade. Esse tipo de experiência só acontece ao vivo, no tête-à-tête. Não precisa ser em Cannes (alô, Euro), mas em qualquer evento onde você se reúna com mais pessoas. Às vezes, esses encontros valem — e rendem — mais do que o acesso que a badge proporciona.
Passada a onda de euforia e a de “vamos falar que criar é humano” — e eu fiz parte das duas —, o pêndulo chegou a um ponto em que as novidades perderam força e viraram apenas atualizações. E a criatividade segue pulsante, respirando: o ser humano olhou para si mesmo para entender a própria criatividade em meio a tanta arritmia causada pelas últimas movimentações do mercado.
Se a IA foi a prova de fogo, a revisão da própria criatividade foi a lenha que manteve a chama acesa por mais tempo. Nada como um bom trauma que questione nossa existência para nos colocar em movimento.
Isso me lembrou de uma das palestras que vi em Cannes, de Alejandra Jiménez e Majo López, ambas da GUT México, que falaram de criatividade pela perspectiva da salsa — o famoso molho picante, não a erva. Em resumo, elas contam sobre o dia em que decidiram tirar a picância da salsa. Todo o suor e a palpitação se foram, junto com a experiência genuína de comer algo apimentado. Então veio a provocação: o que faz a criatividade ser picante como salsa? O que faz uma campanha ou um projeto tirar nosso fôlego?
No fim do dia, o importante é conhecer o limite da tensão, saber acompanhar esse ritmo e, principalmente, ter repertório que ajude a tomar decisões. Longe do pessimismo de Schopenhauer, com a esperança que aprendi ouvindo Titãs, o pulso ainda pulsa.