opinião - joão branco

Se o cliente é prioridade, mostre a sua agenda

Falamos muito sobre clientes e pouco com eles; o cliente deveria estar no centro, mas está na rotina diária?

João Branco

Professor e conselheiro 11 de agosto de 2026 - 6h00

Abra a agenda da semana passada. Quantas horas você passou em reuniões internas, eventos, apresentações e relatórios? Depois de tudo isso, quanto tempo sobrou para estar com clientes?

Não estou falando de uma reunião sobre uma pesquisa ou de uma conversa sobre a nova “persona”. Minha pergunta é literal: quantas horas você esteve perto de pessoas que compram, usam, recomendam, criticam ou abandonam aquilo que sua empresa vende?

Nossa profissão é baseada na compreensão do consumidor, mas passamos semanas sem interagir com um.

Conhecemos números de conversão, índices de satisfação, hábitos de mídia e jornadas de compra. Sabemos qual anúncio recebeu mais cliques e em que etapa do funil os usuários desistiram. Ao mesmo tempo, não sabemos explicar como alguém escolhe nosso produto na prateleira ou qual incômodo aprendeu a suportar sem reclamar.

O cliente vira segmento, “ICP” ou uma fotografia acompanhada de nome, idade, renda e supostos desejos. Tudo parece humano, mas aquela pessoa não existe. Ele é apenas uma suposta “média”.

Pesquisas, personas e relatórios são importantes. Mas cuidado para que a representação não ocupe o lugar da realidade.

Ninguém conhece uma cidade apenas olhando o mapa. Ninguém conhece o sabor da comida apenas olhando o cardápio. Ninguém sente a emoção de assistir a um show ao vivo analisando a gravação. E ninguém entende de cliente olhando apenas relatórios de interações nas redes sociais.

Pense em um médico. Ele precisa estudar exames, participar de congressos, conversar com fornecedores, treinar a equipe e administrar as finanças. Tudo isso pode ajudá-lo a cuidar melhor dos pacientes. Mas, se essas atividades ocuparem tanto espaço que ele não consiga atender ninguém, o trabalho perdeu o sentido.

No marketing, aceitamos esse distanciamento com naturalidade. Somos especialistas em consumidores, mas temos uma agenda com pouca convivência com eles.

Aproximar profissionais de marketing dos clientes não serve apenas para melhorar a comunicação. Serve para melhorar o negócio. Isso vai revelar produtos confusos, processos hostis e regras criadas longe da vida real. Muitas vezes, a melhor campanha que o marketing pode fazer começa eliminando uma irritação.

Esse contato pode acontecer ao acompanhar uma compra, atender uma reclamação, visitar uma loja ou ver alguém usando o produto. O formato importa menos do que a frequência. Se conhecer o cliente faz parte do trabalho, esse encontro precisa ocupar espaço no calendário.

Não se trata de escolher entre dados e contato humano. Os dados oferecem escala; a convivência oferece contexto. O relatório identifica o sintoma; a observação ajuda a enxergar a causa.

Uma hora por semana com clientes não resolverá todos os problemas, mas pode evitar decisões tomadas em uma sala cheia de opiniões e vazia de clientes.

A agenda é uma declaração de prioridades mais confiável do que qualquer apresentação institucional. Uma empresa pode escrever “o cliente no centro” na parede. Se quem toma decisões não reserva tempo para ouvi-lo, o cliente está no centro do discurso, não do negócio.

Na próxima vez que alguém disser que o cliente é prioridade, não peça outra apresentação. Abra a agenda. Se ele não estiver lá, o problema não é falta de dados, ferramentas ou discurso. É falta de prioridade.