Opinião

No varejo hipercompetitivo, memória e confiança são diferenciais

Segredo da relevância não está na última dancinha viral, mas na consistência

Gustavo Rosa

Diretor de marketing de snacks salgados, doces e tortilhas do Grupo Bimbo 1 de outubro de 2026 - 6h00

No meio desse bombardeio de tendências que brotam e somem a cada semana, aconteceu algo curioso: a gente cansou de ser cobaia. Em um mar de marcas desconhecidas e anúncios que parecem todos iguais, aquelas empresas que já fazem parte da nossa vida há décadas voltaram a ser o “porto seguro” do consumo. O segredo da relevância atual não está na última dancinha viral, mas na consistência.

O fato é que o excesso de opções gerou uma fadiga real. Ter mil escolhas no marketplace não é liberdade, é estresse. Por isso, quando batemos o olho naquele logo que nossos pais já usavam, o cérebro relaxa. É uma busca pelo familiar: uma pesquisa da PiniOn indica que 56,8% dos brasileiros já compraram algo motivados puramente por lembranças do passado.

Essa previsibilidade é um ativo de luxo. De acordo com o Relatório Consumo Consciente 2025, 72% dos compradores aceitam pagar até 15% mais por produtos de empresas que já conhecem, só para evitar o risco de uma experiência ruim. No fim das contas, a confiança economiza tempo e energia mental.

O mais interessante é notar que essa relevância atravessa gerações. A Geração Z, que teoricamente deveria ser a mais seduzida pelo novo, está buscando marcas com trajetória para validar o que é autêntico. O relatório Global Consumer Insights 2026 aponta que 64% dos jovens dessa geração valorizam marcas com histórico consistente e coerência entre o que dizem e o que fazem.

A permanência dessas marcas no cotidiano deve-se à sua capacidade de transcender a prateleira e virar um ritual. Seja o café que marca o início do dia ou aquele produto que evoca uma celebração em família, a presença de um nome familiar traz um conforto que marcas recém-chegadas levam décadas para construir. Em um varejo hipercompetitivo, o sabor da memória e a confiança construída no tempo são diferenciais que o algoritmo não consegue simular.