Menu Mounjaro
Efeito colateral na economia do aumento no uso de medicamentos para emagrecer altera não apenas o apetite por alimentos e bebidas, mas muda estratégias de marcas de setores como moda, beleza, bem-estar e lazer
Os efeitos das canetas emagrecedoras são um dos assuntos relacionados à saúde mais tratados pelos brasileiros e a intensidade do tema no cotidiano cresce na medida em que aumenta o poder aquisitivo dos interlocutores. O alto custo ainda impede que os medicamentos à base de GLP-1 aprovados oficialmente sejam usados pela grande maioria da população — um dos fatores que estimula o perigoso mercado ilegal movido a contrabando, assaltos a drogarias e falsificações.
O relatório “A Nova Economia do Apetite”, publicado em abril pela NielsenIQ, estima que apenas 5% dos lares brasileiros fazem uso dessas medicações atualmente. Os dados de junho da Worldpanel by Numerator são um pouco mais conservadores, apontando penetração de 2,4%, índice que sobe para 4,3% quando consideradas apenas as classes A e B. Entretanto, o impacto em produtos e serviços voltados a consumidores mais abastados já é sentido em vários setores, especialmente os de alimentos, bebidas, restaurantes e bares. Nesses últimos, em grandes centros urbanos, um dos efeitos colaterais materializados é o do menu Mounjaro, o nome popular dado às ofertas de novas opções de pratos com porções menores e drinques sem álcool, em referência ao medicamento da Eli Lilly.
Diversos setores da economia se movimentam com a perspectiva de aumento no uso desses medicamentos para emagrecer, que, de acordo com a pesquisa da NielsenIQ, têm potencial imediato de consumo por 26% dos brasileiros, que declaram não fazerem uso devido, principalmente, ao alto custo ou receio de eventuais efeitos colaterais para a saúde. O primeiro obstáculo já está sendo amenizado desde a queda da patente, em março, da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, ambos da Novo Nordisk. Desde então, pelo menos outros seis laboratórios nacionais e internacionais conseguiram aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para entrar na concorrência das canetas emagrecedoras.
Para reportagem da edição semanal de Meio & Mensagem, a jornalista Taís Farias ouviu especialistas que analisam a reorganização de orçamentos e as mudanças de prioridades na cesta dos brasileiros já atingidos pelo uso de medicamentos à base de GLP-1 e os impactos futuros que o consumo mais massivo pode causar na sociedade e nas estratégias de marketing e comunicação. Segundo o relatório da Worldpanel, metade dos usuários afirma ter reduzido outros gastos para conseguir manter a medicação. Outro ponto interessante do estudo é a constatação de que a atual transformação no consumo provocada pelos novos hábitos de saúde difere da maioria das anteriores, que sempre estiveram ligadas a fatores como renda, inflação, crédito, tecnologia ou mudanças demográficas.
Para as empresas, marcas e executivos de comunicação e marketing representa um desafio, que implica no entendimento de uma nova dinâmica social e em reposicionamentos de ofertas em setores como moda, beleza, bem-estar e lazer. Inúmeras companhias já discutem alterações em seus portfólios de produtos e serviços, para que estejam mais alinhados à demanda por saudabilidade conectadas com as restrições financeiras — a exemplo dos menus dos restaurantes, que precisaram agir rapidamente. Muitas delas consideram que os medicamentos à base de GLP-1 aceleram mudanças de comportamento que já estavam em curso, como as demandas por embalagens menores e por maior densidade nutricional, por exemplo.
Mesmo considerando que o fenômeno das canetas emagrecedoras ainda é pequeno no Brasil, os estudos disponíveis sugerem que podemos estar diante de uma das reorganizações mais relevantes no comportamento de consumo da próxima década. Não se trata apenas de uma tendência de saúde, mas de uma transformação que altera a lógica de categorias inteiras de produtos e serviços — e deverá se intensificar com as estratégias de preço e marketing dos laboratórios, focadas no barateamento e nos esclarecimentos sobre os efeitos colaterais provocados por esses medicamentos.