Mulheres ganham espaço no mercado literário brasileiro
Natália Timerman, Bethânia Amaro, Aline Bei e Giovana Madalosso refletem sobre novo lugar das escritoras na literatura
Na lista dos 20 livros mais vendidos da Nielsen-PublishNews de junho deste ano, 10 são de autoras femininas. Entre os destaques estão as brasileiras Socorro Acioli, com ‘Cabeça de Santo’, e Clarice Lispector, com ‘A Hora da Estrela’. Em 2025, elas também estiveram na lista de mais vendidos do ano com as mesmas obras.
O ranking traduz um movimento de mulheres escritoras que estão conquistando cada vez mais espaço no mercado literário brasileiro. O retrato também se reflete dentro das editoras. De acordo com a Pesquisa de Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I) de 2024, realizada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livro (SNEL), 87% delas têm mulheres em cargos de liderança.
Mas o movimento ainda é recente. Um estudo realizado pela professora de literatura Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UnB), constatou que entre as 2.381 personagens analisadas em 558 livros publicados entre 1990 e 2014, 60,2% eram homens contra apenas 39,6% do sexo feminino.
Além disso, a pesquisa mostrou ainda como tais personagens costumam ser retratadas. Entre os papeis mais frequentes estão a dona de casa (22%) e estudantes (10,2%). As mulheres também aparecem como cônjuges (42,5% contra 35,8% dos homens), amantes (15,6% contra 10,5%), namoradas (18,2% contra 13,5%), e ex (17,5% contra 13,6%).
Quando as obras escritas por mulheres são isoladas, os números já são bem diferentes: 53,2% das personagens são do sexo feminino, assim como 61% dos protagonistas e 64,6% dos narradores. Para os autores homens, os números são de 33,9% de personagens femininas, com 17,1% protagonistas e 17,3%, narradoras.
Os desafios de escrever como mulher
Giovana Madalosso publicou sua primeira obra em 2016, chamada ‘Teta Racional’, que traz um retrato da relação entre mãe e filha. À época, a autora destacou que teve dificuldades para publicar. “Uma das editoras disse que só publicaria se eu trocasse o nome, porque ‘Teta Racional’ era um título muito chulo. O livro também foi muito recusado porque tratava de maternidade. Ouvi de editoras: ‘Quem vai querer ler histórias de maternidade?’”, conta.
No fim, a obra foi publicada pela Grua Livros e foi finalista do Prêmio Biblioteca Nacional. Desde então, Madalosso publicou outros romances, como ‘Tudo pode ser roubado’, ‘Suíte Tóquio’ e ‘Batida Só’.
Antes de Bethânia Pires Amaro publicar seu primeiro livro, a coletânea de contos ‘O Ninho’, a escritora não conseguia enxergar espaço para si neste mercado. “Embora sempre escrevesse, não tinha noção de que era realmente possível publicar um trabalho como autora contemporânea no Brasil”, relata.
“Mesmo frequentando livrarias e espaços culturais, não lembro de fazer parte da minha realidade encontros com escritores contemporâneos, por exemplo. Isso mudou mais recentemente, justamente depois que várias mulheres abriram caminho”, continua. Com ‘O Ninho’, lançado em 2023, Bethânia venceu os prêmios Jabuti, Sesc e APCA. Em abril deste ano, a autora publicou seu primeiro romance, ‘Ressalga’.

Bethânia Pires Amado, escritora de ‘O Ninho’ e ‘Ressalga’ (Crédito: Lorena Vinturini)
Foi ao longo dos cursos sobre escrita criativa que Bethânia conseguiu construir a coragem para se expor e se denominar escritora. Desafio que, em sua vivência, acaba sendo muito comum entre as mulheres. “Percebi que as colegas mulheres, em sua maioria, hesitavam muito até conseguir dizer que tinham um manuscrito, que queriam transformar em livro. Normalmente, os homens dessas turmas publicavam, mas as mulheres, não”, diz.
“Essas mulheres carregavam muitas dúvidas sobre se poderiam ou não ser consideradas escritoras, se eram boas o suficiente para isso, se estavam autorizadas a falar sobre aquilo que queriam falar. Isso mostra o quanto a mulher ainda tem uma inserção um pouco mais demorada nesse mercado da publicação”, complementa Pires.
Parte desta insegurança também se soma ao acúmulo de funções e responsabilidades que comumente recaem sobre as mulheres. De acordo com o IBGE, em 2022 elas dedicavam uma média de 10 horas semanais a mais que os homens em tarefas domésticas e de cuidado. Elas trabalharam em média 21,3 horas semanais, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. Isso sem contar aquelas com outras profissões para além da escrita.
Natália Timerman, por exemplo, além de escritora das obras ‘Copo Vazio’, ‘As Pequenas Chances’ e ‘Antes que Apague’, é psiquiatra. Bethânia Pires Amaro também concilia a carreira literária com a advocacia.
“Para as mulheres que escrevem, existe a sensação de que não há um momento certo, de que nunca vai haver tempo, de que é preciso ter longos períodos livres em que você pode parar e se concentrar para escrever. Isso realmente seria o ideal, mas não é a realidade de muitas mulheres”, reflete a advogada e escritora.
Novo capítulo da literatura por mulheres
Para essas autoras, o contexto atual que se reflete na lista de mais vendidos é um resultado de um trabalho coletivo entre escritoras mulheres que abriram este espaço. Aline Bei publicou seu primeiro livro em 2017, chamado ‘O Peso do Pássaro Morto’.
“O momento em que comecei a publicar já estava mais aberto para a escrita feita por mulheres. Talvez tenha sido justamente por isso, inclusive, que consegui publicar”, reflete a autora. Depois deste, Aline também publicou os romances ‘Pequena Coreografia do Adeus’, em 2021, e ‘Uma Delicada Coleção de Ausências’, em 2025.
“Existe uma geração de escritoras muito imponente, escrevendo com muita beleza e solidez, e isso vem mudando o cenário da literatura contemporânea brasileira. Vem abalando estruturas que já estavam mais carcomidas e modificando, na marra mesmo, lugares que não queriam e não sabiam se abrir e que, de repente, se viram diante de um momento de abertura, mesmo sem querer”, continua Bei.
Para além da presença, essas mulheres trazem suas perspectivas para as mentes dos brasileiros. “As mulheres têm muito a dizer. Vejo que elas escrevem como uma forma de colocar no mundo sua própria visão das coisas, seu olhar. Porque, há até pouco tempo, elas eram, em sua maioria, escritas e teorizadas por homens”, adiciona Timerman.

Natália Timerman, psiquiatra e escritora (Crédito: Luiza Sigulem)
Tal movimento que também se refletiu nos catálogos das editoras. “De uns dez anos para cá, porém, a gente viveu uma revolução no mercado literário. Começou a haver uma equivalência maior entre autoras e autores nos catálogos. De um lado, sim, as editoras passaram a ficar constrangidas em manter catálogos tão masculinos e foram atrás de reverter isso. Mas, de outro, também havia um público pedindo essas obras”, complementa Giovana.
Vida feminina em foco
Para as escritoras, o movimento revelou que, mesmo ocupadas, acumulando tarefas de cuidados, trabalho doméstico e vida profissional, as mulheres seguem escrevendo. E, quanto mais mulheres nesta função, temas da vida feminina começam a aparecer com maior frequência e de forma crua e real.
“Havia essa ideia de que as mulheres escreviam sobre o que era menor e doméstico, como se isso fosse uma literatura com menos valor. Mesmo hoje, ainda há quem tente colocar essa produção como nichada. E temas que são inerentes à experiência da mulher, como a menopausa, a gravidez, o parto, a menstruação, vinham cercados por uma espécie de aura de vergonha, de silêncio”, destaca Bethânia.
“Essas mulheres chegaram com o que eu sempre chamo de frescor e fúria na escrita, porque trouxeram assuntos que não estavam sendo tratados. A experiência feminina começou a aparecer de outra maneira, trazendo questões como aborto, violência, maternidade”, complementa Giovana.
Apesar de retratar esses temas, a literatura feminina não deve ser limitada a isso, advertem as escritoras. “As mulheres podem escrever sobre o que elas quiserem, não precisam escrever só sobre ‘assuntos de mulheres’, seja o que for isso. Os assuntos femininos são assuntos universais também”, pontua Natália.
Uma demanda das leitoras
Os temas também representam a realidade dos leitores brasileiros. Ou melhor, leitoras. Segundo o Panorama do Consumo de Livros da Câmara Brasileira do Livro de 2025, 61% dos leitores no Brasil são mulheres, contra 39% dos homens. Além disso, são mulheres adultas: do total de leitores, 23,8% têm entre 25 e 34 anos e 23,2% estão na faixa dos 35 e 44 anos.
Com o predomínio feminino entre os leitores, são elas que estão majoritariamente nos clubes de leitura e incentivam cada vez mais o consumo de obras de escritoras mulheres. “Os clubes do livro estão fazendo uma revolução na maneira de ler. A maioria é capitaneada e frequentada por mulheres, que vêm transformando aquela dimensão solitária da leitura numa conversa coletiva. Muitas vezes, os livros viram um pretexto para que elas falem de assuntos que talvez não trouxessem de outro modo. Então esse movimento bonito, meio simbiótico, tem ajudado a ampliar tanto a leitura quanto a circulação dessas obras no Brasil”, destaca Madalosso.

Giovana Madalosso, escritora de “Teta Racional”, “Tudo pode ser roubado”, “Suíte Tóquio” e “Batida Só” (Crédito: Renato Parada)
“O mercado acomodou essa demanda que partiu, de fato, dos leitores, por uma literatura mais diversa em vários ângulos. Com autores de outras regiões do Brasil, e não só do eixo Sudeste. Das mais diversas orientações sexuais, na máxima diversidade possível, com muitos pontos de vista. Acredito que o leitor está buscando essa experiência de autenticidade, desse olhar que vinha sendo ignorado ao longo do tempo”, pontua Bethânia.
Para Aline Bei, hoje, existe uma maior consciência política e social sobre o que se lê. “Quando olho para vinte anos atrás, na época em que fazia teatro, não observava a leitura por esse viés da diversidade. O que chegava até mim como leitura obrigatória era lido sem muito debate, como se aquelas fossem simplesmente as vozes que importavam. As perguntas que hoje me parecem fundamentais, sobre o que chega, porque chega, e sobre as estruturas patriarcais e racistas que sustentam essas escolhas, eu não ouvia tanto quanto ouço agora”, afirma.
A literatura feita por mulheres já foi marginalizada, conforme destacou a pesquisa da professora da UnB. Maria Firmina dos Reis, por exemplo, publicou em 1859 o livro ‘Úrsula’, considerado o primeiro romance abolicionista do Brasil. Apesar de hoje ser mais reconhecida e celebrada, a obra e sua autora permaneceram esquecidos até 1962, quando o historiador paraibano Horácio de Almeida encontrou um exemplar num sebo carioca, de acordo com uma matéria da Revista quatro cinco um. Mesmo assim, são poucas as exceções de instituições que a colocam como leitura obrigatória.
Um grande dia para as escritoras
Giovana Madalosso foi uma das criadoras do movimento Um Grande Dia para as Escritoras, inspirado na foto clássica “A Great Day in Harlem”, que reuniu 57 nomes do jazz, tirada pelo fotógrafo Art Kane para a revista Esquire em 12 de agosto de 1958.
“Em 2022, eu morava em Curitiba e procurava um lugar para fazer uma foto de família. Um amigo meu, me sugeriu olhar uma foto histórica chamada ‘Um Grande Dia no Harlem’. Quando vi essa foto, não pensei mais na minha família. Pensei: a gente precisa fotografar as escritoras, porque está acontecendo uma revolução na escrita feita por mulheres no Brasil e esse momento precisa ser registrado”, conta Giovana.
Ao lado das autoras Paula Carvalho e Natália Timerman, e outras mulheres, elas divulgaram o movimento e reuniram 420 escritoras nas arquibancadas do estádio do Pacaembu, em São Paulo, no dia 12 de junho de 2022. “Na véspera, bateu um frio enorme na barriga, porque a gente pensava: e se não aparecer ninguém? E se viessem só aquelas escritoras já conhecidas, que estão na mídia, a foto perde o sentido. Mas o que aconteceu foi muito bonito. Cada uma levou um livro na mão. E ali começou algo muito forte, porque não precisava explicar nada. Quando uma mulher via outras ocupando um espaço público com seus livros, ela entendia imediatamente o gesto”, lembra Madalosso.

Um grande dia para as escritoras em São Paulo (Crédito: Armando Prado)
O movimento cresceu e foi repetido em 52 localidades pelo Brasil, reunindo 2,3 mil escritoras. “Num primeiro momento, a gente imaginou que a grande importância do movimento seria mapear a escrita feita por mulheres em diferentes lugares do Brasil. E isso de fato era muito importante, porque durante muito tempo a gente lia sobretudo o que era produzido no eixo Rio-São Paulo, mais perto da mídia e das editoras. Porém, o mais forte foi descobrir que muitas mulheres não conseguiam se dizer escritoras”, destaca a fundadora do projeto.
“Sempre conto o caso da Lenny Blue, uma autora negra maravilhosa, que estava sentada na minha frente na foto do Pacaembu. Ela me disse: ‘Giovana, tenho textos em mais de dez livros publicados e mesmo assim não me sentia escritora o bastante para estar aqui’. Isso foi muito marcante. Elas ligavam perguntando: ‘Eu posso ir? Sou escritora? Tenho uma tese, um livro, um cordel… eu sou escritora?’”, continua. “No fim, a maior riqueza desse movimento foi essa: quando uma mulher consegue se dizer escritora, ela se autoriza. E, ao se autorizar, ela também ganha mais força para escrever, para ocupar espaço, para continuar produzindo”, conclui Madalosso.