Viih Tube: “Ser influenciador não significa saber vender”
A influenciadora conta como a maternidade transformou seu conteúdo e despertou lado empreendedor

Viih Tube, influenciadora digital e empresária (Crédito: Dersu Szuparits)
Vitória di Felice Moraes, também conhecida como Viih Tube, começou a produzir conteúdo na internet ainda muito jovem, entre 13 e 14 anos, para o YouTube. Hoje, aos 25 anos de idade, ela acumula 11 milhões de seguidores no canal, quase 32 milhões no Instagram e 16 milhões no TikTok. De início, seu sonho era ser médica. O teatro, que começou a fazer ainda aos 9 anos, não passava de um hobby.
Sua adolescência, a partir de então, passou a ser documentada na plataforma de vídeos, e seu canal cresceu a cada ano. A carreira de atriz também acompanhou o sucesso, e ela começou a rodar o Brasil em peças de teatro, aparecer em webséries e participar de novelas. Em 2021, Viih participou do reality show Big Brother Brasil e, no ano seguinte, anunciou a gravidez de sua primeira filha, Lua, com outro ex-participante do programa, Eliezer do Carmo. Em 2024, nasceu o segundo filho do casal, Ravi. Desde então, grande parte do conteúdo da influenciadora está focada na maternidade e no conteúdo infantil.
Nesta entrevista ao Women to Watch, Vitória fala sobre como a maternidade transformou sua carreira enquanto empresária e creator, e como ela fez de sua influência digital um negócio, que inclui marcas de cuidados pessoais, produtos e conteúdo infantil.
Meio & Mensagem – Como seu conteúdo mudou ao longo do tempo?
Viih Tube – Sempre fiz conteúdo baseado na minha vida e na minha realidade. Quando eu era mais novinha, tentei vários formatos diferentes. Já tentei ter um canal de beleza, de maquiagem e até de tecnologia. Fazia isso muito porque achava bonito ver outras pessoas produzindo esse tipo de conteúdo, não porque eu realmente era boa naquilo. Já tive cinco canais no YouTube até chegar ao Viih Tube, que é o que tenho hoje. Atualmente ele é menos ativo, porque uso mais as outras redes sociais, mas ainda está lá. Quando eu realmente me encontrei, percebi que o meu conteúdo sempre foi sobre a minha opinião, conversar e compartilhar a minha vida. Como fui amadurecendo e mudando, os vídeos mudaram junto comigo. Quando era adolescente, falava muito sobre escola, depois sobre relacionamentos. Agora, com os meus filhos, não tem como não falar sobre maternidade. Ser mãe sempre foi o maior sonho da minha vida, muito por conta da relação que tenho com a minha mãe. Sempre quis viver essa experiência, então é natural que isso faça parte do meu conteúdo.
M&M – Você tem mostrado bastante o cotidiano da maternidade, inclusive seus desafios. Como é, para você, compartilhar essa realidade?
Viih – Quando me tornei mãe, há três anos, não tinha muitas amigas que também fossem mães. Hoje tenho, mas, naquela época, as minhas amigas mães eram as minhas seguidoras. Era com elas que eu trocava dicas sobre cólica, amamentação, parto, sono, rotina e tudo o que envolve a maternidade. Essa troca com o público era muito boa e muito importante. Sempre mostrei tudo como era de verdade, e acho que muitas pessoas confundiam a realidade que eu mostrava com dinheiro ou classe social. Sempre tive uma boa condição financeira, mas isso não significava que queria cuidar de mim. Não tinha cabeça para isso. Meu foco era cuidar da minha filha. Também tinha muito sono e muito cansaço. Além disso, tinha muito preconceito em ter babá. Eu não queria de jeito nenhum. Hoje, sinto que eu mesma acabei deixando aquela primeira maternidade mais pesada do que precisava ser. Já na segunda, foi tudo muito mais fácil e muito diferente.
M&M – Como sua relação com seus seguidores mudou ao longo do tempo?
Viih – Antigamente, eles eram mais jovens. Tinha muito adolescente me acompanhando. Hoje ainda há alguns, muito por causa dos vídeos antigos que continuam sendo assistidos. Mas, atualmente, as pessoas que me acompanham são mais velhas. Não necessariamente mais do que eu, mas estão na mesma faixa etária ou um pouco acima. Uma boa parte já é mãe. Ainda sou nova para já ter vivido duas maternidades. Hoje, já não tenho mais aquele público teen. Um dia fui o público da geração Z, mas isso mudou. As pessoas que me acompanham cresceram junto comigo.
M&M – Você é uma creator que expande seu próprio negócio e cria marcas. Pode falar sobre como surgiu a Turma Tube?
Viih – Já tentei ter marca de várias coisas: de roupa, de batom, de esmalte. Sempre que lançava, esgotava rápido. O público que me acompanhava consumia muito bem, mas eu não conseguia manter. Não conseguia ter frequência e, principalmente, amar aquilo que estava fazendo. Moda, por exemplo, exige coleção nova o tempo todo. Quando muda a estação, muda tudo. Quando terminei a primeira coleção, já não queria nem pensar na segunda. Não tinha nada a ver comigo. A mesma coisa aconteceu com maquiagem. Não sei me maquiar, uso no máximo um lip tint e um rímel. Então não fazia sentido ter uma marca nesse segmento. Hoje entendo que, naquela época, eu estava escolhendo os nichos errados.
Depois que me tornei mãe, tudo mudou. Sempre tive uma mente muito criativa, de criança. Mesmo já tendo nascido nos anos 2000, em uma geração mais tecnológica, eu brincava na terra, com todo tipo de brinquedo. Acho que essa infância me ajudou muito a desenvolver a criatividade. Também sinto que tenho um lado mais pedagógico. Tenho paciência para conversar com crianças, gosto desse universo. Então, quando entrei na maternidade, me apaixonei por tudo. Na hora de comprar o enxoval da minha filha, ficava fascinada com cada detalhe. Pesquisava os diferenciais, entendia por que escolher um produto em vez de outro e sempre pensava no que seria melhor para ela. Como já tinha alguns contatos de fábrica por causa do mercado em que trabalho, procurei um deles e falei que queria desenvolver um mordedor especial para a minha filha, algo exclusivo, feito por mim para ela. Foi aí que comecei a criar. Nesse processo, o Eli perguntou: “por que a gente não transforma isso em uma marca?”. E eu concordei. No começo, era algo muito mais pensado para a minha filha do que para construir uma grande empresa. Queria criar produtos que tivessem essa identidade da Viih Tube, antes mesmo de existir a Turma Tube. Só que, conforme fui desenvolvendo tudo, me apaixonei completamente pelo processo.
M&M – Por que acha que, desta vez, sua marca vingou?
Viih – Acho que dessa vez fez sentido porque era algo que eu realmente amava. Gostava de pensar em cada detalhe, imaginar o que seria melhor para a criança, mas também para a mãe. Não é à toa que o nosso slogan é “de mãe para mãe”. Os primeiros produtos que desenvolvemos foram os mordedores e os brinquedos de banho, mas o primeiro lançamento acabou sendo a naninha. Quis criar uma do meu jeito, inspirada em um personagem muito presente na minha infância, o porquinho Juanito. Quando era pequena, também tive uma naninha de bichinho. Então tudo era muito pessoal e continua sendo até hoje. É justamente por isso que consigo colocar tanto amor no que faço. Nunca foi uma questão de dinheiro. Em outras áreas da minha profissão, sim, mas a Turma Tube sempre nasceu do amor.
Chegou um momento em que a marca já tinha explorado praticamente todas as categorias de produtos. Fizemos roupas, brinquedos, enxoval e muitas outras coisas. Ainda existiam possibilidades, mas eu senti que precisava de um novo desafio. Como sempre amei séries e atuei em filmes, olhei para o Eli e falei: “vamos dar vida aos nossos personagens?”. Foi assim que nasceu essa nova fase da marca, com shows presenciais, músicas e, agora, a série. Isso trouxe uma identidade completamente nova para a Turma Tube. Hoje, essa é a parte da marca de que eu mais gosto de cuidar.
Atualmente, quem está mais à frente da operação é o Eli. Nós também criamos outras duas marcas da família: a Spoiler, voltada para perfumaria, que é um segmento pelo qual eu sou apaixonada e no qual descobri mais um interesse genuíno, já que coleciono perfumes há muitos anos; e a Minha Publi, que reúne tudo o que eu faço no universo do conteúdo, como afiliados, UGC, conteúdo mais orgânico e um aplicativo para quem quer aprender a ser criador de conteúdo. Descobri que as coisas dão certo quando têm a ver comigo, com aquilo que eu realmente gosto e sei fazer.
M&M – Como você se desenvolveu enquanto empresária?
Viih – Essa veia empreendedora veio muito com a maturidade e, principalmente, com a chegada dos meus filhos. Naquela época, eu saí da agência em que estava porque já não me identificava mais, mas não queria entrar em outra. Minha vontade era montar o meu próprio time. De uma hora para outra, fiquei sem empresário e tive que organizar toda a minha vida profissional. Precisei encontrar alguém para cuidar da parte comercial, negociar as minhas marcas, estruturar uma equipe e fazer tudo acontecer. Era eu por mim. Claro que o Eli sempre esteve ao meu lado me ajudando, mas foi nesse momento que comecei a desenvolver essa visão mais empreendedora.
Logo depois eu engravidei e nasceu a Turma Tube. Acho que tudo isso aconteceu junto com o meu amadurecimento. Antes, gravar vídeos era um hobby. Só passei a enxergar isso como profissão, e a perder o preconceito que eu mesma tinha com essa carreira, quando entendi que eu era uma adulta, que precisava ganhar dinheiro e que aquele trabalho pagava não só as minhas contas, mas também as da minha família. Além disso, havia uma equipe inteira trabalhando comigo, muitas famílias dependendo daquele trabalho. Foi quando tive essa consciência que comecei a olhar para tudo de outra forma.
Sempre gostei de gravar publicidade e continuo gostando, mas nunca enxerguei esse trabalho como meu propósito. Ele me trazia uma boa remuneração, me permitia trabalhar com marcas de que eu gostava e sempre tive muito cuidado na escolha das parcerias, mas ainda assim faltava propósito. Para mim, trabalho precisa ter um. Acho que essa vontade de empreender surgiu justamente dessa busca. Sem perceber, comecei a construir negócios que tinham mais significado para mim e que realmente faziam sentido com quem eu sou.
M&M – Por estar neste mercado de influência há tanto tempo, como você avalia o avanço da creator economy no Brasil?
Viih – Ser influenciador não significa que você vai conseguir vender, nem que a sua marca vai durar para sempre. Construir um negócio é um processo muito árduo, feito degrau por degrau. Se tudo acontece muito rápido, a queda também pode ser muito grande. Ao mesmo tempo, nós temos, sim, uma vantagem. Muitas marcas começam do zero e precisam investir muito dinheiro em marketing para ganhar visibilidade. Como influenciadora, já tenho uma audiência, então existe esse primeiro passo facilitado. Mas essa é só uma das vantagens. Todo o restante é igual ao de qualquer empreendedor que decide tirar uma ideia do papel. O medo é o mesmo, a incerteza é a mesma e as dificuldades também. Em alguns momentos, até acho que pode ser mais difícil, porque, quando uma marca de influenciador erra, não é só a marca que é afetada. O dono também é. No meu caso, isso pode impactar as minhas publicidades, outras fontes de renda e a minha imagem. A exposição acaba sendo muito maior. Acredito que esse movimento de influenciadores criarem as próprias marcas tende a crescer cada vez mais.
Ao mesmo tempo, percebo que o mercado de publicidade está mudando. As campanhas tradicionais vêm diminuindo, enquanto programas de afiliados, creators e UGC estão cada vez mais fortes. Inclusive, tenho uma empresa voltada para esse segmento. Faz muito sentido essa mudança, porque são formatos que costumam gerar conteúdos mais orgânicos, mais próximos da realidade e que as pessoas gostam de consumir. Isso não significa que a publicidade tradicional não seja verdadeira, mas é uma linguagem diferente. Quem trabalha nesse mercado precisa começar a pensar em novas formas de atuação, seja criando a própria marca, seja trabalhando também como afiliado ou encontrando outros modelos de negócio. Na minha visão, o mercado de influência no Brasil está passando por uma transformação, e quem conseguir entender esse movimento mais cedo provavelmente vai estar mais preparado para o que vem pela frente.