Inspiração

Quem é Kenya Sade, apresentadora do show da Shakira na Globo

À frente da transmissão do Todo Mundo no Rio pela terceira vez, a jornalista é a especialista de música da emissora

i 28 de abril de 2026 - 17h35

Kenya Sade, apresentadora da Globo e Multishow (Crédito: Vitor Manon)

Kenya Sade, apresentadora da Globo e Multishow (Crédito: Vitor Manon)

Pela terceira vez, Kenya Sade estará no comando da transmissão da TV Globo do projeto Todo Mundo no Rio, que este ano trará a Shakira para um show gratuito na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no dia 2 de maio. A jornalista e apresentadora, especializada em música, é um dos rostos da emissora quando o assunto é shows e grandes festivais. Nos últimos anos, ela também esteve à frente das apresentações de Madonna (2024) e Lady Gaga (2025).

Nesta entrevista a Women to Watch, Kenya Sade conta sua trajetória profissional no jornalismo televisivo e compartilha como foi parar no comando da programação musical da Globo. Ela também reflete sobre o que este show da Shakira representa e como ela se situa na chamada “primavera latina”.

Meio & Mensagem – Qual é a sua origem e como ela se conecta com sua trajetória profissional?

Kenya Sade – Sou uma mulher preta, paulistana, de 32 anos. Nasci em São Paulo, na região da Zona Leste, em Itaquera. Sou filha de uma mãe solo que sempre acreditou muito que a educação poderia mudar a nossa realidade e trazer mobilidade social. Ela é economista, foi uma das primeiras mulheres da família a se formar nos anos 1980, numa época em que poucas mulheres, principalmente as pretas, podiam dizer que tinham esse diploma. Sempre foi um grande farol na minha vida, uma referência de mulher batalhadora e trabalhadora que transformou a nossa realidade.

Acho importante dizer que sou uma mulher preta retinta que, no Brasil, teve a oportunidade de estudar em bons colégios particulares. Também fiz universidade particular: jornalismo, na Cásper Líbero. Durante a faculdade, fiquei encantada com o jornalismo televisivo, algo que até então eu não via como uma possibilidade. Mas consegui um estágio na TV Cultura, onde fiquei por quatro anos, trabalhando com hard news.

M&M – E como apareceu seu interesse por música?

A música sempre permeou minha história, mas, até então, não acreditava que conseguiria conciliar o jornalismo com a música. Quando saí da TV Cultura, decidi fazer um intercâmbio para me descobrir. Inclusive, meu chefe na época me incentivou muito. Ele disse: “Kenny, acredito que você é muito maior do que essa empresa, a gente ainda vai se encontrar em outras redações”. Acho que ele já enxergava um potencial antes mesmo de mim mesma. Então fiz esse intercâmbio, viajei, conheci outros países, fiz um curso de mídia e entretenimento, e também melhorei meu inglês.

Quando voltei ao Brasil, comecei a trabalhar na Trace, uma empresa baseada na França, mas que estava abrindo um escritório aqui no Brasil, no final de 2019. Era uma canal voltado à cultura urbana, e fui contratada para fazer curadoria do canal. Um desses programas era o Trace Trance, que eu apresentava e entrou na grade do Multishow. Nele, eu falava sobre a cena da música urbana, rap, funk e R&B. Inclusive, entrevistei a Viola Davis, uma entrevista pela qual tenho um carinho imenso. Em determinado momento, fui chamada pela Globo para participar de um teste. Como já tínhamos o programa na grade do Multishow, eles queriam ampliar o elenco no pós-pandemia. Fiz o teste em 2021, muito esperançosa, porque já sabia exatamente o que queria. Passei no teste no final de 2021 e, em 2022, fiz meu primeiro grande festival pela Globo, que foi o Lollapalooza. Era um território musical em que a Globo sempre esteve, principalmente nos canais fechados, como o Multishow, mas a proposta era de ampliar para a TV aberta.

Em 2023, passei a atuar tanto no Multishow quanto na TV Globo. E, em 2024, esse território da música se expandiu dentro da TV Globo, e me tornei um dos principais rostos da música na emissora, levando não só a música, mas toda a experiência de grandes eventos e festivais. Eu vinha de um lugar mais nichado, em que a gente costuma dizer que fala “com os convertidos”, com quem já conhece e já gosta. E, de repente, você vai para a TV aberta, que é um verdadeiro canhão, com um público extremamente diverso e complexo como o do nosso país. Isso me ajudou muito como comunicadora. Acredito que me tornei uma apresentadora melhor.

M&M – Você irá apresentar o show da Shakira no Todo Mundo no Rio, na Praia de Copacabana. Como você se sente?

Kenya – Estou muito feliz. Esse é o meu terceiro ano à frente do Todo Mundo no Rio. Fiz o show da Madonna, no ano passado o da Lady Gaga, e agora o da Shakira. São três mulheres muito poderosas da indústria musical. Tenho um carinho especial pelo Todo Mundo no Rio, que tem essa proposta de trazer grandes nomes da música internacional de forma gratuita, na praia de Copacabana, que é um verdadeiro cartão-postal do Brasil. É um projeto que atrai milhares, ou milhões de pessoas, e chega a arrepiar quando você pensa nisso. Então eu fico muito feliz e honrada de ser a porta-voz de um projeto que virou um verdadeiro palco da cultura pop global. Fiquei especialmente feliz com o nome da Shakira, porque ela é uma artista que sempre priorizou trazer as turnês para o Brasil, desde 1997, com Pies Descalzos, até a turnê mais recente, Las Mujeres Ya No Lloran, que é justamente a que ela traz agora.

M&M – Como você está se preparando para esse momento?

Eu me preparo pesquisando muito sobre o artista. Geralmente a gente recebe uma “bíblia”, com vários conteúdos, e cada um constrói sua pauta. Consumo diferentes materiais, leio biografias, assisto a documentários, escuto no dia a dia, é uma vivência contínua. Sempre digo que quem fala de música não pode simplesmente abrir um caderno num dia e falar sobre o tema; é preciso viver isso. A gente também passa por uma série de reuniões, prepara roteiro, troca com os roteiristas, tudo para chegar lá e entregar o melhor.

M&M – Qual é sua expectativa para o show da Shakira?

Ela vem num momento muito forte da carreira. Vai ser um show que celebra as mulheres, especialmente as latinas, num período em que essa pauta está muito em alta, tanto pelo fortalecimento e empoderamento quanto, infelizmente, pelos altos índices de feminicídio que vemos no Brasil. Essa turnê, como o próprio nome diz, “as mulheres já não choram, as mulheres faturam”, fala de independência, de força, de orgulho, inclusive do orgulho de ser latino. A gente está vivendo uma fase de celebração da cultura latina no mundo. Tivemos o Bad Bunny no Super Bowl, os shows dele aqui no Brasil, e a Shakira tem um papel muito importante nisso tudo.

Ela não foi a pioneira, a gente teve antes nomes como Gloria Estefan, mas foi uma das primeiras artistas latinas a romper a barreira da língua e alcançar o mercado americano, principalmente no fim dos anos 1990 e início dos 2000. Isso abriu caminho para artistas como Bad Bunny, J.Lo e Karol G. Como ela é uma artista colombiana, isso tem um peso ainda maior. Ela ajudou a transformar a indústria, lançando álbuns em inglês e em espanhol, trazendo muito forte a dança como elemento da sua identidade, inclusive com influência da dança do ventre, por conta da origem libanesa do pai. É uma artista gigantesca, que hoje representa muito do que é a música latina no mundo. Acho que ela vai entregar muito. Ela está num momento feliz em sua vida e carreira, têm demonstrado isso nas entrevistas e tem forte conexão com o Brasil. Existe também a expectativa de possíveis participações especiais, mas nada confirmado ainda.

M&M – Qual foi o maior desafio da sua carreira e como você lidou com ele?

Kenya – Pode parecer coincidência, mas acho que o maior desafio até hoje foi fazer o show da Madonna na Praia de Copacabana. Ela atrasou 40 minutos, e era o primeiro que a gente fazia nesse formato, pós-novela, na TV aberta, com essa proposta pioneira de dar destaque ao território da música. Foi desafiador porque envolve muita pressão, muita visibilidade, e a gente não sabia quanto tempo o atraso ia durar. A direção não informa os apresentadores justamente para que a gente não passe esse nervosismo para o público. Então começou com 15 minutos, depois foi aumentando até chegar a 40. Foi nesse momento que muita gente passou a me conhecer, e eu também ganhei ainda mais confiança da direção do canal. Porque não é fácil segurar 40 minutos ao vivo no improviso. Claro que existe um pré-roteiro, mas não há roteiro que cubra 40 minutos de ao vivo. Ali eu consegui mostrar todo o meu conhecimento e conteúdo, e isso acabou me abrindo ainda mais espaço. Então eu diria que essa foi a experiência mais desafiadora. Eu suei, mas entreguei o meu melhor e foi incrível.

M&M – Você comentou sobre esse movimento da primavera latina, principalmente no meio cultural. Como você enxerga isso? 

Kenya – É importante dizer que o Brasil sempre consumiu música e cultura latina. Muita gente acha que isso começou agora, com o Bad Bunny ou com a chegada da Shakira, mas não, isso sempre esteve presente. Nosso país é muito diverso, e regiões como o Norte e o Nordeste sempre tiveram uma conexão muito forte com a cultura latina, inclusive nas danças. A própria lambada, por exemplo, vem de ritmos latinos. O que sinto é que, nos últimos anos, essa musicalidade ganhou mais força globalmente, conquistou mais mercado, mais ouvintes e mais relevância. Não à toa, vemos fenômenos como o Bad Bunny, com uma das maiores bilheterias de todos os tempos, levando sua história e fazendo essa conexão entre os Estados Unidos e Porto Rico. Então, é um mercado que hoje tem muito mais peso e visibilidade. A música em espanhol vem ganhando mais espaço, com artistas como Maluma, Karol G, Shakira, J.Lo, que já fazia muito sucesso nos anos 2000. Ou seja, é um momento em que a música latina volta a ter muita visibilidade, mas ela nunca deixou de existir.

M&M – Como as pessoas podem acompanhar a transmissão do show da Shakira no Todo Mundo no Rio?

Kenya – Será no dia 2 de maio e a gente vai fazer uma transmissão multiplataforma pela TV Globo, pelo Multishow e pelo Globoplay, com sinal aberto também para não assinantes. Eu estarei como apresentadora na TV Globo, junto com a Ana Clara. E, no Multishow, teremos duas grandes especialistas, Dedé Teicher e Laura Vicente, que vão levar de forma brilhante toda a informação, o clima e a experiência da Praia de Copacabana para a casa de milhares de brasileiros.