Inspiração

Ana Boyadjian aposta na potência dos prateados

Para a fundadora do ecossistema de socialização 60+, os maduros estão mais ativos do que nunca

i 15 de abril de 2026 - 8h36

Ana Boyadjian, fundadora do Prateados (Crédito: Ana Karolina Ferreira)

Ana Boyadjian, fundadora do Prateados (Crédito: Ana Karolina Ferreira)

Ana Boyadjian é fundadora da Prateados, um ecossistema de soluções para promover a sociabilidade de pessoas 60+. Porém, antes disso, começou sua carreira profissional no mundo corporativo tradicional. Com formação em secretariado, iniciou como assistente, depois virou secretária e, em seguida, assessora. Neste início, atuava numa construtora que trabalhava com obras públicas, e ela assessorava o presidente e vice-presidente da companhia.

Foi também nesse começo que Ana conheceu sua primeira mentora: Isabel de Garcia, liderança da construtora. “Eu olhava para aquela mulher poderosa dentro da empresa, usando saia lápis, entrando nas reuniões e sendo respeitada por todos, e pensava: que mulherão. Eu me inspirei muito nela e sinto que, de alguma forma, ela também me adotou”, conta.

Ainda na faculdade, Ana decidiu que queria experimentar outros setores, e foi quando migrou para o entretenimento. “Saí do terninho e da saia lápis para um ambiente mais descontraído, onde as pessoas pintavam a unha de preto, eram tatuadas, tinham o cabelo raspado”, lembra.

Assim, entrou na produtora RGB, responsável pelo programa Popstars e grupos de música como Rouge e Br’oZ. Apesar de ter um currículo totalmente diferente do esperado para a vaga, Ana soube vender suas habilidades na hora da entrevista. “Respondi que da mesma forma que fazia a gestão de orçamento de uma obra pública, poderia fazer a de um programa de TV. O que mudava eram os elementos: em vez de sacos de cimento, seriam casting, elenco, catering”, respondeu.

A partir de então, Boyadjian trilhou sua carreira no entretenimento e trabalhou com várias pessoas do show business como Rodrigo Cano, Xuxa e o É o Tchan. Depois, trabalhou com live marketing por mais 16 anos e, por fim, foi convidada para fundar a agência de publicidade aldeiah, em 2022. Mais recentemente, porém, Ana percebeu que era hora de explorar um novo caminho e criou o Prateados, atualmente em fase beta em São Paulo, mas que, segundo ela, deve alcançar todo o Brasil até janeiro de 2027.

Nesta entrevista, Ana Boyadjian fala sobre como suas origens a inspirou a criar um negócio voltado ao público 60+. Ela explica todo o processo empreendedor por trás da Prateados, e reforça como este público segue ativo e pulsando vida.

Meio & Mensagem – Como foi a sua infância e adolescência?

Ana Boyadjian – Venho de uma família muito amorosa, com bases fortes. Meus pais saíram de Recife para São Paulo e construíram a vida aqui. Minha mãe sempre foi uma referência de força e protagonismo, e meu pai, de honestidade e educação, valores que moldaram quem eu sou. Tive uma infância feliz, mas desde cedo entendi meu papel no mundo, inclusive como uma das poucas pessoas pretas na escola particular onde estudei. Ainda jovem, comecei a buscar independência e entrei no mercado de trabalho aos 15 anos, com apoio da minha mãe e resistência inicial do meu pai. Fui atrás disso sozinha, conversando com adultos ao meu redor até conquistar minha primeira oportunidade como assistente. Minha chefe, inclusive, me buscava em casa para trabalhar. Assim comecei minha trajetória, saindo da Vila Diva, na Zona Leste, para explorar o mundo com curiosidade e vontade de crescer.

M&M – Como surgiu o Prateados?

Ana – Após um período trabalhando com publicidade, senti a necessidade de desacelerar e passei a atuar como articuladora de negócios, explorando novos setores. Esse movimento me motivava justamente por exigir aprendizado constante. Ao transitar por diferentes áreas, percebi um gap na chamada economia prateada. A inquietação também vinha da minha vivência pessoal: eu era sempre acionada para resolver questões burocráticas da família, mas raramente para momentos de lazer. Isso me fez refletir sobre como, com o tempo, as demandas dos meus parentes mais velhos passam a girar mais em torno da sobrevivência do que do prazer.

Entendi que, além de uma questão pessoal, havia ali uma grande oportunidade de mercado: um público com alto poder econômico, mas pouco compreendido e explorado pelas marcas, com exceção dos serviços ligados à saúde. Passei então a buscar projetos nesse universo, sem encontrar nada que realmente me engajasse. Foi quando decidi transformar essa inquietação em negócio. Com apoio especializado, comecei a estruturar a ideia, que deu origem ao Prateados, com lançamento previsto para o segundo semestre de 2026.

M&M – Como foi o processo de empreender?

Ana – Quando comecei a desenvolver o Prateados, optei por validar a ideia na prática, em vez de seguir apenas pesquisas tradicionais. Com apoio da InovArt, liderada por Renata Duarte, estruturamos uma fase beta com 50 pessoas 60+. Testamos com eles, por três meses, produtos e serviços na plataforma. O Prateados nasceu como um ecossistema que estimula a longevidade por meio da socialização. A principal descoberta foi que, ao contrário do esperado, as redes de relacionamento diminuem com a idade, ficando restritas à família e a vínculos assistenciais, que não substituem as amizades reais. Essa redução impacta diretamente o bem-estar físico, emocional e social, levando ao isolamento e à falta de estímulo. Além disso, muitas vezes há uma lacuna de convivência que a família não consegue ou não deseja preencher, e tudo bem.

Foi nesse espaço que decidimos atuar: criar conexões e experiências que resgatem o prazer, o convívio e o senso de pertencimento. Para isso, buscamos entender profundamente a diversidade desse público, reunindo perfis variados para construir uma solução realmente relevante e aderente. Começamos recrutando participantes para testar os serviços do Prateados, que se baseiam na curadoria de atividades culturais e sociais, como cinema, teatro, exposições, dança e oficinas, fugindo do óbvio e evitando propostas mais estereotipadas.

A ideia foi mapear experiências mais interessantes e acessíveis. Em vez de grandes redes, buscamos espaços icônicos e acolhedores, como o Espaço Petrobras de Cinema, onde hoje temos sessões exclusivas para o grupo, seguidas de conversas mediadas que estimulam troca e reflexão. Também ocupamos locais como o Parque Ibirapuera, com atividades físicas pensadas para respeitar a autonomia e evitar qualquer infantilização. Tudo é estruturado com propósito, sempre incentivando conexão, movimento e protagonismo.

M&M – Qual foi o primeiro impacto do projeto entre o público maduro?

Ana – O impacto foi imediato: formou-se um forte senso de pertencimento. Os participantes passaram a ocupar espaços antes vistos como “não pertencentes” a eles, criando novas dinâmicas. Familiares passaram a querer participar. É um público ativo, com tempo, energia e vontade de viver experiências no mundo real. A nossa prateada mais longeva é a dona Nair, com 91 anos. Ela tem uma agenda mais ativa do que muita gente: faz pilates, participa do coral da igreja, é voluntária em bazar, faz ginástica rítmica e ainda frequenta o Prateados duas vezes por semana. Minha mãe, com 77, faz musculação cinco vezes por semana, pilates três vezes e também participa do Prateados duas vezes por semana, além de ser a anfitriã, responsável por receber e acolher novos participantes. O Prateados nasce para atender essa demanda, em um modelo por assinatura, como um clube de experiências. Os participantes escolhem a quantidade de atividades por mês e têm acesso a tudo sem custos adicionais, sempre com acompanhamento de profissionais qualificados.

M&M – Vocês classificam o modelo de negócio como “business to family” (B2F). O que isso significa?

Ana – O Prateados se posiciona como B2F (business to family), um serviço pensado não só para quem usa, mas também para a família. O prateado é o usuário, mas muitas vezes o filho ou a filha é quem assina, especialmente quando quer estar mais presente, mas não consegue, pela rotina. A proposta é oferecer experiências seguras, acompanhadas e acessíveis, desde a escolha dos locais até o suporte completo durante a atividade. Tudo é pensado para garantir conforto e confiança.

A jornada é próxima e cuidadosa: antes da atividade, o participante recebe orientações e já conhece o anfitrião. Na chegada, é acolhido pessoalmente, enquanto a família é informada em tempo real. Ao final, recebe atualizações com fotos e confirmação de que tudo ocorreu bem. Isso gera tranquilidade para quem está de fora e, principalmente, devolve ao prateado o senso de autonomia, pertencimento e prazer. No fim, Prateados é sobre conexão, cuidado e protagonismo nessa fase da vida.

M&M – Quais desafios você enfrenta no processo empreendedor e quais são os próximos passos do Prateados?

Ana – Empreendo o Prateados a partir de uma proposta que considero pioneira: um ecossistema completo de socialização para pessoas 60+, sem benchmark direto no Brasil. Isso exige testar, validar e ajustar constantemente. Foram nove meses iniciais entre desenvolvimento e pesquisa, com investimento próprio. Apesar de já haver interesse do mercado, optei por não abrir participação agora, apostando em patrocínios e no crescimento estruturado.

Os desafios do Prateados estão conectados com os desafios do público com a tecnologia, de acesso e locomoção. Por isso, a fase beta, com 50 participantes, é essencial. Eles testam tudo e dão feedback real, ajudando a ajustar desde o app até a experiência. Hoje, estou em São Paulo, mas em quatro meses, avanço para sete praças e, até janeiro de 2027, quero estar no Brasil inteiro. Então, preciso de uma ferramenta robusta para gerir tudo isso.

As atividades também seguem esse princípio: promover movimento, energia e autonomia, sem infantilização, respeitando o ritmo de cada um. Então a gente adapta, usa bastão, elástico, colchonete, mas sem infantilizar. Até nas experiências mais sociais, como sair à noite, respeitamos o tempo deles. No fim, a socialização é o centro de tudo, e também o maior indicador de sucesso. Quando conexões extrapolam o próprio Prateados, criando vínculos reais, o propósito se cumpre. Mais do que um serviço, a ideia é criar identidade e orgulho: transformar “idoso” em “prateado”, ressignificando essa fase como ativa, potente e cheia de vida. Os prateados com quem eu convivo são anarquistas no melhor sentido: querem viver, se divertir, experimentar. E isso não fui eu que disse, foram eles. Eles não se veem naquele lugar limitado. Eles querem muito mais.