PESQUISA

Crime contra mulher é o mais grave para maioria do Brasil

Pesquisa do Datafolha mostra que 61% dos brasileiros consideram violência de gênero o principal problema de segurança pública

i 1 de junho de 2026 - 9h00

(Crédito: Shutterstock)

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Pela primeira vez, a violência contra a mulher é apontada pelos brasileiros como a forma de criminalidade mais grave do país. De acordo com nova pesquisa do Datafolha para o Movimento Mulher 360, o crime supera problemas historicamente associados à insegurança pública, como tráfico de drogas, assaltos e roubos. 

Segundo o levantamento, 61% dos entrevistados consideram a violência contra a mulher o crime mais grave da atualidade. O índice é ainda mais elevado entre as mulheres (73%) e alcança 77% entre jovens de 16 a 24 anos. Em segundo lugar aparece o tráfico de drogas, citado por 16% dos entrevistados.

A percepção de agravamento do problema também é destaque do estudo. Nove em cada 10 brasileiros (89%) afirmam que a violência contra as mulheres cresceu nos últimos 12 meses. Entre o público feminino, esse percentual sobe para 94%.

Além disso, 71% acreditam que as mulheres correm mais perigo dentro de casa do que fora dela, o que reforça o entendimento de que a violência doméstica é um dos principais desafios do país.

Relativização da violência

Apesar da mudança de percepção dos brasileiros, a pesquisa revela que diversas formas de violência permanecem invisíveis. Apenas 54% consideram sempre violência um marido impedir a esposa de sair sozinha para uma comemoração.

Situação semelhante ocorre quando um homem controla as amizades da parceira ou o salário da esposa. Apenas 58% classificam esses comportamentos como violência. Para uma parcela significativa dos entrevistados, o caso depende da dinâmica do relacionamento.

Já as agressões físicas e sexuais são amplamente reconhecidas como tais. Mais de 90% dos entrevistados consideram violência situações como humilhação pública, perseguição, empurrões ou relações sexuais forçadas dentro do casamento. O contraste evidencia que o país ainda tem dificuldade em identificar os sinais que antecedem episódios mais graves de agressão.

Consequências e culpabilização

O estudo também expõe a dimensão do problema na vida das mulheres. Entre aquelas que responderam ao módulo confidencial da pesquisa, 74% relataram já ter vivido ao menos uma situação de violência ao longo da vida. Os episódios mais frequentes foram insultos e xingamentos (59%), ameaças de agressão física (45%) e intimidação ou perseguição (43%).

Além disso, 38% afirmaram já ter sofrido violência sexual sem consentimento. Uma em cada quatro relatou espancamento ou tentativa de enforcamento.

Outro dado que chama atenção é a persistência da culpabilização das vítimas. Para 61% dos entrevistados, muitos casos de violência contra a mulher seriam consequência de escolhas equivocadas feitas por elas ao selecionar seus parceiros. A percepção ajuda a explicar por que 37% das mulheres que sofreram a agressão mais impactante do último ano não tomaram nenhuma atitude após o episódio.

Desconfiança de instituições

A baixa confiança nas instituições também aparece como obstáculo. Apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las. Entre os homens, o índice é de 31%. Além disso, enquanto mais da metade dos homens considera as leis de proteção eficazes, a maioria das mulheres demonstra desconfiança em relação à capacidade dessas normas de produzir proteção real.

Os resultados indicam que a violência contra a mulher deixou de ser percebida apenas como questão privada ou restrita ao universo feminino. A percepção de que é um problema central de segurança pública aumentou.

Ao mesmo tempo, a pesquisa sugere que o enfrentamento do problema ainda passa pelo desafio de ampliar o reconhecimento das formas sutis de violência que precedem as agressões físicas e ainda são normalizadas por parcela significativa dos brasileiros.

Para a pesquisa, o Datafolha ouviu 2.004 pessoas em todo o Brasil em abril deste ano.