O que está por trás da crise de saúde mental das meninas?
Pressão estética, violência e cobrança por perfeição explicam o atual contexto emocional das adolescentes
A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), do IBGE, divulgada em março deste ano, revelou um cenário alarmante sobre a saúde mental dos adolescentes, principalmente das meninas. De acordo com o estudo, 41% das meninas relataram ter se sentido tristes na maioria das vezes ou sempre, índice quase 2,5 vezes maior que dos meninos (16,7%).
Além disso, 58% das meninas concordam que se sentem irritadas, nervosas ou mal-humorados por qualquer coisa (27,6% entre meninos); 39,7% acreditam que que os pais ou responsáveis não entendem suas preocupações (33,5% entre meninos); e 33% acreditam que ninguém se preocupa com elas (19% entre meninos).
De acordo com Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus, a adolescência é um momento da vida em que os jovens passam por muitas transformações, tanto sociais quanto biológicas e, por consequência, são mais vulneráveis a desenvolver transtornos mentais. O momento é ainda mais delicado para as meninas, por diversos motivos.
A começar pelas desigualdades de gênero que começam a impactar a vida das mulheres desde cedo. “Elas são submetidas às expectativas que se tem do papel que a mulher deve exercer na sociedade, colocando a mulher como alguém responsável pelo cuidado, que sofre pressão estética, que tem que desenvolver certos papéis. Essa diferença de expectativas entre os gêneros torna elas mais vulneráveis ao sofrimento psíquico”, afirma Mariana.
Recentemente, o Lab Humanidades, liderado por Rita Almeida, da AlmapBBDO, lançou o estudo “A(dor)lescência”, que revelou como as meninas são educadas e socializadas de uma maneira distinta dos meninos. “71% dos adolescentes concordam que as meninas recebem um tratamento diferente, e que os meninos têm mais liberdade para sair e ocupar os espaços externos mais cedo. Entre as meninas, esse número chega a 82%. Então, existe uma consciência muito clara dessa desigualdade, e isso acaba sendo a semente do que acontece depois”, alerta a líder.
Limites da espontaneidade
Essa maneira de socializar meninas acaba por tolher a expressividade e a subjetividade delas, diminuindo-as para fazê-las se encaixar neste papel. E, um dos primeiros modos de se expressar, muito julgado nas meninas, é a sexualidade. “No momento em que a menina passa a ser adolescente, as expressões da sexualidade começam a aparecer. E, ao mesmo tempo em que existe um estímulo para isso, ligado à estética, à imagem e à ideia de ficar bonita e de se cuidar, também existe uma crítica e um julgamento muito fortes”, afirma Natália Del Ponte de Assis, psicóloga clínica especializada em sofrimento entre adolescentes.
Segundo a psicanálise, a expressão da sexualidade não está ligada somente ao sexo, mas também ao prazer, à relação com o corpo e à sua própria existência, explica a psicóloga. Deste modo, existe uma relação direta com questões individuais mais amplas.
“Vai se criando um espaço muito apertado para essa expressão da adolescente. E isso é muito sofrido, porque, para existir de forma saudável, a pessoa precisa poder ser espontânea. E espontaneidade não é impulsividade, pois passa por conseguir existir de forma autêntica nas relações”, continua Natália.

Natália Del Ponte de Assis, psicóloga clínica especializada em sofrimento entre adolescentes (Crédito: Divulgação)
O estudo do Lab Humanidades comprova esta diferença. A pesquisa perguntou aos pais e mães se achavam adequado a menina ter seu primeiro beijo aos 14 anos, e a resposta foi que sim apenas para 20%, enquanto que para os meninos, 40% concordaram com a afirmação. Já quanto à primeira relação sexual, 26% entendem que a idade mínima para o filho menino iniciar a experiência deve ser entre os 15 e 17 anos, contra 9% para a filha menina.
“Parece que existe uma ideia de que a ‘adolescente boazinha’ é aquela que segue um roteiro: estudar, ter uma profissão, talvez casar, cumprir um determinado modelo do que seria ‘dar certo’ na vida”, diz Assis. Todos os seus comportamentos ficam sujeitos ao julgamento: sua forma de falar, de ocupar um espaço, de escolher, de se vestir, de se relacionar. Mas isso, segundo ela, não teria o mesmo peso para os meninos.
“Quando uma mulher sai do roteiro esperado, ela costuma ser mais julgada. Já para os homens, parece existir uma tolerância maior para simplesmente existir, ocupar espaço e estar à vontade no próprio corpo”, afirma a psicóloga. Em sua experiência de pesquisa, Natália se deparou com meninas que não conseguiam expressar seus sentimentos em palavras, apenas por meio de desenhos ou outras formas simbólicas de expressão.
O sonho virou performance
De acordo com Rita Almeida, o que diferencia a adolescência de hoje para outras gerações é, na verdade, a realidade que vivemos. “Eles exercem a adolescência num mundo novo, de alta exposição, de altíssimo grau de comparação e de relações mediadas por telas. Isso acelerou muito os níveis de ansiedade e depressão”, afirma Rita.
Pela primeira vez no Brasil, os registros de casos de ansiedade entre crianças e adolescentes superou os números de adultos. Entre 2000 e 2021, houve uma alta de 221% do problema entre meninas de dez a 14 anos, contra um aumento de 170% dos meninos.

Rita Almeida, head do Lab Humanidades da AlmapBBDO (Crédito: Camila Cara)
Uma dessas consequências é a ansiedade em relação ao futuro. De acordo com a pesquisa da AlmapBBDO, 61% dos jovens (68% das meninas) afirmaram se sentir ansiosos ou inseguros devido à pressão para ter sucesso. Segundo a líder, existe uma crença de que o resto de suas vidas dependem das decisões que tomarem agora, o que limita suas visões sobre seus horizontes.
“Eles deixaram de ter grandes sonhos, como ser astronauta, fazer grandes viagens ou qualquer outra fantasia mais ampla. Entre os dez maiores sonhos que eles têm hoje, oito estão ligados à carreira e à estabilidade financeira”, avalia Rita.
Ditadura do corpo
Outra questão importante que aparece na pesquisa do IBGE é o sofrimento feminino devido à pressão estética. Desde a última edição, em 2019, o índice de satisfação com o próprio corpo caiu de 66,5% para 58%. Mas a situação é pior entre as meninas, em que mais de um terço (36%) se diz insatisfeita com a aparência, contra apenas 18% dos meninos. Além disso, mais de 31% afirmaram que estavam tentando perder peso.
“Muitas meninas ainda não têm a autoestima desenvolvida ou estão justamente nesse momento em que a opinião dos outros importa muito. E, com as redes sociais, isso fica ainda mais intenso. Então, existe uma comparação constante com o outro, que aparentemente tem uma vida e um corpo perfeitos”, ressalta Rae.
O julgamento cria medo e condiciona a pessoa a um papel de submissão, que, por sua vez, muda seu comportamento em busca da aceitação. “Existe uma busca quase infinita por aprovação quando anulo meu próprio desejo para me adaptar às supostas regras sobre como devo ser. Como ser ‘certinha’, como parecer feliz, como demonstrar que ‘deu certo’ na vida. E isso acaba custando muito caro para a saúde mental, porque limita justamente a possibilidade de existir no mundo de forma mais autêntica e espontânea”, pontua Assis.
Violências sutis e escancaradas
A violência é outro tema importante que atravessa a vivência das jovens. Na pesquisa do IBGE, as meninas são as principais vítimas de bullying e cyberbullying, sendo que 30,1% relataram sofrer humilhações de colegas, e 15,2% disseram ter sido vítimas de agressões no ambiente virtual. Além disso, 26% também afirmaram ter sofrido assédio sexual, como toques e exposição contra a vontade, e 11,7% disseram ter sido forçada a ter relações sexuais.
“Elas vivem situações muito difíceis no dia a dia e carregam um medo constante de sair na rua. Na nossa pesquisa, apareceram casos muito fortes, como o de uma menina que tinha trocado nude com o namorado e depois teve essa imagem vazada”, relata Almeida.
Entretanto, Natália ressalta que existem violências mais sutis, ligadas a falas, julgamento e mensagens dirigidas a essas meninas. São transgressões mais discretas e mais difíceis de serem identificadas, justamente por não serem escancaradas. Um cenário que impacta também o imaginário sobre o que estas meninas podem alcançar no futuro.
“Existe uma espécie de desesperança entre muitas meninas, como se houvesse a sensação de que ‘o mundo é assim e sempre vai continuar sendo’. Quando a gente olha para os índices de feminicídio e violência, muitas vezes parece que as mulheres acabam internalizando essa ideia de que o mundo é perigoso, e então se calam, se fecham, se expõem menos”, reflete Del Ponte.
Elas vivem em um ambiente em que não há segurança para se expressar, seja sair na rua, falar o que pensam, ocupar certos espaços ou reivindicar seus direitos. A violência se acentua quando camadas interseccionais são adicionadas. “Quando meninas LGBT+ começam a viver as primeiras experiências afetivas, amorosas e sexuais, muitas vezes sentem muito medo de circular na rua, e esse sentimento tem fundamento, porque elas realmente sofrem agressões”, reforça a psicóloga.
Futuros comprometidos
Esse cenário da saúde mental dos adolescentes tem consequências que não podem ser ignoradas. Mariana alerta que pode acarretar o aumento da incidência de transtornos e sintomas mais graves como depressão, desânimo profundo, desesperança em relação à vida e excesso de adaptação social.
“A maioria dos problemas de saúde mental aparece até os 14 anos, e a maior parte deles não vai receber o tratamento necessário. Estamos falando de sofrimentos que podem acompanhar essas meninas quando elas forem adultas”, complementa.

Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus (Crédito: Divulgação)
A alta passividade, ou excesso de adaptação social, também podem impactar o modo como essa menina processa traumas e abusos. Em sua prática clínica, a psicóloga relata como muitas pacientes não reconhecem que passaram por situações do tipo e só se dão conta durante o processo terapêutico.
Apesar disso, esses sofrimentos deixam cicatrizes nem sempre visíveis. “Existem marcas relacionadas ao corpo e à forma de existir no espaço. Uma postura mais fechada, andar curvada, sentir que não pode ocupar espaço, não poder circular livremente na rua”, diz.
O resultado são meninas que não conseguem expressar ou elaborar o que sentem. Elas se afastam de si mesmas, ficam atrofiadas emocionalmente e podem até chegar ao isolamento social.
“O isolamento e a solidão também são fatores de risco muito importantes. Quando você não tem uma rede de apoio e carrega tudo sozinha, não verbaliza, não consegue externalizar o que está sentindo, isso aumenta muito a chance de adoecimento”, declara Mariana.
Elas podem não verbalizar como estão se sentindo ou pelo o que estão passando, mas acabam se expressando de outras formas. “As adolescentes comunicam o sofrimento de muitas maneiras. Nem sempre é pela palavra, porque conseguir falar sobre a própria dor já exige um nível grande de elaboração. Mas elas comunicam por meio de sintomas, gestos, mudanças de comportamento, permanências silenciosas depois da aula”, relata a psicóloga.
“Existe uma tendência de tratar tudo o que o adolescente fala como exagero. Mas, muitas vezes, essa forma aparentemente exagerada é justamente uma tentativa de comunicar algo que está muito difícil de ser colocado em palavras”, continua a especialista.
Rita Almeida cita Jordi Nomen, professor de filosofia e ciências sociais e diretor do departamento de humanidades da escola Sadako, em Barcelona, quando ele atesta que grande parte dos conflitos vividos na adolescência ocorrem pela falta de perspectiva que os jovens têm sobre seu próprio lugar no mundo.
“Existe uma necessidade muito grande de ser notado, reconhecido e validado, e eles não sentem que isso esteja vindo da população adulta. Então, ficam desesperados para se sentir pertencentes, para se sentir vistos”, reflete a líder.
“Nessa fase, infelizmente, se a menina não tem um diálogo aberto, se não encontra na escola uma oportunidade de acolhimento, se não tem uma família que apoia e nem uma rede de apoio entre amigos e colegas, ela fica ainda mais vulnerável a sofrer essas violências, sozinha, a não entender o que está acontecendo e até a achar que a culpa é dela mesma”, conclui Mariana.