Women to Watch

Mulheres negras pulam juventude para sustentar a família

Segundo nova pesquisa da Globo, jovens negras começam vida adulta cedo e Gen Z cobra autenticidade das marcas

i 19 de maio de 2026 - 14h57

Os primeiros resultados de estudo inédito da Globo sobre a juventude brasileira, “Jovens”, foram apresentados parcialmente durante evento do Negritudes, realizado no dia 19, no Cubo Itaú, em São Paulo.

Os dados, expostos por Leticia Mota, líder de estratégia e inteligência de negócios da Globo, revelam um retrato mais complexo e menos estereotipado da geração jovem no país, composta por pessoas de 15 a 29 anos. O levantamento também traz recorte feminino relevante para análise.

Entre os principais achados da pesquisa, que mescla metodologia proprietária da Globo com outros estudos recentes realizados por grandes institutos no Brasil, está o impacto desigual da juventude (e da velhice) para mulheres negras.

De acordo com o levantamento, elas frequentemente vivem o que se espera acontecer na vida adulta ainda na adolescência, ao assumir responsabilidades familiares precoces e abrir mão da própria experiência de juventude e da construção de individualidade, e esta tendência dura até o fim da velhice. Hoje, 32% das mulheres jovens têm filhos.

Cuidadoras da juventude à velhice

A pesquisa ressalta, com dados do Censo do IBGE, que 60% dos jovens brasileiros são negros, sendo 49% pardos e 11% pretos, e que mulheres negras puxam os índices de maternidade precoce entre as pessoas da faixa etária.

O estudo também destaca que muitas mulheres negras acabam ocupando posições de cuidado dentro da família ainda muito cedo, tornando-se apoio financeiro e emocional da casa antes mesmo da vida adulta formal começar, comportamento que se prolonga até o final da vida.

Entre homens brancos, por exemplo, esse papel se limita apenas à vida adulta e, entre mulheres brancas, entre o final da juventude e o início da velhice.

Cenário otimista

Ao mesmo tempo, a pesquisa tenta desmontar parte da narrativa pessimista construída sobre a geração Z. Segundo os dados, 8 em cada 10 jovens acreditam que terão uma vida melhor do que a dos pais, e 78% deles afirmam estarem focados em construir seu futuro, mesmo que isso exija esforço.

O levantamento aponta ainda avanços importantes na educação: o Brasil vive hoje o maior percentual de jovens escolarizados da história, com crescimento da conclusão do ensino médio e superior, além da queda do abandono escolar.

Outro dado relevante é que os jovens deixaram de lutar apenas “pelo mínimo”. Em comparação com 2016, quando a Globo realizou mesma pesquisa, o medo já não é apenas ficar desempregado e não ter o básico, mas não poder escolher caminhos profissionais alinhados ao propósito de vida, ou seja, não ter escolhas. Flexibilidade, autenticidade, saúde mental e qualidade de vida aparecem como prioridades centrais dessa geração, inclusive nas relações de consumo.

A apresentação também criticou a chamada “juvenoia”, termo usado para definir o hábito social de enxergar cada nova geração como “pior” do que a anterior. Segundo Leticia, reduzir a juventude apenas a crises emocionais ou falta de compromisso ignora as camadas de raça, gênero e desigualdade que moldam a experiência de ser jovem no Brasil hoje.

Comportamento de compra

Algumas mudanças no consumo aparecem como consequência desse novo momento dos jovens. Mais conscientes e informados, eles entendem que preço e custo-benefício pesam mais do que a marca (65%) e acreditam que marcas brasileiras são tão interessantes quanto as estrangeiras (54%).

Além disso, 59% afirmam fazer a maior parte das compras online, enquanto 49% entendem que o posicionamento social e os valores de uma marca influenciam a decisão de compra.

Segundo a pesquisa, os jovens não aceitam mais relações abusivas; produtos sem propósito; comunicação artificial; estética vazia; promessa sem entrega e marcas que tratam suas conquistas como “exagero ou frescura”.

Por outro lado, as pessoas dessa geração buscam marcas que legitimem seus avanços; ampliem suas possibilidades; respeitem seus limites e reconheçam suas conquistas.