Quem são as mulheres por trás das novelas brasileiras
Dramaturgas refletem sobre suas trajetórias, desafios desse mercado e estilo pessoal

Quem são as mulheres por trás das novelas brasileiras (Crédito: Globo)
Antes de se consagrar como dramaturga, Licia Manzo trilhou uma carreira como atriz dos 15 aos 30 anos, onde teve contato com peças de autores como Shakespeare e Brecht. Foi no palco, recitando estas palavras, que ela aprendeu sobre oralidade, ritmo e estrutura. No entanto, a instabilidade financeira da carreira de atriz e a personalidade mais introspectiva a fizeram recalcular a rota e voltar-se para a escrita.
Licia chegou então à Globo em 1997, na equipe de roteiristas do Sai de Baixo (1996), e participou de mais alguns sucessos humorísticos como Vida ao Vivo (1997), Retrato Falado (2000) e A Diarista (2004). Nas novelas, ela assinou A Vida da Gente (2011), Sete Vidas (2015) e Um Lugar ao Sol (2021).
A inspiração para criar histórias, entretanto, não é algo que se pode ambicionar, diz Manzo. Surge de superação e surpreende nas situações mais improváveis. “Estava de férias uma vez, nos Estados Unidos, e numa viagem de carro tive a ideia inteira da novela Sete Vidas. Não tinha papel, nada, apenas um bloco de post-it no console do carro, que pedi ao motorista. Até hoje guardo essas anotações como uma comprovação misteriosa do que é o trabalho de escrita para mim”, conta Licia.

Licia Manzo, autora de novelas (Crédito: João Cotta/Globo)
Claudia Souto é outra dramaturga que iniciou sua jornada artística no teatro. Na TV, foi roteirista de programas como Casseta & Planeta, Urgente, onde entrou em 1992. Em 2007, recebeu o convite de Walcyr Carrasco para colaborar na novela Sete Pecados, e, depois, seguiram-se Caras & Bocas (2009) e Morde e Assopra (2011). Até que, em 2017, estreou sua primeira novela como titular: Pega Pega. A segunda foi Cara e Coragem (2022), que lhe rendeu um Emmy internacional, seguida de Volta Por Cima (2024). Agora, ela se prepara para lançar, como parceira de Walcyr, a próxima novela das nove da TV Globo, Quem Ama Cuida.
Do cinema à novela
Já Rosane Svartman é autora das novelas Totalmente Demais (2015), Bom Sucesso (2019), Vai na Fé (2023) e Dona de Mim (2025), e foi diretora do Casseta & Planeta e do Garotos de Programa. Mas, ao contrário de Claudia e Licia, trilhou uma carreira no cinema, no qual se formou, antes de se dedicar à dramaturgia da televisão. A oportunidade de entrar nessa área surgiu de uma concorrência que participou, para a qual escreveu uma sinopse para Malhação – Intensa como a Vida (2012), em parceria com Gloria Barreto, e acabou sendo escolhida.
Apesar da formação em jornalismo, o desejo de ser roteirista já pulsava na veia de duas dramaturgas, que se enveredaram pelo audiovisual: Maria Helena Nascimento, autora da atual novela das sete da TV Globo, Coração Acelerado, e Renata Sofia, autora do filme Confia – Sonho de Cria, e colaboradora em novelas como Dona de Mim e Vai Na Fé, onde conheceu Rosane Svartman.
Literatura como base
Ao lado de Maria Helena está Izabel de Oliveira, que também assina Coração Acelerado. Diferentemente da colega, iniciou seu contato com a dramaturgia em seu mestrado em Literatura Comparada, onde estudou o folhetim e o melodrama, duas paixões antigas. Ela tem no currículo duas temporadas de Malhação, ao lado de Paula Amaral (2006-2007), a novela Verão 90 (2019) e, com Filipe Miguez, Cheias de Charme (2012) e Geração Brasil (2014).

Maria Helena Nascimento e Izabel de Oliveira, autoras de novelas (Créditos: Estevam Avellar/Globo)
A literatura também fez parte da formação de Licia Manzo, que estudou as obras de Clarice Lispector no mestrado. “Clarice faz parte de minha formação como mulher e escritora. Penso que a exploração subjetiva dos personagens, que costumo perseguir em meu trabalho, vem do que aprendi com ela. Nenhum outro autor, acredito, foi capaz de mergulhar em águas tão fundas”, afirma.
Desta mesma safra também surgiu Alessandra Poggi, autora de Garota do Momento (2024). Formada em jornalismo e especialização em literatura brasileira, ingressou na Globo em 2000, após participar de uma oficina de autores de humor, onde entrou para o time de roteiristas do programa Gente Inocente. Em 2017, foi co-autora da novela Os Dias Eram Assim e estreou solo em Além da Ilusão (2022).
Construção de novos mundos
A inspiração para essas mulheres vêm de muitos lugares. Da literatura, do cinema, mas sobretudo, da vida cotidiana. Renata Sofia, por exemplo, tirou muitas ideias de animações. “Quando a gente olha com mais atenção, percebe que muitas delas dialogam diretamente com narrativas clássicas, com mitos e estruturas que atravessam o tempo e que podem sempre ser recontadas a partir de outros pontos de vista.”
Thais Pontes é uma autora formada em publicidade e propaganda e criadora da série Encantado’s (2022), junto com Renata Andrade. Participou da Oficina Cria Globo para formação de autores de novelas e tem em seu currículo programas como Pablo e Luisão (2025), Escolinha do Professor Raimundo, Zorra e, atualmente integra a equipe de roteiro do quadro “Mulheres Fantásticas”, exibido no Fantástico.
Para Thais, a inspiração para contar histórias nasce dos pequenos momentos cotidianos. “Conversa de elevador, fila de mercado, fofoca na praia, um comentário atravessado num almoço. Gosto muito de observar essas microssituações. Às vezes, uma frase que alguém fala já acende uma ideia e, em outras, é um comportamento, um jeito de reagir. A inspiração não vem de grandes acontecimentos, mas da forma como a gente olha para o que se apresenta no nosso dia a dia”, conta.

Renata Andrade e Thais Pontes, autoras de novelas (Crédito: Angelica Goudinho/Globo)
A pesquisa também é uma grande aliada da dramaturgia, principalmente para histórias com contextos específicos. “Preciso ouvir pessoas, entrevistar, ir aos lugares e aos territórios. Ter uma pesquisadora é algo que faz toda a diferença. Uma pessoa que está ali, que vai te abrir um mundo e depois você vai criar um outro universo a partir dele, numa telenovela, e jogar para o Brasil”, destaca Svartman.
Rosane anota tudo o que acha interessante num bloco de notas em seu celular. Uma notícia de jornal, algo que alguém a contou, uma ideia, um personagem. Ela também busca sair de sua própria bolha para explorar e conhecer coisas novas: pessoas, lugares, experiências, uma peça de teatro, um filme, um livro. Até mesmo pesquisas são fonte de inspiração para entender melhor o mundo. “Quando olho uma pesquisa, não vejo só números, mas também personagens. Esse exercício da observação, junto com a inspiração, vai criando uma musculatura”, afirma.
Dramaturgas por natureza
O exercício da escrita existiu desde cedo na vida de Thais Pontes. Muito tímida, ela mantinha um diário quando criança, onde escrevia sobre aquilo que sentia. Sem saber, já estava criando narrativas. “Virei dramaturga pelas referências, por esse encantamento com a palavra e, principalmente, por uma vontade muito grande de colocar no mundo o que eu sinto e o jeito como eu vejo as coisas”, conta.
Alessandra Poggi também cultiva o gosto pelas histórias desde criança, quando criava livros escritos à mão ou na máquina de escrever. Quando crescesse, ela dizia que seria igual a Janete Clair, autora brasileira de telenovelas. Dito e feito. “Virei dramaturga porque amo criar histórias e emocionar as pessoas”, diz.

Alessandra Poggi, dramaturga (Crédito: Leo Rosario/Globo)
O amor pela escrita levou Renata Sofia a escolher o jornalismo. Sempre soube que queria ser escritora, após uma professora elogiar um texto seu na escola. Com o tempo e com o entendimento sobre a indústria audiovisual, a dramaturgia se consolidou como campo de atuação. “Quando percebi a potência do audiovisual seriado, da novela falando sobre o Brasil, dialogando com milhões de pessoas ao mesmo tempo, não teve como não me apaixonar de vez. Foi nesse encontro entre a escrita e o audiovisual que entendi que era ali que eu queria estar”, reforça.
Izabel, apesar de estudar teatro desde os 12 anos para ser atriz, percebia que algo não se encaixava. “Quando comecei a escrever dramaturgia, entendi tudo. Gostava de inventar histórias, de dar vida aos personagens na minha cabeça”, pontua.
“Ouso dizer que nasci já sabendo que seria dramaturga”, afirma Renata Andrade. “Adoro perceber a vida acontecendo no meu entorno, de contá-la à minha maneira, e minha relação com o mundo sempre foi com um olhar de cronista”, continua.
A novela é algo que está intrínseco no gene brasileiro. Muitas mulheres desta geração foram criadas assistindo o gênero. A relação de Claudia Souto com esse tipo de narrativa foi um caminho natural, tanto por sua trajetória profissional, quanto pelo fato de sempre ter sido noveleira. “A novela brasileira é um ponto de união e diálogo com o povo desde seu início até hoje. E o que me faz continuar querendo ser dramaturga, apesar dos desafios, é justamente essa possibilidade de diálogo intenso e imediato com a sociedade”, afirma.

Claudia Souto, dramaturga (Crédito: Manoella Mello/Globo)
Entre obstáculos e conquistas
Para Izabel de Oliveira, existia certa normalidade na noção de que os autores homens eram mais valorizados que as mulheres. “Eles são aplaudidos por jogar duro, por serem poderosos, ambiciosos, enquanto mulheres costumam pagar um preço social alto pelas mesmas características”, adiciona Licia.
Duca Rachid, autora da atual novela das seis da TV Globo, A Nobreza do Amor, com Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr., pontua que ainda há poucas mulheres em cargos de decisão nas TVs abertas e no streaming. “Mas há gente que carrega o piano há muito tempo. Por exemplo, a maior dramaturga da TV brasileira, na minha opinião, era uma mulher: Janete Clair”, destaca.

Duca Rachid, autora da atual novela das seis da TV Globo, ‘A Nobreza do Amor’ (Crédito: Fabio Rocha/Globo)
Além de Janete Clair, Ivani Ribeiro, Gloria Perez e Maria Adelaide Amaral foram algumas das grandes referências de mulheres da dramaturgia televisiva brasileira. “É impossível ignorar que existe um histórico longo e muito forte de mulheres que ajudaram a construir essa linguagem”, reforça Sofia.
Mesmo assim, até pouco tempo, o número de mulheres na área era reduzido, mas, hoje, existe um claro movimento de profissionais femininas se destacando como autoras de grandes obras. Mas os desafios persistem. “Ter que se provar capaz duas vezes mais do que os dramaturgos. Ter que liderar homens, e também mulheres, que não estão prontos para uma liderança feminina. Ajustar seu olhar feminino a uma indústria que por muitos anos foi essencialmente masculina”, aponta Claudia.
Para Renata Sofia, existe um desafio específico para as mulheres na dramaturgia. “A gente se vê em disputas de narrativa, tentando explicar coisas que são muito óbvias para outras mulheres, a partir das nossas vivências, mas que não são imediatamente compreendidas em um ambiente majoritariamente masculino”, destaca.

Renata Sofia, autora do filme ‘Confia – Sonho de Cria’, e colaboradora em novelas como ‘Dona de Mim’ e ‘Vai Na Fé’ (Crédito: Helena Barreto/Globo)
O problema é dobrado para mulheres negras nesse mercado. “O desafio muitas vezes passa por me colocar, sustentar um posicionamento, tentar existir na profissão sem medos e confiar no que faço. Confiar que aquele recorte, aquele tipo de humor e de personagem também importam. Porque, durante muito tempo, algumas narrativas foram consideradas menores”, afirma Thais.
“O fato de ser uma mulher negra, de origem simples e sem padrinhos profissionais foi um grande desafio. Eu poderia ter paralisado, desistido de ser quem me tornei profissionalmente, mas me orgulho muito da minha trajetória porque ela é fruto de muita persistência”, complementa Renata Andrade.
Para além das questões de gênero no mercado de trabalho, existem também os desafios da própria natureza da novela. “Retratar um país complexo como o Brasil, com uma gigantesca desigualdade social, econômica, educacional, cultural. Em uma novela, então, isso se torna mandatório: falar com os muitos brasis que temos”, acrescenta Licia Manzo.
“Uma vez que tenho que entrar na pele de 50 personagens, e que muitas vezes são muito diferentes de quem sou, busco ter uma sala de roteiro que tenha diversidade de pontos de vista, experiências, trajetórias e identidades, para que a gente possa enriquecer essa maneira de falar do mundo, de criar um universo, que é o que a gente faz numa telenovela”, destaca Rosane.

Rosane Svartman, cineasta, diretora e roteirista (Crédito: Fabio Rocha/Globo)
Estilos e subjetividades
Cada uma destas dramaturgas traz um elemento próprio para suas criações. Licia Manzo, por exemplo, destaca a riqueza de seus diálogos e da construção das relações. Alessandra Poggi tem um apreço especial por novelas de época. Maria Helena, por sua vez, descreve seu estilo como “naturalismo com brechas para alguma loucura e algum exagero”. Claudia Souto gosta de adicionar muita ação em seus enredos. O humor é uma característica muito presente nas obras de Thais Pontes.
Além das histórias de época, Alessandra Poggi gosta de escrever personagens femininas. “Sinto que o maior desafio é estar em dia com as questões ligadas ao feminino e às lutas das mulheres por respeito e igualdade. Num mundo onde a violência contra a mulher é tão grande, é preciso olhar para a nossa sociedade e criar histórias que denunciem, emocionem, provoquem reflexões e, espero, mudanças de comportamento”, afirma.
Para Rosane, entretanto, o processo de criação é sempre permeado pela dúvida e curiosidade, mas, sobretudo, pela escuta. “O grande segredo, que também não tenho a fórmula exata, é saber onde você deve mudar de ideia, onde pode e deve abrir mão, e onde deve segurar as rédeas daquela história, não abrir mão do caminho para não se perder”, destaca.
“No fim das contas, aquilo que diferencia qualquer pessoa que trabalha com criação é a sua singularidade”, reflete Renata Sofia. “Meu esforço como dramaturga é ser muito sincera comigo mesma, com as minhas diferenças, com o meu olhar e meu repertório. Não tento esconder o fato de ser uma mulher brasileira, suburbana do Rio de Janeiro, com 39 anos, casada, mas que já foi uma adolescente filha de uma família interracial. Esse conjunto de experiências, afetos e contradições é o que faz com que o meu olhar seja diferente do de qualquer outro roteirista”, conclui.