Women to Watch

Em meio à onda ‘red pill’, criadores desafiam a machosfera

Influenciadores falam sobre os desafios e caminhos para combater a misoginia no ambiente digital

i 23 de abril de 2026 - 15h01

Thiago Oliveira começou a produzir conteúdo online sobre masculinidades no perfil Homem Sem Tabu (@hsemtabu) em 2019, após uma conversa que teve com um amigo. Na época, usava as redes sociais para divulgar seu trabalho como comediante. Certo dia, esse amigo comentou com ele que estava atrasado para um encontro porque precisava comprar um viagra antes de se encontrar com uma menina. Então, Thiago o questionou sobre o motivo de comprar o remédio, já que ele ainda estava na faixa dos 20 anos.

Após a conversa, o amigo o agradeceu porque nunca teve a oportunidade de falar sobre o assunto de forma aberta e honesta. O ocorrido levou Thiago a gravar seu primeiro vídeo sobre o tema, que tratou sobre um dos tabus da sexualidade masculina: a impotência. A ideia inicial era falar sobre os tabus masculinos, dos sexuais aos emocionais, mas, com o tempo, outros assuntos foram inevitáveis de serem comentados, como o machismo. Hoje, o perfil @hsemtabu tem 220 mil seguidores no Instagram.

Guilherme Pallesi é também criador de conteúdo digital (@guipaoficial) com 1,2 milhões de seguidores no Instagram, onde fala sobre machismo e violência contra mulheres. Porém, o que o levou a abordar o assunto online foi uma experiência pessoal com um relacionamento abusivo na família. Ele conta que testemunhou a violência doméstica dos quatro aos oito anos de idade, entre o tio e a tia, que moravam com ele. Quando ainda era novo, não entendia o porquê de sua tia ter manchas roxas pelo corpo, ou o motivo dos gritos, mas, depois, mais velho, entendeu.

Como jornalista, Guilherme tinha um programa na Rádio Mix, onde falava sobre relacionamentos e sexualidade. Certo dia, teve um debate com outro homem sobre licença-maternidade, em que defendeu a necessidade do benefício, e esse vídeo acabou viralizando nas redes sociais. Desse ponto em diante, continuou falando sobre estes assuntos online.

Já André Gomes (@andrejgomes), escritor, começou a produzir conteúdo para as redes sociais em 2014, quando lançou seu primeiro livro, “Manifesto pela Ocupação Amorosa dos Corações Vazios” (Nova Alexandria). O tema da masculinidade, entretanto, surgiu há um ano, enquanto pesquisava o assunto para o lançamento do seu segundo livro, “Analfamachos”.

Contra a maré

Thiago, Guilherme e André seguem no sentido contrário da onda de perfis que hoje propagam discursos misóginos, os chamados “red pill”. O debate sobre novas formas de masculinidades, entretanto, ainda é incipiente entre homens. “Pouquíssimos têm sido capazes de falar sobre isso, de refletir sobre essa masculinidade hegemônica”, pontua André.

“Isso é uma construção cultural, social, política e patriarcal que fundamenta todas as violências contra a mulher. Porque o feminicídio é o último degrau de uma série de violências contra elas cometidas por nós, homens, justamente devido à crença de que homem dá a última palavra”, continua Gomes.

Para Guilherme, no online, o discurso “masculinista” ainda é predominante, mas sua experiência pessoal revela que, no offline, existe maior possibilidade de troca e diálogo entre os homens. “Na vida real, no dia a dia, percebo que muitos compactuam com as minhas ideias. Em compensação, na internet, existe uma força muito grande desses caras que propagam ódio por meio de palavras”, afirma.

No ambiente online, os homens ainda não se envolvem nas discussões sobre outras formas de masculinidades. Para os influenciadores, a maioria do público que consome seu conteúdo e são engajados são as mulheres. “Quem mais interage publicamente ainda são elas. Tem um crescimento de homens fazendo isso, mas ainda é minoria. Mesmo assim, recebo muitas mensagens de homens falando que gostam do conteúdo e que os faz pensar diferente”, destaca Thiago.

“Devido ao crescimento dos casos de feminicídio e à minha persistência, com o tempo, os homens passaram a ver meus conteúdos. Hoje, a maioria do público ainda é feminino, mas o masculino tem chegado mais com dúvidas”, conta Guilherme. “Perdi seguidores e patrocínios, mas como é uma causa nobre, algo que vivenciei, pensei: ‘que se danem dinheiro e seguidores’.”

Medo da exposição

Para o escritor André Gomes, muitos homens ainda têm dificuldades porque se sentem pessoalmente atacados. “Soltei um post recentemente dizendo que, em 2025, nós, homens, matamos 1.470 mulheres de janeiro a dezembro, incluindo as mães dos nossos filhos, mas ‘é o feminismo que quer acabar com a família’. Isso gerou uma repercussão polêmica, porque 9 entre 10 homens que comentaram disseram: ‘se você matou, você se entregue à polícia. Eu não matei ninguém, não tenho nada a ver com isso, pare de generalizar’”, conta.

“Todos nós, homens, somos responsáveis. Não estou falando de responsabilidade jurídica, estou falando de responsabilidade simbólica”, explica o escritor. “Isso não é uma generalização, isso é uma reflexão sobre a estrutura. Tudo bem que você seja um sujeito honesto, que nunca agrediu uma mulher. Você vive numa sociedade em que homens agridem mulheres, matam quatro mulheres por dia”, continua.

Para Thiago Oliveira, existe um medo entre homens de se expor, ou, ainda, de se indispor com colegas, amigos e família. “Já recebi mensagem de homem dizendo que gosta do conteúdo, mas que quase nunca compartilha, porque ele entende algumas coisas, começa a questionar, mas a família e os amigos dele não pensam assim. E ele talvez não queira lidar com esse incômodo agora”, diz.

Nas páginas do Papo de Homem, Andrio Robert, mestre e doutor em educação com pesquisas sobre masculinidades e líder da equipe editorial do Instituto PDH, também percebeu que há uma recuada dos homens em comentar nos conteúdos, com medo de represália. O que ocorre, então, é que eles encontram nas páginas da machosfera um lugar para coletivizar suas ideias e dialogar.

Mas há um segundo ponto que impede que mais homens se exponham: um medo do próprio passado. “Um influenciador começa a se posicionar sobre o tema, mobiliza outros homens, ganha visibilidade, e, de repente, o passado dele vem à tona. E isso cria mais um dilema. Um homem que foi violento pode evitar se posicionar publicamente por medo de que alguém apareça com uma denúncia”, afirma.

“Talvez uma saída para homens que querem se engajar seja, desde o início, não esconder o que fizeram. Mas isso envolve lidar com o próprio orgulho e reconhecer que foi violento, e expor isso publicamente também traz riscos”, complementa.

A onda do discurso “red pill”

“Nós, homens, fomos criados nesta sociedade patriarcal para controlar, para mandar, para sermos os mais fortes. Hoje, vemos sujeito que aprende que é dono de uma mulher, então, quando se vê na iminência de perder essa propriedade, ele mata, agride. Mudar essa mentalidade é um trabalho de gerações”, reflete André.

Para Thiago Oliveira, o discurso masculinista nada mais é do que um reforço de uma realidade já existente. “É muito fácil um criador fazer conteúdo nesse estilo mais ‘red pill’ porque é só reforçar o discurso de ódio contra tudo o que é feminino, reiterar o machismo e o estereótipo de masculinidade hegemônica branca, cis, hétero. Esse tipo de conteúdo adere porque as pessoas foram criadas assim. Elas carregam esses preconceitos.”

André discorda de quem afirma que o avanço do discurso masculinista se deve ao medo dos homens, ou a uma crise do masculino:“É difícil pensar que o sujeito que desfere 61 socos em menos de um minuto no rosto de uma moça esteja com medo. Ele está com ódio”.

“O feminicídio, as agressões, todas as violências contra a mulher são, como diz a professora Rita Segato, recados que nós, homens, mandamos para todas as mulheres: ‘Experimenta sair do roteiro para vocês verem o que acontece’. Esse é o recado do agressor”, segue Gomes.

De acordo com o escritor, o patriarcado ensinou que os homens dão a última palavra e que são detentores das mulheres, então, quando se dão conta que isso não se concretiza na realidade, partem para a violência, porque assim foram ensinados a manter o poder. Em última análise, homens não sabem lidar com a emancipação delas. “Eu atribuo [a violência] ao ódio que muitos homens sentem da autonomia da mulher.”

De forma complementar, Andrio propõe que o avanço desse discurso misógino online é uma reação inversa ao ganho de direitos das mulheres. “Isso acaba gerando um levante contrário, no sentido de manter tudo como está ou até de retroceder. E esse levante costuma vir acompanhado de violência como resposta. Existe uma formação que leva muitos homens a terem, como linguagem de resolução de conflitos, a violência. E isso aparece tanto no nível individual quanto no coletivo”, reflete.

Andrio Robert Lecheta, pesquisador sobre masculinidades e líder da equipe editorial do Papo de Homem (Crédito: Divulgação)

Andrio Robert Lecheta, pesquisador sobre masculinidades e líder da equipe editorial do Papo de Homem (Crédito: Divulgação)

O maior desafio para Andrio, que lidera a equipe editorial do Papo de Homem, é disputar a atenção nas plataformas. “Quando pensamos numa comunicação ética das masculinidades, sempre saímos muito atrás da galera ‘red pill’, porque o tipo de conteúdo ético, responsável, sensível, com dados e pesquisa não funciona numa plataforma”, pontua.

“Esses outros caras usam um gancho que pega na ferida dos homens e produz algo que nós, do campo progressista, temos dificuldade: o pertencimento. Então o público consegue ser cooptado por uma falácia de identificação do outro lado”, complementa. “Ainda que haja a possibilidade de as plataformas se responsabilizarem pelos discursos de ódio, só não é feito por interesse, porque são justamente os polos (progressista e conservador) que mantém a plataforma”, afirma Robert.

Caminhos para o avanço

Acabar com o discurso machista na internet é uma tarefa e tanto. Trata-se de uma questão estrutural, que moldou a sociedade desde sua formação, e que hoje se manifesta no ambiente digital. O movimento feminista já luta contra o machismo há décadas e, de acordo com o Global Gender Gap Report 2025 do Fórum Econômico Mundial, levará cerca de 123 anos para alcançarmos a paridade total de gênero à nível global.

Para Thiago Oliveira, o avanço precisa se basear na educação, principalmente de meninos e meninas. “É ensinar consentimento, limites do corpo, o que é toque apropriado ou não, o que fazer em determinadas situações. Isso já é educação sexual, e muita gente ainda acha que não é importante. E os dados mostram que a maioria dos casos de abuso sexual acontece com menores de 13 anos. Então, se a gente não ensina nem o básico, como essa criança vai crescer sem esse mínimo?”, pontua.

Thiago Oliveira, comediante e influenciador digital (@hsemtabu) (Crédito: Divulgação)

Thiago Oliveira, comediante e influenciador digital (@hsemtabu) (Crédito: Divulgação)

“Não adianta nada somente criminalizar a misoginia e a violência de gênero se não investirmos na informação e na educação, sobretudo de jovens e adolescentes. Os homens adultos precisam aprender a ter culpa em algum momento, precisamos nos autoimplicar nesse problema”, complementa André.

E autoimplicar-se, para o autor, deve ser compreendido em diferentes esferas, incluindo no ambiente corporativo. “Negar que, nas empresas, as remunerações de homens e mulheres são bem diferentes, que elas ganham menos do que eles nas mesmas funções, é cinismo e covardia. Então, todo homem minimamente decente deveria se implicar nessa luta para tentar construir uma alternativa a essa estrutura patriarcal”, adiciona.

Do ponto de vista individual, Andrio incentiva que mais homens compartilhem conteúdos que propõem novas formas de masculinidades. Uma iniciativa do próprio Papo de Homem tem sido reunir influenciadores que não falam necessariamente sobre masculinidades ou questões de gênero, mas que têm abertura para falar sobre o tema sob um ponto de vista progressista, para fornecer formações e incentivar que esses assuntos entrem em suas pautas.

O desafio, para Robert, entretanto, é encontrar uma linguagem que funcione na plataforma e que atinja o público “fora da bolha”, ou seja, para além daqueles que já discutem o tema, e para aqueles que ainda não foram radicalizados.

Já para Guilherme, o Estado deveria atuar mais duramente sobre o assunto. “Combater a machosfera não depende só da gente, mas de quem está lá em cima e foi escolhido pelo povo na hora de uma votação. Enquanto os políticos não entenderem o tamanho do problema e da gravidade desses discursos, e não olharem para o que realmente o povo clama, que é segurança, respeito e punições efetivas, isso nunca vai mudar”, reforça. Por isso, o influenciador defende a criminalização deste tipo de conteúdo.

Para Gomes, já existe um movimento positivo das plataformas tirarem do ar perfis que propagam discursos misóginos. “Isso ajuda. Agora, o principal é que as pessoas leiam e se informem sobre isso. Porque esse cara sempre vai dar um jeito de voltar. Não siga, não curta, não dê palco para esse tipo de gente, a menos que seja para confrontá-lo”, afirma.

Mesmo que o problema seja enorme e que a mudança seja lenta, Thiago Oliveira acredita no poder dos pequenos passos. “Dentro do que consigo fazer hoje, tento agir tanto na minha vida pessoal e nas minhas relações quanto nesse espaço público que tenho na internet. E acredito que não só eu, mas todo mundo que fala sobre isso, de alguma forma, está participando dessa tentativa de mudança”, finaliza.