As mulheres que narram a Copa além dos 90 minutos
De narradoras a creators, profissionais ampliam cobertura e inspiram novas perspectivas em torno do mundial
Por Ingrid Matuoka
Na Copa do Mundo, muito antes do primeiro jogo do dia, o mundial já está no ar. Do café da manhã da narradora à madrugada das lives da influenciadora, a torcida acompanha o mundial em várias telas, opina, produz e quer saber muito além do que acontece nos 90 minutos de jogo.
A pesquisa “O Brasileiro e a Copa: Mídia, Influência e Consumo”, conduzida pela Data-Makers para a Resenha Digital Clube em 2025, mostra que 86% dos brasileiros usam redes sociais para comentar ou postar durante os jogos e 54% pretendem acompanhar as partidas em mais de uma tela.
Seja na televisão ou na tela do celular, as mulheres serão uma engrenagem central do espetáculo esportivo.
“As pessoas recorrem a um jornalista para obter dados e informações e ouvem um criador de conteúdo com quem mais se identifica para saber sobre outros assuntos relacionados, porque gostam da construção da história e de se sentir parte do que está acontecendo”, analisa Bianca Santos, do canal Fala Sem Gritar, que fará cobertura in loco na Copa.

Bianca Santos, do canal Fala Sem Gritar (Crédito: Reprodução)
Fernanda Gentil, à frente da CazéTV, lembra que 80% das marcas com que atuou no mundial do Catar, em 2022, não eram patrocinadores oficiais e, portanto, não podia mostrar o campo de jogo, camisas com nomes de jogadores, gramado ou sequer citar o termo Copa do Mundo. Ainda assim, os assuntos para além das quatro linhas fizeram sucesso. “As pessoas querem saber onde os torcedores se encontram, como os locais recebem o evento, entrevistas com quem gosta e até com quem não gosta da Copa”, relata.

Fernanda Gentil, jornalista e apresentadora na CazéTV (Crédito: Divulgação)
Na BandNews FM, a repórter e apresentadora Alinne Fanelli conta que mesclar informação e descontração funciona. “Na rádio, preciso fazer com que o ouvinte imagine o jogo e sinta a emoção, então preciso do maior número de detalhes possíveis. A partida é o produto e a informação vem em primeiro lugar, mas dá para acrescentar entretenimento e espontaneidade”.
Nos veículos tradicionais ou nas produções independentes, o desafio se repete: equilibrar agilidade e compromisso com a informação, sem deixar de olhar para os assuntos mais quentes que os algoritmos indicam.
“Temos que aproveitar oportunidades que surgem com rapidez, mas checar informações é a base para continuar entregando um bom jornalismo”, define Renata Silveira, locutora esportiva e apresentadora na Globo e SporTV, que vê as transformações atuais com bons olhos. “Estar atenta às mudanças e evoluir nas plataformas e linguagens é fantástico, porque mostra que não vamos fazer as coisas sempre do mesmo jeito.”

Renata Silveira, locutora esportiva e apresentadora na Globo e SporTV (Crédito: Globo/Estevam Avellar)
Outra dessas mudanças diz respeito a quem está no microfone. Há uma década, a cobertura esportiva, além de unidirecional, era predominantemente masculina. Hoje, há mais mulheres em funções que vão da produção aos comentários e à narração.
Bianca afirma que as marcas também perceberam que mulheres frequentam, consomem e gastam seu dinheiro com futebol, e que precisam se adaptar ao cenário. “E elas ganham com isso, porque, principalmente entre produtores independentes, a construção da comunidade já está feita”, observa.
Para Alinne, o avanço veio acompanhado de uma mudança de critério. “Antes, via muitos lugares buscando mulheres como se fosse para preencher uma cota. Hoje, o que está em jogo é a competência, mas ainda há muita resistência”, diz a jornalista.
Em geral, as mulheres são fontes em menos de 25% das reportagens no Brasil. Mas, quando o tema é esporte, a taxa cai para apenas 8% dos conteúdos de veículos tradicionais, o menor índice entre todos os temas pesquisados. Os dados são da edição 2025 do Global Media Monitoring Project, a mais antiga pesquisa sobre gênero na mídia jornalística mundial, da Associação Mundial para a Comunicação Cristã.
“Quanto mais pontos de vista houver para falar de esporte, mais rico fica esse universo. E ganha quem mais tem que ganhar, que é o público”, complementa Fernanda.
Este ano, as mulheres podem celebrar um novo marco. Renata Silveira será a primeira mulher a comandar uma narração da Copa do Mundo in loco. “Quem dera outras mulheres já tivessem conquistado isso, mas é uma evolução contínua e meu papel é inspirar novas gerações e fazer com que outras mulheres cheguem lá. Para mim, não é uma conquista pessoal, é de todas nós”, afirma.