Clara Ramos fala sobre creators e futuro do cinema
Executiva da +Galeria analisa influência da creator economy e efeitos da projeção internacional no audiovisual brasileiro

Clara Ramos, diretora geral da +Galeria (Crédito: Divulgação)
Clara Ramos é diretora geral da +Galeria, distribuidora e produtora brasileira de diversos formatos audiovisuais. O portfólio inclui filmes como “Um Pai em Apuros”, “Mãe Fora da Caixa”, “A Melhor Mãe do Mundo”, “Fazendo Meu Filme” e “A Menina que Matou os Pais”. Formada em jornalismo, a executiva sempre soube que queria trabalhar na área do audiovisual, mas além da formação técnica, também traçou uma carreira acadêmica, com doutorado em teoria documentária pela Universidade de São Paulo (USP).
Desde 2023 à frente da +Galeria, sua trajetória profissional de mais de 25 anos se concentrou principalmente na produção executiva. Chegou a ter a própria produtora, a Loma Filmes, responsável por obras como “Hebe – Um Brinde à Vida”, disponível no Globoplay.
Nesta entrevista a Women to Watch, Clara Ramos discute sobre a relação da creator economy com a indústria do audiovisual. Além disso, ela reflete sobre os impactos que as duas últimas campanhas do Brasil no Oscar, com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, tiveram no mercado nacional.
Meio & Mensagem – Como o mercado do audiovisual está se relacionando com a creator economy? Quais oportunidades podem surgir desta relação?
Clara Ramos – A gente está vendo, em muitos campos, a força que esses criadores têm. Acabamos de ter um super sucesso com “Backrooms: Um Não-Lugar”, que começou no universo do YouTube. Temos múltiplos criadores que criam e produzem de um jeito mais barato, rápido e, ao mesmo tempo, muito antenado. Isso traz sopro, frescor de originalidade e novidade que podem movimentar a indústria. Na +Galeria, tentamos investigar e explorar esses buraquinhos ainda inexplorados no mercado. Quando pensamos em longa-metragem, buscamos abarcar gêneros e formatos com grande potencial de comunicação com o público. Estamos a procura de projetos que tenham essa veia comercial, mas que possam reformular um pouco a ideia do comercial. Não como uma fórmula de sucesso, mas a partir do potencial de coisas ainda inexploradas.
Lá atrás, quando a +Galeria lançou “A Menina que Matou os Pais”, true crime que surfou numa tendência hoje super predominante, tivemos um exemplo disso. Este ano, temos o lançamento do romance erótico “Pecadora”, gênero em que estamos colocando o pé para marcar território e explorar uma novidade. Pensamos também em outros formatos para além da sala de cinema, mas que podem chegar lá depois. Procuramos estar atentos e pensar em como podemos provocar rupturas. Temos um mercado árido, difícil, e infelizmente não existe uma fórmula conhecida para ter resultado e ser bem-sucedido. Então, buscamos elementos e nos juntamos a talentos com inovação e inteligência.
Ao lado de criadores, trazemos expertise e estruturação do negócio e da produção, de como podemos dar suporte para essas ideias chegarem à melhor forma em termos de valor e desenho de produção, além de comercialização. Então, acho que são expertises que se somam, e por isso podem surgir parcerias muito potentes.
M&M – O cinema brasileiro está em alta, com nossos filmes no Oscar e atenção internacional. Esse holofote tem se refletido de alguma forma no mercado? Houve alguma mudança?
Clara – Acho que tem um movimento muito positivo. No pós-pandemia, tivemos um momento difícil para o mercado como um todo, não apenas para a produção nacional, e acho que agora estamos num momento de transição, em que fórmulas já não funcionam mais do mesmo jeito. Temos um novo público que queremos buscar e fidelizar, mas que tem mil opções, que pode ficar em casa sentado no sofá para assistir a produções incríveis que levamos para o cinema. Então, é um momento muito desafiador, mas acho importante esse farol que alguns projetos, quando têm muita repercussão e visibilidade, acabam representando. Eles funcionam como um foco de luz que mostra a qualidade do produto brasileiro, o grande repertório de diversidade que podemos ter e como podemos, sim, falar com o espectador brasileiro.
Ao mesmo tempo, o desafio é transformar essas experiências isoladas, muito bem-sucedidas e que furam a bolha, em um movimento mais amplo de mercado. Para além dos maiores filmes ou daqueles que vão ter maior sucesso internacional, precisamos criar um ciclo cada vez mais autossustentável, aproveitando o nosso mercado interno e fazendo as pessoas saírem de casa para assistir a filmes diferentes.
M&M – E como o mercado pode aproveitar esse momento?
Clara – Acho que a gente vive um momento desafiador, mas também muito interessante, em que chegamos a um estágio com criadores, diretores, roteiristas e talentos das mais diversas áreas muito capacitados e com diferentes histórias para contar. Por um lado, há uma questão estrutural do mercado como um todo, e aí entra também a discussão sobre como a política do audiovisual pode atuar da maneira mais eficiente no incentivo e na promoção de projetos que consigam alcançar o público e que as pessoas queiram ver. Política pública é um campo em que ainda há muita coisa para pensar, especialmente em relação ao apoio ao produtor independente, à visibilidade, à previsibilidade de linhas e critérios. Mas, para além disso, existe uma questão central, que é a curadoria de histórias e de talentos, para que a gente consiga buscar cada vez mais narrativas que as pessoas tenham vontade de ver e que tenham potência para furar essa bolha. Temos tentado, de maneira muito sistemática e incansável, experimentar coisas novas e repensar fórmulas que já existiram, entendendo como elas podem ser renovadas. No fim, acho que estamos num momento melhor do que já se esteve, e que as perspectivas são desafiadoras, mas positivas. Acredito nesse ciclo virtuoso de levar o público para ver histórias faladas em português e de estabelecer o cinema brasileiro como uma opção prioritária para nossas audiências.
M&M – A +Galeria conta com uma equipe liderada por mulheres. Como isso influencia no cotidiano e nos resultados da empresa?
Clara – Somos uma empresa muito feminina e temos buscado fortalecer cada vez mais as líderes mulheres, tanto nos projetos quanto no dia a dia. Além de mim, temos uma diretora de programação e uma equipe de produção e marketing que é majoritariamente feminina. Também valorizamos talentos femininos nas produções que investimos, produzimos e distribuímos. Um dos nossos últimos lançamentos do ano passado, por exemplo, foi “A Melhor Mãe do Mundo”, filme da Anna Muylaert. Depois, lançamos “Mãe Fora da Caixa”, com Manuh Fontes na direção. Recentemente, estreamos “Um Pai em Apuros”, com direção da Carol Durão, que agora está na Netflix. Nossa próxima estreia é “Pecadora”, de Dainara Toffoli, com uma roteirista mulher e todas as chefes de equipe também. Isso era muito central para a gente, porque é uma história contada a partir de uma perspectiva feminina, que explora o gênero do romance erótico por meio de um olhar novo em relação à média do que costumamos ver, e isso fez muita diferença no resultado. Buscamos abrir espaço para elas, especialmente nos projetos em que há personagens e protagonistas femininas conduzindo a história. As mulheres têm uma inteligência emocional, capacidade e sensibilidade que fazem muita diferença no contexto da produção audiovisual, tanto atrás quanto na frente das câmeras.