INPIRAÇÃO

Carolina Junqueira, da Globo: os riscos da era da exposição

Diretora de riscos e compliance fala sobre IA, reputação e dilemas éticos em tempos de economia da atenção

i 26 de maio de 2026 - 14h59

Carolina Junqueira, diretora de riscos e compliance da Globo (Crédito: Globo / Beatriz Damy)

Carolina Junqueira, diretora de riscos e compliance da Globo (Crédito: Globo / Beatriz Damy)

À frente da diretoria de riscos e compliance da Globo há seis anos, Carolina Junqueira acompanha de perto uma mudança silenciosa e estratégica nas empresas de mídia: para além de um tema jurídico ou de reputação, a ética se tornou parte importante da sobrevivência institucional em tempos de exposição, instabilidade, polarização, inteligência artificial e viralização permanente.

A discussão ganha ainda mais relevância com o lançamento do novo Relatório de Sustentabilidade 2025 da Globo, quinta edição do documento que consolida os avanços da agenda ESG da companhia em momento simbólico para a empresa: os 100 anos do Grupo Globo, 60 da TV Globo e 10 do Globoplay.

O material, que também marca a metade da jornada do cumprimento das metas de ESG previstas para 2030, reforça seis compromissos de sustentabilidade como eixos transversais ao negócio da empresa: impacto social do conteúdo; diversidade e inclusão; desenvolvimento e bem-estar dos colaboradores; biodiversidade e consciência ambiental; governança transparente e responsável; e educação como vetor de transformação do país.

Na frente de governança, um dos destaques é a consolidação do Programa de Compliance da Globo, que completou dez anos em 2025 como parte de uma “jornada de aprendizado, evolução, amadurecimento e compromisso”, segundo o próprio relatório. Liderado por Carolina, que antes teve longa passagem pela Ambev na mesma área, a conquista é consequência de quem acompanhou de perto a transformação da agenda de governança do grupo de mídia em meio à aceleração digital e ao avanço da IA.

Na conversa com Women to Watch, ela fala sobre os dilemas éticos da economia da atenção, o desafio de equilibrar transparência e privacidade, a pressão da cultura “always on” e a necessidade de construir um compliance menos associado ao punitivismo e mais conectado à cultura.

Meio & Mensagem — Quero começar do início da sua trajetória na Globo. Você assumiu a diretoria de compliance há seis anos, em 2020, no momento de grande estruturação na agenda ESG da empresa. Qual era o seu desafio naquele momento?

Carolina Junqueira — Foi, de fato, uma jornada de evolução. Vale dizer que, quando entrei, o programa já existia, e é importante reforçar que a empresa sempre teve a ética como pilar central. Muito antes da formalização do código de ética, que regula as questões de compliance da empresa, já havia princípios editoriais muito fortes nesse sentido. A partir de 2020, o foco foi estruturar e fortalecer esse trabalho com um framework mais robusto para disseminar controles, gestão de riscos e compliance no dia a dia da companhia. Foi um processo de amadurecimento contínuo.

M&M — Vivemos hoje um cenário de alta polarização e economia da atenção, especialmente em empresas de mídia. Qual você considera o principal desafio ético nesse contexto?

Carolina — Nosso desafio é equilibrar transparência e confidencialidade. É um dilema. Em uma empresa como a Globo, tudo ganha grande proporção e há interesse público natural. Mas os assuntos de compliance precisam ser tratados no âmbito da privacidade, porque estamos falando de pessoas. Esse equilíbrio se torna ainda mais sensível em um ambiente de instabilidade, polarização e julgamento constante nas redes sociais. O desafio é garantir que o compliance cumpra seu papel de implementar normas éticas sem se tornar um instrumento de polarização.

M&M — E como vocês fazem isso, na prática?

Carolina — Temos uma postura consistente de não comentar casos específicos, mas atuamos de forma institucional para promover a agenda de integridade. Sabemos do papel e da responsabilidade que a Globo tem como líder na indústria. Por isso, trabalhamos com parceiros, produtoras, afiliadas e marcas, compartilhando nossas práticas, políticas e estruturas. Quando lançamos um novo produto como o Big Brother Brasil, por exemplo, temos um grande trabalho de falar qual é a nossa estrutura, como lidamos com determinadas situações, como avaliamos os riscos e quais são as nossas políticas. Então, temos uma atuação institucional para além da interna. Também damos transparência aos processos e incentivamos boas práticas no mercado. É um trabalho contínuo, que, ao longo do tempo, constrói entendimento e confiança do posicionamento da empresa para a indústria, para a companhia e para o público externo. Isso reverbera para fora.

M&M — Para você, quais são os riscos mais difíceis de prever?

Carolina — Temos uma estrutura que olha para os riscos de maneira muito ampla e transversal. Monitoramos os riscos operacionais da empresa, claro, mas também os estratégicos. Acho que vivemos um momento de muita transformação, especialmente digital. E isso não apenas no mercado de mídia, mas na própria estrutura de trabalho. Esse é, talvez, o maior risco: como todas essas mudanças impactam o modelo de negócios e o futuro do trabalho.

M&M — E como vocês equilibram liberdade criativa e responsabilidade ética dentro de uma indústria criativa?

Carolina — Esse é um assunto de que falo muito. Trabalhamos com pessoas que estão na vanguarda dos debates sociais, e isso naturalmente chega ao compliance. Por isso, acabamos fazendo um diagnóstico de quais questões sociais estão surgindo. Mas, para essa atuação, construímos uma equipe plural, com diferentes repertórios e linguagens, capaz de dialogar com esse universo até do ponto de vista estético. Nosso time não é o estereótipo de compliance tradicional. Temos o objetivo de fugir de uma visão moralista, do paradigma de ‘vigiar e punir’, muito associado à área, e de construir conexão, compreensão e cultura. Essa abordagem foi essencial para estabelecer limites de forma efetiva, considerando o contexto real das pessoas e da operação. Foi, sem dúvida, uma grande inovação.

M&M — No contexto de exposição constante, o “always on”, surgem novos dilemas para colaboradores e lideranças?

Carolina — Já temos um público muito exposto, e um dos dilemas é a separação entre posicionamentos individuais e institucionais. Trabalhamos muito com comunicação interna, treinamentos e clareza de regras para apoiar esse entendimento. É um trabalho contínuo de muito diálogo e presença, para que isso fique claro.

M&M — E como vocês têm atuado frente à inteligência artificial?

Carolina — Temos uma governança bem estruturada e transversal, e participamos ativamente das discussões regulatórias. Um exemplo foi a inclusão de diretrizes sobre inteligência artificial nos princípios editoriais, quando incluímos um capítulo específico para. Buscamos equilibrar a adoção de IA de maneira segura e transparente, mas abraçando a tecnologia, porque entendemos que é um facilitador do nosso negócio.

M&M – Quais são as prioridades da área de riscos e compliance da Globo no momento?

Carolina — Atualizamos nossas metas para incluir inteligência artificial e seguimos ampliando nosso papel institucional. Como empresa líder, entendemos que nossas ações reverberam na sociedade. Nosso objetivo é continuar liderando discussões sobre governança, ética e fortalecimento institucional.

M&M –– Para você, o que faz um programa de compliance ser eficaz?

Carolina — Existem diversos guias sobre isso. Há fundamentos importantes, como governança, liderança e treinamento. Mas eu destacaria o papel das equipes de compliance. Elas devem ter um olhar menos formalista e mais abrangente para as questões que estamos enfrentando. Hoje, temos cenários mais complexos em todos os aspectos, e precisamos ter equipes que consigam compreender esse contexto e trazer isso para o ambiente de compliance. Esse olhar mais abrangente é o que diferencia um programa conectado aos desafios do nosso tempo.

M&M – Olhando para sua trajetória, onde você está mirando agora?

Carolina — Estou muito focada na colaboração externa. O profissional de compliance não pode atuar isolado e preso aos desafios e à operação do dia a dia. Então, é fundamental trocar com o mercado e com outras lideranças para promover essa colaboração. Temos um papel fundamental na estabilidade institucional do país e vivemos muitos desafios. Garantir isso no setor privado é muito importante para nós.

Também estamos atentos às transformações éticas trazidas pela inteligência artificial. Inclusive, estamos desenvolvendo um programa interno de estudos em filosofia e ética, porque os desafios ficaram mais complexos e exigem mais profundidade do que há 5 anos, quando entrei aqui. É um momento muito desafiador, mas igualmente interessante para quem está trabalhando com ética e compliance.