CULTURA

Julho das Pretas: livros para celebrar as mulheres negras

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, lideranças femininas indicam leituras

i 23 de julho de 2026 - 11h54

Maria Firmina dos Reis, Ana Carolina de Jesus e Lélia Gonzalez são algumas das mulheres negras que marcam as páginas da história da literatura no Brasil. Precursoras, desbravaram a sociedade e a cultura para construir legados que inspiram até hoje. Esta herança cultural se estende na obra de outras mulheres da contemporaneidade, como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Tatiana Nascimento e Jarid Arraes.

Neste 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992 em Santo Domingo, na República Dominicana, onde ocorreu o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, com mais de 300 representantes de 32 países. A data serve para dar visibilidade às mulheres negras, além de reforçar a luta contra o racismo e machismo.

Para celebrar a data, pedimos a algumas lideranças femininas negras a indicação de livros que tratam destes temas ou que foram escritos por mulheres negras.

“Água de Maré”, de Tatiana Nascimento

Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music, PUNKSSA & CASABLACK:
“Indico ‘Água de Maré’, de Tatiana Nascimento, uma obra que desafia a forma como nos relacionamos com a linguagem e nos convida a pensar identidade, pertencimento e liberdade por perspectivas pouco convencionais.”

Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music, PUNKSSA & CASABLACK (Crédito: Divulgação)

Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music, PUNKSSA & CASABLACK (Crédito: Divulgação)

“Ancestrais do Futuro: Qual a Mudança que seu Movimento Alcança?”, de Grazi Mendes

Ana Clara Silva, head de pessoas e cultura da Dengo:
“O que mais me marcou neste livro é a forma como ele conecta a ancestralidade com o presente, mostrando que nossa história e a de quem veio antes de nós influenciam diretamente a maneira como vivemos e enfrentamos os desafios da sociedade hoje. A ideia de que a vida acontece em espiral nos faz entender que o passado não fica para trás: ele reverbera nas nossas escolhas, relações e no futuro que construímos diariamente. É uma leitura profunda, que convida à reflexão sobre propósito, identidade e transformação.”

Ana Clara Silva, head de pessoas e cultura da Dengo (Crédito: Leo Martins)

Ana Clara Silva, head de pessoas e cultura da Dengo (Crédito: Leo Martins)

“Apolinária”, de Bianca Santana

Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da FARM Rio:
“‘Apolinária’ é um livro emocionante em que Bianca Santana entrelaça a própria história à de sua avó, explorando memórias, afetos e as experiências compartilhadas por mulheres negras ao longo de diferentes gerações. É uma narrativa potente, que toca profundamente ao falar sobre identidade, ancestralidade e resistência.”

“Corpo Desfeito”, de Jarid Arraes

Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music, PUNKSSA & CASABLACK:
“‘Corpo Desfeito’, de Jarid Arraes, é um romance intenso que aborda as marcas da violência e dos traumas familiares sem abrir mão da sensibilidade. São três leituras muito diferentes entre si (‘Água de Maré’ e ‘Olhos d’Água’), mas que ampliam o repertório, provocam reflexões importantes e mostram a força da literatura produzida por mulheres negras hoje.”

“Irmãs do Inhame – mulheres negras e autorrecuperação”, de bell hooks

Gizele Costa, head de Coca-Cola na agência Samba, da Holding Clube:

“Outra autora que amo é a Bell Hooks, e meu livro favorito dela é o ‘Irmãs do Inhame – mulheres negras e autorrecuperação’. Nele, a autora apresenta um convite à autorrecuperação das mulheres negras, mostrando como o racismo e o sexismo atravessam nossa saúde emocional e como o fortalecimento coletivo pode ser um caminho de cura. Ao longo de 13 capítulos, bell hooks aborda temas como autoestima, afeto, espiritualidade, amizade, família e pertencimento, sempre a partir da experiência de mulheres negras. Foi uma leitura em que me encontrei nas mulheres da minha família, nas minhas amigas e em vivências que eu sentia, mas não conseguia colocar em palavras. Mais do que um diagnóstico sobre as dores produzidas por uma sociedade racista, este é um livro sobre reconstrução. Uma literatura de cura, acolhimento e fortalecimento. Na minha opinião, é uma leitura indispensável para toda mulher negra.”

Gizele Costa, head de coca-cola na agência Samba, da Holding Clube (Crédito: Laura Monticelli)

Gizele Costa, head de coca-cola na agência Samba, da Holding Clube (Crédito: Laura Monticelli)

“Meridiana”, de Eliana Alves Cruz

Gizele Costa, head de coca-cola na agência Samba, da Holding Clube:
“Eu tenho alguns favoritos, sendo um que amei foi ‘Meridiana’, da Eliana Alves Cruz. Esse livro dá uma dimensão realista ao progresso de uma família negra. Ele mostra quais são as nossas especificidades, nossos sentimentos e nossas percepções ao chegar a uma posição social que, historicamente, não foi feita para nós. Também revela como essa experiência toca cada um de maneira diferente e como, ainda assim, esse continua sendo um caminho desejado, mas profundamente árduo. Porque ter mobilidade social não significa, naturalmente, pertencer. E essa confusão interna é muito difícil de lidar. O livro é perfeito!”

Débora Moura, head de atração e D&I no Grupo Dreamers:
“Também indico o ‘Meridiana’, de Eliana Alves Cruz. Ao narrar a jornada de uma família negra, Eliana fala de ancestralidade, ascensão social e as dores do racismo no nosso cotidiano.”

Débora Moura, head de atração e D&I do Grupo Dreamers (Crédito: Divulgação)

Débora Moura, head de atração e D&I do Grupo Dreamers (Crédito: Divulgação)

“Nada é Definitivo”, de Luanda Vieira

Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da FARM Rio:
“‘Nada é Definitivo’ traz reflexões sensíveis sobre vida, carreira, coragem e a importância de abraçar as mudanças, mostrando que recomeçar também faz parte da construção de uma trajetória. Foi uma leitura que me fez pensar muito sobre escolhas e transformações”.

Inaiara Florêncio, sócia e co-CEO da Gana:
“Minha indicação é ‘Nada é Definitivo’, da Luanda Vieira. É uma leitura recente, leve e muito próxima, em que me reconheci pela forma sensível e corajosa com que ela fala sobre pertencimento, família, vulnerabilidade, carreira e identidade. Me atravessou especialmente esse sentimento de ocupar um não lugar e também a pressão, tão comum para nós, mulheres negras, de ter que ser sempre a melhor para merecer estar. Ao contar sua história, Luanda mostra que a gente também vai se fazendo no caminho: criando referências mais próximas, errando, testando, recalculando a rota e transformando o que herdamos da nossa família em forma de viver, de enxergar o mundo e liderar. É um livro que celebra a mulher negra em sua humanidade inteira, com força, dúvidas, afetos, ambições e contradições.”

Inaiara Florêncio, sócia e co-CEO da Gana (Crédito: Divulgação)

Inaiara Florêncio, sócia e co-CEO da Gana (Crédito: Divulgação)

“Olhos D’Água”, de Conceição Evaristo

Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da FARM Rio:
“Não poderia deixar de citar Conceição Evaristo, minha escritora favorita. Todas as suas obras me marcaram, mas, se tivesse que indicar apenas uma, seria ‘Olhos d’Água’. Com uma escrita delicada e, ao mesmo tempo, extremamente potente, a autora dá voz às vivências da população negra brasileira por meio de contos que emocionam e provocam reflexão.”

Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da FARM Rio (Crédito: Divulgação)

Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da FARM Rio (Crédito: Divulgação)

Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music, PUNKSSA & CASABLACK:
“Se eu pudesse indicar três livros para quem quer conhecer um pouco da potência da literatura escrita por mulheres negras no Brasil, começaria por Olhos d’Água, de Conceição Evaristo. É um livro com uma escrita ao mesmo tempo delicada e contundente, que nos aproxima de histórias marcadas por memória, afeto e resistência, e ajuda a entender por que Conceição se tornou uma das vozes mais importantes da literatura brasileira contemporânea.”

“Somos Sol Vivo”, de Aza Njeri

Luana Génot, presidente e diretora executiva do ID_BR:
“’Somos Sol Vivo’ me marcou porque a Aza Njeri nos convida a questionar referências que, muitas vezes, aprendemos a enxergar como universais. Ao recorrer às filosofias africanas, ela mostra que existem outras formas de compreender a humanidade, construir conhecimento e fortalecer a vida em comunidade. O que mais me chamou a atenção foi a maneira como ela trata a ancestralidade, não como um olhar voltado apenas para o passado, mas como um legado vivo, que orienta a forma como pensamos, nos relacionamos e construímos o futuro. Em um contexto tão marcado pelo individualismo, o conceito de Solaridade reforça a importância da coletividade e da responsabilidade que temos uns com os outros. É um livro que desloca certezas, amplia o olhar e nos lembra que reconhecer os saberes produzidos pela população negra, especialmente pelas mulheres negras, também é uma forma de construir novos caminhos.”

Luana Génot, presidente e diretora executiva do ID_BR (Crédito: Divulgação)

Luana Génot, presidente e diretora executiva do ID_BR (Crédito: Divulgação)

“Tornar-se Negro”, da Neusa Santos Souza

Gizele Costa, head de Coca-Cola na agência Samba, da Holding Clube:

“Quero falar de ‘Tornar-se Negro’, da Neusa Santos Souza. Na minha opinião, este é um livro obrigatório para quem deseja compreender a negritude. A partir da psicanálise, Neusa Santos Souza mostra que tornar-se negro vai muito além da cor da pele: é um processo de reconhecer como o racismo molda nossa subjetividade e de fazer escolhas que rompem com esse projeto de apagamento. É uma leitura profunda e, muitas vezes, dolorosa. A autora revela como pensamentos racistas foram violentamente incorporados por nós e como esse processo afeta a forma como nos enxergamos, ocupamos espaços e construímos nossa identidade. Mais do que explicar o racismo, este livro oferece uma perspectiva de consciência e libertação. Ao compreender nossa história e os mecanismos que nos atravessam, podemos assumir nossa negritude de forma mais íntegra, fortalecida e consciente.”

“Tudo sobre o amor”, de bell hooks

Karina Rodrigues D’Ornelas, gerente de sustentabilidade e relações governamentais da Riachuelo:
“Escolhi ‘Tudo Sobre o Amor’, de bell hooks, porque ela mostra, com muita concretude, que agir com ética é, sobretudo, colocar nossos valores em ação diariamente. Embora ter uma carreira e ganhar dinheiro continuem sendo importantes, a valorização e o cuidado com a vida e o bem-estar dos seres humanos precisam vir antes, se desejamos laços duradouros em qualquer dimensão — da porta para dentro ou da porta para fora. Ela também nos mostra que o medo nos ensina a tratar a diferença como ameaça e a buscar segurança apenas na semelhança, e isso limita o nosso crescimento, as nossas relações, e implica em quem pode ou não sonhar. No fim, é sobre colocar as pessoas, o meio ambiente e o bem-estar no centro, e dar voz aos nossos valores. Para quem quiser se aprofundar na perspectiva negra e feminista, também deixo três indicações: Sueli Carneiro, Conceição Evaristo e Grada Kilomba.”

Karina Rodrigues D'Ornelas, Gerente de Sustentabilidade e Relações Governamentais da Riachuelo (Crédito: Divulgação)

Karina Rodrigues D’Ornelas, Gerente de Sustentabilidade e Relações Governamentais da Riachuelo (Crédito: Divulgação)

Débora Moura, head de atração e D&I no Grupo Dreamers:
“‘Tudo sobre o amor’, de bell hooks, é lindo de ler principalmente por ser uma mulher negra falando sobre o amor, tão misterioso para nós, negras. Aprendi com bell hooks a olhar para este sentimento por outra perspectiva, entendendo a imensidão profunda que é se permitir amar e ser amada.”

“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves

Luana Ozemela, sócia e Chief Sustainability Officer no iFood:
“Se pudesse indicar uma leitura que celebra a ancestralidade e a força da mulher negra, escolheria ‘Um Defeito de Cor’, de Ana Maria Gonçalves. É um romance monumental que resgata a história da diáspora africana a partir da perspectiva de uma mulher negra, revelando sua coragem, inteligência, capacidade de liderança e resistência. Mais do que um livro sobre o passado, é uma obra que nos ajuda a compreender como tantas mulheres negras transformaram adversidade em legado e por que suas histórias continuam essenciais para pensar o Brasil e construir um futuro mais justo.”

Luana Ozemela, sócia e chief sustainability officer no iFood (Crédito: Divulgação)

Luana Ozemela, sócia e chief sustainability officer no iFood (Crédito: Divulgação)