Julho das Pretas: livros para celebrar as mulheres negras
Para comemorar o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, lideranças indicam leituras
Maria Firmina dos Reis, Ana Carolina de Jesus e Lélia Gonzalez são algumas das mulheres negras que marcam as páginas da história da literatura no Brasil. Precursoras, desbravaram a sociedade e a cultura para construir legados que inspiram até hoje. Esta herança cultural se estende na obra de outras mulheres da contemporaneidade, como Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Tatiana Nascimento e Jarid Arraes.
Neste 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, instituído em 1992 em Santo Domingo, na República Dominicana, onde ocorreu o 1º Encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, com mais de 300 representantes de 32 países. A data serve para dar visibilidade às mulheres negras, além de reforçar a luta contra o racismo e machismo.
Para celebrar a data, pedimos a algumas lideranças femininas negras a indicação de livros que tratam destes temas ou que foram escritos por mulheres negras.
Gilvana Viana, co-founder da Mugshot Music
“Água de Maré”, de Tatiana Nascimento (Pallas)

(Crédito: Divulgação)
Uma obra que desafia a forma como nos relacionamos com a linguagem e nos convida a pensar identidade, pertencimento e liberdade por perspectivas pouco convencionais.
“Corpo Desfeito”, de Jarid Arraes (Alfaguara)

(Crédito: divulgação)
Um romance intenso que aborda as marcas da violência e dos traumas familiares sem abrir mão da sensibilidade. São três leituras muito diferentes entre si (“Água de Maré” e “Olhos d’Água”), mas que ampliam o repertório, provocam reflexões importantes e mostram a força da literatura produzida por mulheres negras hoje.
Ana Clara Silva, head de pessoas e cultura da Dengo
“Ancestrais do Futuro”, de Grazi Mendes (Benvirá)

(Crédito: Divulgação)
O que mais me marcou neste livro é a forma como ele conecta a ancestralidade com o presente, mostrando que nossa história e a de quem veio antes de nós influenciam diretamente a maneira como vivemos e enfrentamos os desafios da sociedade hoje. A ideia de que a vida acontece em espiral nos faz entender que o passado não fica para trás: ele reverbera nas nossas escolhas, relações e no futuro que construímos diariamente. É uma leitura profunda, que convida à reflexão sobre propósito, identidade e transformação.
Andrezza Cruz, head de sustentabilidade da Farm Rio
“Apolinária”, de Bianca Santana (Fórforo Editora)

(Crédito: Divulgação)
Um livro emocionante em que Bianca Santana entrelaça a própria história à de sua avó, explorando memórias, afetos e as experiências compartilhadas por mulheres negras ao longo de diferentes gerações. É uma narrativa potente, que toca profundamente ao falar sobre identidade, ancestralidade e resistência.
“Nada é Definitivo”, de Luanda Vieira (Editora Fontanar)

(Crédito: Divulgação)
“Nada é Definitivo” traz reflexões sensíveis sobre vida, carreira, coragem e a importância de abraçar as mudanças, mostrando que recomeçar também faz parte da construção de uma trajetória. Foi uma leitura que me fez pensar muito sobre escolhas e transformações.
“Olhos D’Água”, de Conceição Evaristo (Pallas)

(Crédito: Divulgação)
Não poderia deixar de citar Conceição Evaristo, minha escritora favorita. Todas as suas obras me marcaram, mas, se tivesse que indicar apenas uma, seria “Olhos d’Água”. Com uma escrita delicada e, ao mesmo tempo, extremamente potente, a autora dá voz às vivências da população negra brasileira por meio de contos que emocionam e provocam reflexão.
Inaiara Florêncio, sócia e co-CEO da Gana
Minha indicação é “Nada é Definitivo”, de Luanda Vieira. É uma leitura recente, leve e muito próxima, em que me reconheci pela forma sensível e corajosa com que ela fala sobre pertencimento, família, vulnerabilidade, carreira e identidade. Me atravessou especialmente esse sentimento de ocupar um não lugar e também a pressão, tão comum para nós, mulheres negras, de ter que ser sempre a melhor para merecer estar. Ao contar sua história, Luanda mostra que a gente também vai se fazendo no caminho: criando referências mais próximas, errando, testando, recalculando a rota e transformando o que herdamos da nossa família em forma de viver, de enxergar o mundo e liderar. É um livro que celebra a mulher negra em sua humanidade inteira, com força, dúvidas, afetos, ambições e contradições.
Gizele Costa, head de Coca-Cola na agência Samba, da Holding Clube
“Meridiana”, de Eliana Alves Cruz (Companhia das Letras)

(Crédito: Divulgação)
Tenho alguns favoritos, sendo um que amei foi “Meridiana”, da Eliana Alves Cruz. Esse livro dá uma dimensão realista ao progresso de uma família negra. Ele mostra quais são as nossas especificidades, nossos sentimentos e nossas percepções ao chegar a uma posição social que, historicamente, não foi feita para nós. Também revela como essa experiência toca cada um de maneira diferente e como, ainda assim, esse continua sendo um caminho desejado, mas profundamente árduo. Porque ter mobilidade social não significa, naturalmente, pertencer. E essa confusão interna é muito difícil de lidar. O livro é perfeito.
“Tornar-se Negro”, da Neusa Santos Souza (Zahar)

(Crédito: Divulgação)
Na minha opinião, este é um livro obrigatório para quem deseja compreender a negritude. A partir da psicanálise, Neusa Santos Souza mostra que tornar-se negro vai muito além da cor da pele: é um processo de reconhecer como o racismo molda nossa subjetividade e de fazer escolhas que rompem com esse projeto de apagamento. É uma leitura profunda e, muitas vezes, dolorosa. A autora revela como pensamentos racistas foram violentamente incorporados por nós e como esse processo afeta a forma como nos enxergamos, ocupamos espaços e construímos nossa identidade. Mais do que explicar o racismo, este livro oferece uma perspectiva de consciência e libertação. Ao compreender nossa história e os mecanismos que nos atravessam, podemos assumir nossa negritude de forma mais íntegra, fortalecida e consciente.
“Irmãs do Inhame: Mulheres negras e autorrecuperação”, de bell hooks (WMF Martins Fontes)

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Outra autora que amo é a bell hooks, e meu livro favorito dela é o “Irmãs do Inhame – Mulheres negras e autorrecuperação”. Nele, a autora apresenta um convite à autorrecuperação das mulheres negras, mostrando como o racismo e o sexismo atravessam nossa saúde emocional e como o fortalecimento coletivo pode ser um caminho de cura. Ao longo de 13 capítulos, bell hooks aborda temas como autoestima, afeto, espiritualidade, amizade, família e pertencimento, sempre a partir da experiência de mulheres negras. Foi uma leitura em que me encontrei nas mulheres da minha família, nas minhas amigas e em vivências que eu sentia, mas não conseguia colocar em palavras. Mais do que um diagnóstico sobre as dores produzidas por uma sociedade racista, este é um livro sobre reconstrução. Uma literatura de cura, acolhimento e fortalecimento. Na minha opinião, é uma leitura indispensável para toda mulher negra.
Luana Génot, presidente e diretora executiva do ID_BR
“Somos Sol Vivo”, de Aza Njeri (HarperCollins)

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“Somos Sol Vivo” me marcou porque a Aza Njeri nos convida a questionar referências que, muitas vezes, aprendemos a enxergar como universais. Ao recorrer às filosofias africanas, ela mostra que existem outras formas de compreender a humanidade, construir conhecimento e fortalecer a vida em comunidade. O que mais me chamou a atenção foi a maneira como ela trata a ancestralidade, não como um olhar voltado apenas para o passado, mas como um legado vivo, que orienta a forma como pensamos, nos relacionamos e construímos o futuro. Em um contexto tão marcado pelo individualismo, o conceito de Solaridade reforça a importância da coletividade e da responsabilidade que temos uns com os outros. É um livro que desloca certezas, amplia o olhar e nos lembra que reconhecer os saberes produzidos pela população negra, especialmente pelas mulheres negras, também é uma forma de construir novos caminhos.
Karina Rodrigues D’Ornelas, gerente de sustentabilidade e relações governamentais da Riachuelo
“Tudo sobre o amor”, de bell hooks (Editora Elefante)

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Ela mostra, com muita concretude, que agir com ética é, sobretudo, colocar nossos valores em ação diariamente. Embora ter uma carreira e ganhar dinheiro continuem sendo importantes, a valorização e o cuidado com a vida e o bem-estar dos seres humanos precisam vir antes, se desejamos laços duradouros em qualquer dimensão — da porta para dentro ou da porta para fora. Ela também nos mostra que o medo nos ensina a tratar a diferença como ameaça e a buscar segurança apenas na semelhança, e isso limita o nosso crescimento, as nossas relações, e implica em quem pode ou não sonhar. No fim, é sobre colocar as pessoas, o meio ambiente e o bem-estar no centro, e dar voz aos nossos valores. Para quem quiser se aprofundar na perspectiva negra e feminista, também deixo três indicações: Sueli Carneiro, Conceição Evaristo e Grada Kilomba.
Débora Moura, head de atração e D&I no Grupo Dreamers
“Tudo sobre o amor”, de bell hooks, é lindo de ler principalmente por ser uma mulher negra falando sobre o amor, tão misterioso para nós, negras. Aprendi com bell hooks a olhar para este sentimento por outra perspectiva, entendendo a imensidão profunda que é se permitir amar e ser amada.
Também indico o “Meridiana”, de Eliana Alves Cruz. Ao narrar a jornada de uma família negra, ela fala de ancestralidade, ascensão social e as dores do racismo no nosso cotidiano.
Luana Ozemela, sócia e Chief Sustainability Officer no iFood
“Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves (Editora Record)

(Crédito: Divulgação)
Se pudesse indicar uma leitura que celebra a ancestralidade e a força da mulher negra, escolheria “Um Defeito de Cor”, de Ana Maria Gonçalves. É um romance monumental que resgata a história da diáspora africana a partir da perspectiva de uma mulher negra, revelando sua coragem, inteligência, capacidade de liderança e resistência. Mais do que um livro sobre o passado, é uma obra que nos ajuda a compreender como tantas mulheres negras transformaram adversidade em legado e por que suas histórias continuam essenciais para pensar o Brasil e construir um futuro mais justo.