Marianna Souza: “Equidade precisa sair do discurso”
Presidente da Apro detalha projetos da entidade para mulheres e destaca desafios da IA e da reforma tributária

Marianna Souza, presidente da Apro (Crédito: Divulgação)
Marianna Souza, hoje, é presidente da Apro, Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais, entidade sem fins lucrativos que representa os interesses dos produtores de obras audiovisuais, publicitárias e de conteúdo. Formada em relações internacionais, a executiva começou sua trajetória na Apex Brasil, Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, na área ligada a projetos da economia criativa, incluindo arte, cinema e mercado editorial.
Depois, passou pela FilmBrazil, projeto da Apro em parceria com a Apex, que tem como missão posicionar o Brasil como polo de criação de peças audiovisuais publicitárias no mundo. Em 2019, foi chamada para presidir a associação, cargo que ocupa desde então. Além de tudo, ela é embaixadora do movimento FreeTheBid no Brasil, que busca ampliar o espaço de diretoras de cena no mercado publicitário.
Nesta entrevista, Marianna Souza revela os principais focos e projetos recentes da Apro relacionados à inclusão feminina, além de refletir sobre os desafios que a inteligência artificial e a nova reforma tributária trazem ao mercado.
Esta matéria faz parte de um especial de entrevistas com mulheres à frente de entidades e associações do setor da comunicação, publicidade e marketing, e inclui Apro, Apro+Som, Fenapro, Abap, Ampro, ABA, Cenp, IAB Brasil e Sinapro-SP.
Meio & Mensagem – Como você chegou à presidência da Apro?
Marianna Souza – Costumo brincar que minha liderança começou dentro de casa, observando as mulheres da minha família. Tive a sorte de nascer em um ambiente com exemplos fortes de liderança feminina. Minha avó, mãe de oito, viúva duas vezes, criou os filhos praticamente sozinha no interior do Maranhão. Minha mãe, mãe de três meninas, viveu uma época em que a maioria das mulheres largava a carreira pela família, mas sempre fez questão de manter a autonomia profissional. Cresci com esse exemplo em casa.
Sou de Brasília, formada em relações internacionais, área que escolhi por ter crescido próxima ao Itamaraty, já que minha mãe trabalhou a vida toda com diplomatas. Mas os caminhos me levaram ao audiovisual. Comecei na Apex, onde atuei com economia criativa, e foi ali que me apaixonei pelo audiovisual publicitário. Depois, fui convidada para o Projeto FilmBrazil, onde entrei como assistente e cresci até a gerência executiva. Dali a alguns anos, recebi o convite do conselho da Apro. Historicamente, a liderança da associação sempre esteve ligada a pessoas de alguma produtora, sem caráter executivo. A associação passou por uma reforma para adotar esse novo modelo, com uma presidente contratada para responder diretamente ao conselho. É uma entidade de 53 anos que busca mais fôlego e profissionalismo em suas iniciativas.
Na época do convite, cheguei a dizer: “Gente, mas eu nunca pisei em um set de filmagem”. Mas eles precisavam de alguém com olhar voltado a planejamento e gestão, capaz de trazer organização setorial para pensar o setor a médio e longo prazo. Resolvemos muitos problemas do dia a dia, claro, mas o foco está sempre em como alavancar e manter esse setor relevante diante das transformações atuais.
M&M – Qual a missão da entidade hoje?
Marianna – A nossa principal missão é defender os interesses do mercado audiovisual publicitário e a bandeira do craft e do valor de produção das campanhas. Mas também reconhecemos nossa responsabilidade no que diz respeito à capacitação e à articulação com outros setores do mercado, como ao revelar novos talentos, por exemplo. Por isso, mantemos uma parceria com o Instituto Criar, por meio da qual trazemos jovens de periferia para transformar suas trajetórias de vida dentro do universo audiovisual.
M&M – Quais os principais desafios da entidade atualmente?
Marianna – O primeiro grande desafio é a questão da inteligência artificial. Precisamos entender como navegar sobre seus diversos aspectos, já que ainda não temos uma regulação sobre IA no Brasil, nem previsão, e trata-se de uma tecnologia que avança a passos largos. Como conseguimos trazer segurança jurídica para as nossas produtoras, além de um lugar de responsabilidade e de ética
Também estamos acompanhando as mudanças da reforma tributária. Queremos ajudar as produtoras a equilibrar essa balança em um momento em que os custos de produção estão sendo reduzidos e, ao mesmo tempo, enfrentamos uma reforma que, eventualmente, trará um custo extra. Há ainda a questão da produção in-house das agências. Queremos entender como garantir um ambiente de transparência e ética nos processos concorrenciais. Com a produção in-house, os projetos de pequeno e médio porte que as produtoras usavam para formar novos talentos deixaram de existir e estão sendo produzidos pelas próprias agências. Diante disso, enxergamos um problema de longo prazo relacionado à formação de novos profissionais na direção.
M&M – Na sua opinião, qual o diferencial que as mulheres trazem quando estão à frente de entidades e associações do mercado? E qual o diferencial que você traz para a Apro?
Marianna – Acredito que conseguimos ter essa escuta afetiva mais aguçada, uma empatia maior pelo problema do outro. Pelo fato de eu ser hoje uma presidente totalmente dedicada à Apro, sem vínculo com nenhuma outra atividade ou empresa, as produtoras e nossos associados se sentem muito confortáveis em me procurar para dividir questões bastante particulares da companhia, para trocar ideias ou pedir conselhos. Sinto que essa proximidade com nossos associados antes era um pouco mais distante. Primeiro, pelo fato de a liderança da entidade sempre ter sido alguém ligado a alguma produtora e, segundo, porque nas últimas duas gestões tivemos uma figura masculina à frente. Trago também, da minha bagagem em Brasília, o entendimento de como funciona a máquina pública, da negociação e da diplomacia. Acredito que conseguimos avançar muito na articulação com outros stakeholders do mercado.
Assinamos recentemente uma cartilha de boas práticas em concorrências audiovisuais com a Abap (Espaço de Articulação Coletiva do Ecossistema Publicitário). Além disso, meus antecessores da Apro eram pessoas ligadas a uma produtora, o que também implicava uma falta de imparcialidade para tratar de algumas questões, já que eles também eram empresários. Por isso, acredito que tenho esse papel de trazer maior imparcialidade à entidade atualmente.
M&M – Qual a responsabilidade das associações e entidades de pautarem a diversidade e inclusão no mercado?
Marianna – Infelizmente, retrocedemos nesta questão. Lembro quando trouxemos o movimento Free The Bid para o Brasil, criado pela diretora israelense Alma Har’el. Naquele período, já se falava que a população brasileira é majoritariamente feminina e que o poder de compra está muito concentrado nas mãos das mulheres, muitas das quais são responsáveis pelo sustento da família. Na época, nos deparávamos com campanhas no ar que eram emblemáticas desse descompasso, como as de absorventes, que traziam mulheres vestidas de branco e andando de bicicleta. Eu questionava, afinal uma mulher menstruada dificilmente faria essa escolha. Esse tipo de contradição era tão óbvia para nós, mulheres, mas passava despercebido porque havia um homem à frente da criação, já que nosso mercado é predominantemente masculino. O óbvio, no entanto, é que, para vender um absorvente ao nosso público, é necessário ter um comercial que realmente converse com as mulheres.
Anos depois, seguimos falando da mesma coisa. O número de filmes dirigidos por mulheres, hoje, é preocupante. Em algum momento deixamos de compreender que essa também é uma questão de efetividade comercial e retorno financeiro. Há ainda o fato de os ambientes de produção serem majoritariamente masculinos, e como isso gera um desequilíbrio. Vemos inúmeros casos de assédio que talvez não ocorressem, ou que aconteceriam com menor frequência, se os sets de filmagem fossem mais equilibrados em termos de gênero. Pensando na sustentabilidade desse mercado, é fundamental que a equidade de gênero deixe de ser apenas discurso e se torne realidade.
Outro dia, li que a população feminina reconhece na liderança masculina um lugar de força e autonomia, enquanto, ao se falar sobre liderança feminina, associa-se a um lugar de superação. Precisamos avançar para além dessa narrativa, ainda que as mulheres em postos de liderança tenham, de fato, uma história de superação para contar. Mas, uma vez que chegamos a essa posição, entendo que cabe a nós ajudar outras mulheres a passarem por esse caminho com menos dor e dificuldade.
M&M – Quais os principais focos da entidade para o médio e curto prazo?
Marianna – Criamos, no ano passado, um programa chamado Visionárias, voltado ao empoderamento de lideranças femininas. Desenvolvemos uma primeira frente voltada para as executivas dentro das produtoras, porque percebemos que, nesse universo, muitas vezes as mulheres não estavam de fato à frente do negócio. Algumas até estavam, mas de maneira meio disfarçada, em dupla com um homem. Entendo que existe também esse aspecto de a mulher precisar se instrumentalizar para conseguir ocupar essa posição. Por isso, criamos esse programa de mentoria voltado para as executivas, para torná-las ainda mais eficientes e permitir que alcancem voos mais longos em suas carreiras. Desenvolvemos módulos sobre longevidade, planejamento de carreira, educação financeira e saúde mental, além de um último módulo sobre alianças estratégicas e planejamento.
O programa começou no ano passado, mas neste ano abrimos uma nova frente voltada à direção de cena, visto que o esforço necessário para as diretoras é diferente daquele das executivas. Para elas, entendemos que é importante oferecer uma vitrine. Isso porque elas não estão conseguindo filmar, nem participar das concorrências, já que se trata de um universo majoritariamente dominado por homens. Assim, criamos seis sessões de screenings com 18 diretoras de cena, em que cada uma se apresentou e mostrou seu trabalho para agências e clientes, incluindo Lola, Grupo We, Artplan, Almap, Galeria e Netflix.
O impacto não se limitou às diretoras, que nos retornaram com feedbacks de que receberam mais pedidos de orçamento. Também gerou impacto dentro das próprias agências, pois profissionais desses ambientes relataram que a iniciativa lhes deu força para defender a presença de mais mulheres à frente dos projetos. A ideia é repetir a iniciativa e realizar uma segunda rodada nas agências que ainda não conseguimos visitar, com diretoras que não participaram do primeiro grupo e estão interessadas.
M&M – Qual a importância das entidades e do mercado se envolverem com associações representantes de classe?
Marianna – Vivemos um momento de muita pressão por resultados imediatos, mas precisamos lembrar que esse mercado precisa ser pensado a médio e longo prazo para torná-lo mais sustentável. Obviamente, novos modelos de negócios fazem parte do jogo. Mas entendo que o papel das associações é fundamental hoje em dia por permitir que esses diálogos aconteçam, por tirar as produtoras e as agências desse ciclo de resultado imediato e possibilitar que pensem a longo prazo. É o que nos permite ter algum lastro nesse mercado, e é o que precisamos garantir para que as próximas gerações consigam ingressar nesse universo em condições mais estáveis. É perfeitamente aceitável discordarmos em outros assuntos, mas, nos pontos em que há convergência, devemos avançar em conjunto. E, mais uma vez, trazendo clareza para os debates e transparência. Esse é, portanto, o papel das associações: tirar as pessoas do piloto automático e fazer com que se pensem como setor a médio e longo prazo.