Bia Ambrogi quer colocar o som no centro do audiovisual
Presidente da Apro+Som discute regulamentação da IA e prazos de pagamento como pautas prioritárias da entidade
À frente da Associação Brasileira de Produtoras de Som (Apro+Som) desde 2022, Bia Ambrogi chegou à presidência após uma trajetória de 25 anos no mercado audiovisual, que começou na pós-produção de cinema, publicidade e televisão e passou pela produção sonora.
Formada em comunicação social pela ESPM e especializada em cinema na Itália, ela também fundou a própria produtora de som, a InnSaei. Na liderança da entidade, o trabalho de Bia tem sido ampliar a representatividade da produção sonora no audiovisual e fortalecer a atuação institucional da Apro+Som. Entre as principais frentes estão a criação do projeto de lei “Pague em 15”, a regulação da inteligência artificial e a proteção dos direitos autorais, além da defesa da arrecadação pela execução pública e o aumento da representatividade feminina no setor.
A atuação também levou Bia a Brasília, onde passou a representar não apenas a Apro+Som, mas uma frente que reúne mais de 50 associações da economia criativa em torno da regulamentação da IA. Para ela, a união entre entidades é o que permite ampliar a força de setores que, isoladamente, teriam menos espaço para reivindicar mudanças.
Nesta entrevista, Bia Ambrogi fala sobre os desafios da produção sonora, as pautas que mobilizam a entidade e os próximos passos para consolidar o áudio como parte fundamental da indústria audiovisual.
Meio & Mensagem – Desde o início da sua presidência na Apro+Som, quais projetos vocês já realizaram?
Bia Ambrogi – No final de 2022, vimos a IA aparecer no mercado e nos posicionamos porque era um movimento que poderia impactar diretamente os direitos autorais, base de trabalho das produtoras de som. Formamos a Frente Responsável, que hoje reúne mais de 50 associações da economia criativa em Brasília para acompanhar a regulamentação da IA, por meio do PL 2.338/2023, que passou pelo Senado e está parado na Câmara dos Deputados. Quando vou a Brasília, também represento essas associações, o que nos dá mais força para falar diretamente com deputados e parlamentares.
Voltando aos interesses da associação, tínhamos principalmente um problema na publicidade: as condições de pagamento. Como não existe uma lei que determine esses prazos, eles são definidos pelas matrizes e, muitas vezes, nem podem ser negociados. Por isso, é difícil reverter essa situação sem um projeto de lei. Ao estudar o mercado global, encontramos uma legislação do Chile sobre o tema, que inspirou nosso projeto “Pague em 15”, nº 1.776/2025. Ele estabelece prazo máximo de 15 dias corridos para pagamentos de contratos de até R$ 200 mil firmados com empresas do setor criativo.
Como estou atuando bastante em Brasília, fui convidada pelo Senado e pela Câmara dos Deputados para falar sobre a Lei nº 15.325, a lei do profissional multimídia. Ela foi aprovada rapidamente e, apesar de o Ministério da Educação já ter aprovado a formação do profissional multimídia, trata-se de uma profissão transversal, com grande impacto da IA. O projeto nasceu, teoricamente, para oficializar a profissão de creator e influenciador, mas também impacta profissionais como sonoplastas e câmeras, que têm especificidades próprias, como limites de horas trabalhadas. São funções que podem ser substituídas pelo profissional multimídia, que pode exercer todas elas. Por isso, junto a outras entidades, ao Ministério do Trabalho e à Secretaria da Economia Criativa, pontuamos os prós e contras da lei.
Meio & Mensagem – Quais são seus maiores focos no momento?
Bia – Uma das minhas maiores questões na área é a falta de representatividade feminina no som. Ainda não alcançamos espaços como o de mixadoras de cinema. Temos poucas faculdades e cursos especializados e, para uma mulher ocupar essa posição, ela precisa ser chamada por um mixador na hora de escolher um estagiário, por exemplo. E isso ainda é raro. Na produção, entre nossos principais associados, que trabalham principalmente com publicidade, não existem compositoras.
Na Frente Responsável, temos, na área da música, o Ecad, a Abramus, a Associação dos Editores, dos Autores e dos Roteiristas. E sempre perguntamos: como está a representatividade feminina? Um estudo divulgado pelo Ecad mostrou que, entre os 100 nomes que mais arrecadaram em 2025, apenas 5% eram mulheres. Em 2023, eram 6%. Além de ser uma porcentagem pequena, ela está diminuindo. Entre os associados da Apro+Som, há mulheres donas de produtoras, mas nenhuma na área criativa, como compositoras. É um assunto negligenciado.
Por isso, idealizei o programa de rádio “Elas no Som”, da MyNews. Trabalhamos dois aspectos: a autoria por trás das músicas, que diferencia a criação humana da produção do Suno, ferramenta de inteligência artificial que cria músicas. No Suno, não há ninguém por trás da obra nem interação humana, apenas uma compilação de dados da máquina. Queremos voltar a valorizar o humano por trás das obras. A segunda questão é dar protagonismo às mulheres, inicialmente com foco nas compositoras. A ideia é discutir a criatividade feminina, que é diferente porque acumulamos funções. Já tivemos nomes como Fernanda Takai e Roberta Campos.
M&M – Como você descreveria, em poucas palavras, a missão e as principais atuações da Apro+Som hoje?
Bia – Nosso objetivo é representar a indústria fonográfica de composição de trilhas, que se diferencia da indústria musical porque compomos por encomenda para o audiovisual ou para a publicidade. Nossa maior missão é fazer o mercado e o governo nos reconhecerem como massa criativa associada à imagem. O audiovisual tem duas matrizes, áudio e imagem, que se unem para formar a obra. Quando comecei a representar a Apro+Som, muitas pessoas não conheciam a associação ou achavam que já estávamos representados na Associação Brasileira de Produtoras Audiovisuais. A diferença é que a maioria dos proponentes de obras é da imagem, mas também existem proponentes que vendem o som e contratam a imagem. É preciso deixar essa diferença clara. Nosso maior objetivo é ser reconhecidos como uma peça importante do audiovisual, uma massa criativa que faz parte de toda a cadeia. Hoje, existem leis que não incorporam a produção sonora ao audiovisual. Na isenção do ISS (Imposto sobre Serviços), por exemplo, o som não entra porque não está incluído no regramento do audiovisual: ele é considerado produção sonora.
M&M – Qual a importância de existir uma entidade como a Apro+Som?
Bia – As pessoas ainda subestimam muito a força da união. Quando existe uma associação que representa e se entende como um coletivo e busca trocar informação para propor uma solução, o mercado inteiro ganha. Cada setor precisa ter sua associação para fazer uma união coletiva. Quando vou para Brasília, percebo como faz diferença aumentar essa expressividade. Quando fui pela primeira vez, fui embasada por outras 50 associações que movimentam a economia criativa. A gente ganhou outro peso somado.
Somos uma indústria que precisa funcionar junto. Um grande feito que estamos prestes a conseguir é a arrecadação pública na execução, que é a publicidade. Isso nunca se arrecadou. Sempre foi um mistério, cada um dizia uma coisa e isso nunca foi questionado. A mesma coisa com a intenção de pagamento. Com essa abertura em Brasília, consegui uma reunião com a Secretaria de Direito Autoral e a gente descobriu que, em lei, não existe nada que impeça. Ou seja, temos também o direito de arrecadar. Então estamos vendo todo esse processo. Ninguém queria falar sobre isso porque iria mudar todo o sistema, envolve várias burocracias. Mas a gente perdeu muitos anos e dinheiro que poderia, sim, ter sido arrecadado.
Além da regulação da inteligência artificial, que, resumindo, para não entrar nos pormenores, queremos proteger uma lei do direito autoral. Se permitirmos que a IA use obras de qualquer tipo, a gente enfraquece a lei do direito autoral e toda a nossa cadeia. Então, ela precisa ser respeitada. Queremos transparência nos algoritmos, sobre como funcionam as ferramentas, suas respostas e se a pesquisa pode ser impulsionada ou não por um patrocínio de marca. Tudo isso precisa ser regulamentado, se não vira critério de cada plataforma. A IA é feita de duas pontas, o algoritmo e os dados. Com relação aos dados, todo o setor da tecnologia se apropriou indevidamente do setor da economia criativa como insumo sem remuneração. O algoritmo contém viés político, social, econômico. Então, precisa, sim, haver uma obrigatoriedade dessa transparência. Ou seja, além do governo como intermediário, precisamos incluir as entidades, as instituições, que são sociedade civil na fiscalização.
M&M – Como você descreveria o seu estilo de liderança e o que você traz de diferencial para sua posição como presidente?
Bia – Acho que estou conseguindo avançar em muitas coisas por não me dar por vencida nem me satisfazer com as primeiras respostas, principalmente as institucionais. Pesquisar e entender o que acontece em outros países tem nos permitido avançar em questões que pareciam imutáveis. Mas acho que o principal é agregar todo mundo. Antes, tínhamos problemas internos, mas conseguimos mostrar que a associação têm regras e todos têm seus deveres. Criamos uma sintonia melhor.
A segunda questão é que essa harmonia também nos fortalece na aliança com outras associações. Como a Apro+Som é realmente pequena, com limites financeiros e de gestão, essas alianças nos deram um tamanho que não teríamos condições de alcançar sozinhos. As parcerias possibilitam que eu vá a Brasília por meio de convites, em vez de depender sempre do caixa da associação. Isso nos deu mais amplitude e voz. Agora, mais estabelecidos, conseguimos caminhar também para nossas pautas individuais, mas meu foco continua sendo o movimento como um todo. Não queremos apenas remediar, mas ir à raiz dos problemas para tentar mudar a estrutura. Além da associação do som ser reconhecida como uma parte importantíssima do audiovisual, há também a importância dela para a economia. Por isso abranjo essa discussão sobre economia criativa, porque precisamos ser tratados e nos posicionar como indústria, e não como um hobby pelo qual existe uma remuneração.
M&M – Quais os planos futuros para a entidade?
Bia – Essa nova fase de nos posicionarmos como uma massa criativa importante do áudio é algo novo. Estamos fechando o ciclo de estruturação das leis, que estão terminando com êxito. Agora, a ideia é trabalhar mais o lado institucional e conseguir refinar tópicos que, pelas urgências, nunca tivemos tempo de aprofundar. Isso envolve trabalhar melhor os fluxos de trabalho e os cronogramas, para que o som tenha espaço, além de fazer reuniões com os festivais para discutir mudanças mais simples, como créditos e fichas técnicas. São questões menos urgentes, mas que também precisam avançar.
Ao mesmo tempo, queremos continuar, e agora priorizar, a pauta das mulheres no som. Sigo com o programa “Elas no Som”, sou embaixadora da Women’s Music Events (WME) há dois anos e, por conhecer todo o mercado, também consigo fazer uma curadoria e aproveitar a oportunidade para identificar novos talentos do país inteiro. Também sou embaixadora e convidada especial do Mulheres Profissionais do Audiovisual Brasileiro (MPAB), então trago essa representatividade das mulheres não apenas na música, mas também no audiovisual.
Outra pauta que queremos priorizar é a exportação dos nossos talentos. Sou uma das fundadoras do BPM, Brasil para o Mundo, projeto que trabalha o soft power, o poder suave do Brasil no mundo. Temos várias frentes de atuação, como cinema, audiovisual, mas também a música. Embora as notícias não deem tanta ênfase quanto ao cinema, somos constantemente reconhecidos internacionalmente, inclusive com Grammys e prêmios de produção musical. Como exportação de serviço, temos a vantagem do câmbio, pelo menos neste momento, e a agilidade de produção. Para exportar música e produção sonora, temos vários pontos a nosso favor. Por isso, estamos estreitando relações com a Apex, com apoio do Sebrae e de outras entidades, para trabalhar esse movimento.
Também queremos trabalhar mais com os associados e com as produtoras de som. Dou sempre como exemplo a minha própria produtora, porque mesmo sem nenhum agente fora do Brasil, produzo para a Polônia e para a Índia. Bollywood é uma indústria enorme. Precisamos apenas organizar melhor essa representatividade comercial, não só de networking. A ideia é ir com uma comitiva para vender e fechar negócios com clientes de fora. Esse é o propósito da Apro-Som nessa estratégia de exportação. Já iniciamos esse trabalho, mas queremos dar mais ênfase a ele nos próximos meses e anos.