O universo criativo das escritoras brasileiras
Autoras falam sobre suas trajetórias, processos criativos e como transformam as experiências femininas em literatura
Como segunda parte da série sobre a ascensão das mulheres na literatura brasileira, esta reportagem mergulha nas trajetórias de autoras que ajudam a redefinir a ficção contemporânea a partir de suas próprias experiências, processos criativos e escolhas estéticas.
Se a primeira reportagem mostrou como as escritoras conquistaram mais espaço no mercado editorial, agora o foco se volta para quem são essas mulheres, de onde vêm suas histórias e como transformam vivências íntimas, memórias, pesquisas e inquietações em narrativas que ampliam os contornos da literatura brasileira.
Giovana Madalosso nasceu em Curitiba, no Paraná, em 1975, num bairro chamado Santa Felicidade, uma colônia italiana. Um lugar repleto de beleza natural, com cultura enraizada nas tradições da Itália. Na infância, ela brincava entre a liberdade e as cobranças de uma educação católica e patriarcal.
O nome Madalosso não é conhecido apenas na região. O pai de Giovana é sócio do maior restaurante das Américas pelo Guinness Book of Records, que atende pouco mais de 4.500 pessoas. O Restaurante Madalosso, que serve rodízio de massas e carnes, data de 1963, tem mais de 7 mil metros quadrados e uma fabricação própria de vinho e suco de uva.
Este, entretanto, não é o único restaurante da família. Os Madalossos têm 15 estabelecimentos gastronômicos. Vinda de uma família tão tradicional, ela, seus irmãos e primos foram criados para trabalhar no negócio familiar. Mas, ainda menina, Giovana pegou o gosto pela escrita. Ela escrevia poesias e peças de teatro em que seus primos encenavam. Ganhou concursos de poesia na escola e até se tornou bolsista.
Ser escritora, entretanto, não estava escrito no caminho dos Madalossos. “Escritora, não”, dizia seu pai. Por fim, aceitou que a filha fizesse jornalismo. Um jeito que Giovana conseguiu de ficar próxima à literatura. Apesar da formação, ela acabou enveredando-se pela publicidade e se tornou redatora. Trabalhou em agências como DPZ, JWT e WMcCann.

Giovana Madalosso, escritora de “Teta Racional”, “Tudo pode ser roubado”, “Suíte Tóquio” e “Batida Só” (Crédito: Renato Parada)
“Até que chegou um momento em que juntei dinheiro e resolvi tirar um ano sabático para me dedicar à literatura, porque nunca deixei de escrever. Hoje, brinco que escrevia os livros dentro do armário, nas madrugadas, nos finais de semana. Então, durante todos esses anos, dos 7 até os 35, quando publiquei meu primeiro livro, estava desenvolvendo a minha voz narrativa. Tirei um ano para escrever literatura e nunca mais voltei para a propaganda”, conta.
A primeira publicação foi uma coletânea de contos, chamada “Teta Racional”. “São histórias que escrevi em torno do nascimento da minha filha, muito atravessados pelas dores do puerpério. Nem pensava se alguém ia ler ou não. Escrevia porque estava precisando”, conta. Giovana lembra que nem conseguia escrever, mas gravava as frases enquanto amamentava, para serem transcritas posteriormente.
Entre tensões e alívios
Natalia Timerman também sempre quis ser escritora desde criança, mas, ao contrário de Giovana, seguiu a carreira da família. O pai, o médico infectologista Artur Timerman, era um homem intelectual, por isso sua casa estava sempre repleta de livros. Os brinquedos e roupas eram regulados, mas se Natalia quisesse um livro, ela o teria.
Por influência do pai, ela seguiu a carreira como médica psiquiatra, mas ainda sentia que faltava algo. Apesar de escrever ao longo de sua infância e adolescência, o primeiro livro surgiu como resultado do seu mestrado. “Desterros: Histórias de um hospital-prisão” traz narrativas de pacientes num hospital penitenciário.
Desde então, Natalia não abandonou mais a literatura. Agora, diz que não pretende largar os dois ofícios. “A psiquiatria é importante para mim em muitos aspectos. Me dá um chão e um contato com as pessoas de um jeito diferente da literatura, que também exige uma presença muito grande, mas de outra ordem. Na psiquiatria, você está aberta diante do outro, e isso me salva de me perder em um possível deslumbramento com o mundo literário”, reflete.
Apesar de ocupar o tempo de Natalia, deixando-a com menos horas para a escrita, são nos atendimentos que ela diz sentir o apaziguamento de suas angústias. Enquanto, na literatura, elas afloram para preencher as páginas, é no encontro com os pacientes que essas tensões são aliviadas.
Das narrativas à escrita
Ao contrário de Madalosso e Timerman, Aline Bei não tinha o sonho de ser escritora. Na verdade, ela queria ser atriz. Fez teatro desde os 14 anos, onde teve seu primeiro contato com as narrativas, mas, logo no início da vida adulta, seguiu pela faculdade de letras. Foi na universidade que a escrita surgiu como uma surpresa agradável. “Foi curioso que ela tenha surgido justamente num momento de ausência do teatro, quase como um luto simbólico por esse sonho que começava a se esvair”, conta. Logo, a escrita se tornou sua paixão.
O primeiro gesto de escrita ocorreu durante a faculdade de letras, em 2008, mas sua primeira publicação foi em 2016, com “O Peso do Pássaro Morto”. A distância entre estes dois pontos foi necessária para que Aline criasse sua própria voz. “Foi um tempo de experimentação, de entendimento desse lugar de fronteira que habita a minha escrita. Um lugar entre a poesia, o teatro e a própria prosa, a narrativa mais tradicional”, reflete.
Já Bethânia Pires Amaro nasceu em Recife, Pernambuco, mas toda sua família é da Bahia, lugar onde voltou aos três anos e foi criada. Entre o final dos anos 1980, Bethânia não encontrava referências de escritoras contemporâneas nas livrarias, apenas os clássicos que eram passados na escola. Por isso, por mais que a escrita sempre estivesse em seu cotidiano desde criança, aquilo não parecia ser um caminho possível de ser trilhado. Foi apenas durante a pandemia, ao refletir sobre o futuro e as escolhas a partir daquele momento de isolamento, que Bethânia quis ser ouvida para além da folha em branco que guardava na gaveta.
A intenção se tornou ação. Amaro passou a estudar a escrita criativa e realizou cursos. Começou com histórias pequenas, integrando coletâneas de contos e participando de concursos. Seu primeiro livro foi a organização de seus contos, “Ninho”, que ganhou o Prêmio Sesc em sua categoria. Lançado em 2023 pela Editora Record, a obra ganhou também o Prêmio Jabuti de conto.
Histórias femininas
Depois de escrever sobre as dores do puerpério, Giovana Madalosso lançou seu segundo livro, “Sweet Tokyo”, inspirado nos desafios da maternidade e na observação da vida das babás em São Paulo. Posteriormente, surgiu “Batida Só”, ao viver e cuidar de uma patologia no coração de sua filha. “Nesse livro, que é ficção, claro, transformei essa história sobre o coração como metáfora do sentir, mas também sobre questões de corpo, adoecimento e fé”, conta.
Para além de retratar a vida emocional das mulheres, Giovana também traz em suas histórias os prazeres da sexualidade feminina. “Historicamente, há muitas cenas de prazer e sexo escritas por homens, em grande quantidade, e poucas narradoras ou personagens mulheres que se tocam nessas cenas. Então, trazer o sexo para dentro da história de maneira franca, falar disso sem vergonha e constrangimento, é algo que eu sempre gostei de fazer”, destaca Madalosso.
Já o segundo livro de Aline Bei partiu de sua própria solidão perante a pandemia. “Pequena Coreografia do Adeus” foi escrito num processo de isolamento social histórico e foi publicado em 2021. A própria história traz o abandono como tema central, por meio das relações familiares e amorosas.
“Meus livros olham muito para essa fase do crescimento e para como é fazer isso em ambientes quebrados, marcados por muitas heranças de silêncios e violências que não são bem resolvidas. Essas marcas limitam muito a movimentação de uma mulher no mundo, mesmo que ela não perceba isso de imediato, mesmo que não lide com isso de uma maneira prática”, reflete.
Aline Bei, escritora de “O Peso do Pássaro Morto”, “Pequena Coreografia do Adeus” e “Uma Delicada Coleção de Ausências” (Crédito: Fernando Rabelo)
O que une essas escritoras é a crueza de retratar o mundo particular das mulheres, que muitas vezes foi narrado pelo olhar de escritores homens. Historicamente, foram poucas as autoras femininas que despontaram no mercado literário ao trazer a perspectiva e a vivência das mulheres. Neste novo momento da literatura contemporânea, o horizonte é marcado por uma legião de escritoras que jogam luz sobre as questões da experiência feminina.
Bethânia Pires Amaro é outra que traz em suas obras os traumas e dores geracionais que as mulheres carregam e transmitem às suas filhas e netas. Em abril deste ano, a autora publicou seu primeiro romance após “Ninho”, obra intitulada “Ressalga”. “Quis chamar atenção para dinâmicas que nem sempre consideramos violentas, mas que, se olhadas de perto, acabam se revelando como algo muito frequente entre mulheres da mesma família e que se reproduz ao longo das gerações. Meus dois livros acompanham de perto relações familiares entre mulheres, permeadas por erros e acertos, e por essa dificuldade de escapar de padrões que a gente enxerga como tóxicos ou violentos”, afirma.
Processo de escrita
Para Natalia Timerman, cada livro tem seu próprio processo, com tempos e velocidades diferentes. Alguns tiveram planejamento, outros nasceram do impulso da escrita. Como psiquiatra, escrever se tornou um modo de organizar o pensamento, como um modo de investigação.
Entre consultas e filhos, o maior desafio, entretanto, é conseguir tempo para escrever. Seu mais recente livro, “Antes de Apague”, traz a relação entre uma filha e sua mãe, diagnosticada com Alzheimer. “A sensação que tenho é de que dei tudo o que podia para esse livro, tudo de mim. Inclusive minhas noites de sono. Não conseguia dormir e senti muita angústia durante a escrita. Mas é curioso: agora que ele foi lançado, essa angústia passou”, relata Timerman.

Natália Timerman, psiquiatra e escritora (Crédito: Luiza Sigulem)
A escrita, para Aline Bei, se assemelha ao da colega de profissão. É um processo de investigação interior. “É curioso, porque a escrita me parece muito mais interiorizada por forças que já estão em nós do que apenas por um desejo de recorrer a um novo repertório. No meu caso, sinto que ela é muito mais reveladora de coisas que já estão em mim, e não necessariamente da minha história particular, mas talvez de observações de mundo, sensações de espaço, escutas de um universo do feminino que acabam ecoando na minha escrita”, descreve Bei.
Mesmo considerado um processo de ordem interior, as autoras ainda recorrem à pesquisa de referências para criar os cenários e personagens de suas obras, como foi para Bethânia em seu último livro.
“A escrita de ‘Ressalga’ começou com um grande projeto de pesquisa histórica. É um livro que trata de três gerações de mulheres e acompanha esse percurso do sertão da Bahia, do Recôncavo a Salvador, entre os anos 1940 e meados dos 1970. Então, acompanha a migração dessa família por todas essas geografias, até chegar à Ladeira da Montanha, uma região de grande boemia, prostituição, uma espécie de caldeirão cultural baiano ao longo dessas décadas”, conta Amaro.
A obra acabou se tornando uma meta-ficção. “Muitos dos personagens que estão em ‘Ressalga’ de fato existiram. Vários leitores vão reconhecê-los, outros não, e há também essa mistura com os personagens ficcionais”, afirma. Por isso, a autora recorreu à pesquisa em livros de entrevistas, biografias, arquivos históricos, fotográficos e documentários.
Para além da história, a arte e o corpo também se tornam material de investigação para a criação dessas obras. Aline Bei, por exemplo, explora a filosofia, o teatro e a dança. “Desde ‘Pequena Coreografia do Adeus’, que traz a dança no cerne do texto como uma ação importante da personagem, comecei a desbravar esse universo da dança como método de pesquisa, porque acho que é uma filosofia, ou pelo menos algo muito próximo disso”, relata.
Há, ainda, elementos da imaginação para a composição de mundos fantásticos e realistas. “Imagino muita coisa o dia inteiro. Situações banais já viram outra coisa na minha cabeça. Estou o tempo todo imaginando que tem alguém atrás do muro, que alguma coisa está acontecendo ali. E, geralmente, ela é mais rápida do que a minha mão para escrever, o que me gera muita angústia. Gostaria de conseguir dar conta de todas as ideias que tenho”, diz Madalosso.
Por isso, Giovana tem um mural de cortiça, onde organiza visualmente suas ideias. Método que tirou de sua experiência como roteirista de séries, quando fazia escaletas para ordenar os principais eventos de uma trama. “Em ‘Tudo Pode Ser Roubado’, por exemplo, como havia um personagem que tomava muitos remédios, eu tinha na parede bula de antidepressivo. Quando estava escrevendo ‘Sweet Tokyo’, tinha autorizações de viagem que uma criança precisa para viajar com estranhos. Como ‘Tudo Pode Ser Roubado’ também tinha muitas histórias ligadas aos objetos roubados, eu recortava revistas, colava bolsas caras, botas, e pensava: ‘minha personagem vai roubar isso no próximo capítulo’.”
Linguagem
Para Giovana, o ritmo de leitura é um aspecto importante que tenta imprimir em suas obras. Por isso mesmo que ela tem o costume de ler para si mesma as páginas que escreve, para ter a experiência que seus leitores teriam ao ler um de seus livros. “A gente vive num momento de tantos estímulos, celular, mil distrações o tempo todo que, se eu consigo criar um ritmo que ajuda o leitor a entrar no fluxo da leitura, isso me deixa bem contente”, destaca.
O ritmo e a linguagem também aparecem na escrita de Bethânia Pires Amaro de forma que a experiência se aproxime de um nado num rio ou correnteza. “A água tem uma simbologia muito forte nesse livro. Ela une essas mulheres de diversas formas. Está presente tanto na geografia em que elas habitam, nas grandes enchentes do Rio Paraguaçu, no litoral de Salvador, como também no próprio ritmo delas, nos tons da narrativa e no trabalho de linguagem”, afirma a escritora.
“Foi um trabalho costurado para gerar uma experiência sensorial no leitor, para que ele se sentisse arrastado e arrebatado por essas águas, carregado por elas ao longo da história. Para mim, foi um processo muito fluido, prazeroso, embora também sofrido em alguns momentos, porque quem escreve às vezes fica ali se debatendo com a frase, com o momento. Mas essas personagens me vieram com muita facilidade, porque esse é de fato um período muito rico da história da Bahia, e eu tinha muita coisa para falar. Sinto que poderiam ter saído ainda mais dois ou três livros daí”, acrescenta.

Bethânia Pires Amado, escritora de “O Ninho” e “Ressalga” (Crédito: Lorena Vinturini)
Assim como Amaro, Aline Bei incorpora elementos da sua história também na experiência de leitura, muito marcada pela espacialidade no texto, inspirado na poesia concreta, que transmite a sensação de ausência. “Tenho um pacto com a folha, com a página, e sinto que ela também é linguagem. É feita de silêncios e ausências, não só no tema e no enredo, mas também na forma. Isso coincide muito com o conteúdo, o fragmento, a ruptura, o vazio. Eles estão continuamente dentro e fora do texto e vão construindo um ritmo muito particular, que é o do meu texto, da minha escrita.”