HOMENAGEADAS

Para Karina Ribeiro, liderar uma agência é saber servir

CEO da VML relembra viradas na carreira e explica como intuição e cuidado com clientes moldaram sua liderança

i 4 de agosto de 2026 - 16h15

(Crédito: Arthur Nobre)

Karina Ribeiro, CEO da VML (Crédito: Arthur Nobre)

Formada em comunicação social e publicidade pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), e em gastronomia pela Universidade Anhembi Morumbi, além de outras especializações, Karina Ribeiro é, hoje, uma das poucas mulheres que ocupam cadeiras C-level no mercado publicitário.

Mas, antes de se tornar CEO da VML, trilhou uma carreira que começou na cozinha, em um estágio no Bistrot Jaú, em 2002. No mesmo ano, ingressou na Ogilvy, onde permaneceu por 12 anos até fazer uma pausa na carreira. Na ocasião, decidiu se mudar para Portugal para acompanhar seu marido, que havia sido transferido por uma multinacional.

Durante os dois anos desse proces­so, Karina pôde vivenciar novas expe­riências, como a gestação de sua primogênita, chamada Helena. No retorno ao Brasil, se dedicou exclusivamente à fi­lha durante o seu primeiro ano de vida.

A volta ao mercado de trabalho veio com uma grande virada, ao ser convi­dada por Luiz Fernando Musa, CEO da Ogilvy no Brasil, e Anselmo Ramos, co-fundador da Gut, a comandar o primeiro escritório da David, que nasceu a partir da Ogilvy, no Brasil.

“Fui a primeira funcionária da agência no País e ajudei a construir a operação. Essa foi uma grande virada de carreira, porque saí de uma cadeira de executiva de client service para virar uma profissional que estava montando uma operação”, recorda.

Respondeu como diretora-execu­tiva da David entre 2012 e 2016, além de ter liderado projetos globais para clientes do WPP. Karina também par­ticipou da maior fusão da história do mercado de comunicação no Brasil, que uniu as agências VMLY&R e Wunder-man Thompson, quando, a convite de Stefano Zunino, country manager do WPP, assumiu a VML, agência resultan­te da fusão.

Karina relata que, embora tenha sen­tido um medo inicial, seguiu sua intui­ção após receber uma mensagem do ir­mão, de quem é muito próxima, com a frase que dizia “está com medo, vai com medo mesmo”.

“Todo mundo tem medo e que bom. Se tivéssemos tudo seguro nessa vida, não precisaríamos aprender mais nada. Quando meu irmão falou isso, pen­sei: ‘estou tão confortável’”, comenta. A CEO completa dizendo que trabalha essas questões de medo e evolução com sua terapeuta, que a incentiva a ouvir seu gut feeling e ponderar os pontos. “Nossa intuição é muito verdadeira.”

Meio & Mensagem — Quais são os principais vínculos entre a publicidade e a gastronomia e como ambas ajudaram a construir o seu perfil profissional? 

Karina Ribeiro — Acredito que tem a ver. Já pensei muito nisso. Tem uma curiosidade: estou a vida inteira no WPP. Trabalhei na Ogilvy, cujo fun­dador, David Ogilvy, também foi cozinheiro e trabalhou em um restauran­te. Tem uma coisa na rotina de agências de comunicação e de restaurantes que é o trabalho em equipe. Todo mundo tem uma função e sabe dela, mas ninguém faz nada sozinho. Cada um tem um papel importante no todo. São am­bientes dinâmicos, criativos, nos quais os prazos são curtos. Na cozinha, há processos, e eles são muito importan­tes. Tem que ter método, criatividade e inspiração, mas tem que ter a transpiração. Quando eu trabalhava em restau­rante, entrava às 5 horas da manhã e ficava a manhã inteira nos preparos. Fazia todos os cortes, preparava os molhos. Esse momento de processo e de preparação é ne­cessário para o grand finale. Tem algo de confiar nisso, de ter cer­teza de que está correto. Para vo­cê ter o seu momento de inspiração, o preparo é muito importante.

Me alimento de pessoas e adoro servir e cozinhar. Sou uma profissional do mercado de comunicação, mas cons­truí minha carreira inteira em agência. Nesse tipo de empresa, estamos ali para servir o cliente, as marcas e os pro­dutos. E isso tem tudo a ver com a gastronomia. É muito impor­tante entender como posso servir o meu cliente, como cuidar, como fazer isso com o meu time e a minha famí­lia. A gastronomia é a forma mais fácil de fazer conexões. Quando você chama alguém para comer, você pensa no que ela quer, no que ela gosta.

M&M — Você é uma das poucas CEOs mulheres no mercado publici­tário que está à frente de uma das grandes agências do Brasil. Como enxerga o seu papel em incenti­var e impulsionar outras mulheres a chegarem nessa posição? O que é preciso fazer para tornar esse ce­nário mais equilibrado?

Karina — O equilíbrio é tudo. Não só para homens e mulheres. É o mais im­portante e, muitas vezes, o mais difícil. É o que todo mundo busca: o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, de homem e mulher, racial. No WPP e na VML, levamos a sério isso. Capitaneamos toda a parte de pessoas, de cultu­ra, de inclusão e impacto. Fazemos is­so em todos os sentidos. Fico feliz de poder estar em um lugar de lideran­ça. Espe­ro ser uma inspiração para mais mulheres sempre, para que as pessoas saibam que dá para chegar lá. Se parar para pensar, estou no grupo há 20 anos. Comecei como estagiária e hoje chego como CEO de uma das maiores operações. Isso mostra que é possível. Não precisa romantizar as coisas, nem devemos, porque dá tra­balho. Temos que fazer escolhas. Quan­do escolhemos nos dedicar a um pro­jeto, renunciamos a alguma coisa. Es­colhas são renúncias. Tem que se preparar e saber que vai dar traba­lho, mas é tão bom e bacana poder produzir, ser útil e fazer parte de um ti­me. Ver que as coisas estão dando cer­to, poder ser um agente de mudança que potencializa e proporciona o cres­cimento dos outros.

M&M — Você teve grandes viradas na carreira. Como essa trajetória te ajudou a se formar como líder? 

Karina — Quando falo do propósito de servir, quero dizer que sou muito liga­da aos clientes. Uma agência só existe porque tem clientes para atender. Estamos aqui para acordar diariamente e nos debruçar nos desafios. Gosto do dinamismo do nosso mercado, onde se acorda todo dia com oportunidades diferentes, para marcas e indústrias di­ferentes. Isso me deixa motivada. Nun­ca um dia é igual ao outro.