TRABALHO

Seniorização desafia a formação de talentos na publicidade

Adoção da IA e choque geracional faz com que a indústria busque o equilíbrio para formar e reter talentos

i 20 de agosto de 2026 - 6h09

Nos últimos anos, empresas e agências vêm destacando a seniorização das equipes como diferencial em sua proposta de valor. Na prática, profissionais mais experientes, com mais tempo de mercado, assumem a frente dos projetos em estruturas mais enxutas e contato mais próximo com os clientes.

A tendência ganhou notoriedade crescente frente à adoção de ferramentas de inteligência artificial (IA). Pesquisa global da Oliver Wyman aponta que, muito em decorrência da sofisticação da tecnologia, 40% dos CEOs planejam cortar cargos juniores em até dois anos e priorizar profissionais de nível médio ou sênior.

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Tendência de seniorização da indústria aumenta a concorrência para jovens no mercado de trabalho (Crédito: alfa27-AdobeStock)

Genis Fidelis, diretor de recrutamento em vendas, marketing, digital e varejo na Michael Page Brasil, pontua que as empresas têm valorizado pessoas com uma visão mais holística, completa e panorâmica do negócio, habilidades que profissionais mais experientes, naturalmente, carregam.

“Existe também uma grande oportunidade de reaproveitar profissionais que talvez, em outro momento, não fossem tão valorizados e que agora passam a ganhar mais espaço”, opina. Neste cenário, Fidelis cita um papel importante de profissionais que trabalham sob demanda, que não necessariamente são funcionários diretos.

Ainda que seja uma tendência em grande parte atribuída à ascensão de ferramentas generativas, o debate sobre o impacto nas vagas de entrada pode ser lido sob outras óticas. Roberta Iahn, coordenadora do curso de comunicação e publicidade da ESPM, aponta para a transformação demográfica da força de trabalho brasileira.

Em doze anos, a partir do final de 2012, a população brasileira com 60 anos ou mais passou para 35,2 milhões, um aumento de 55,4%, mostra pesquisa da FGV IBRE.

Trabalhando por mais tempo, profissionais entre os 50 e 70, anos, por exemplo, seguem se atualizando, aprendendo e utilizando tecnologias e até mudando de carreira. “O profissional mais velho está ficando profissionalmente mais jovem e o jovem está sendo chamado a amadurecer profissionalmente mais rápido”, diz Roberta.

Ao mesmo tempo, a geração Z chega ao mercado com novas demandas, reconhece a coordenadora, evidenciando um choque entre o que as empresas oferecem e o que os jovens, de fato, esperam: em linhas gerais, mais flexibilidade, equilíbrio entre trabalho e vida pessoal e expectativas diferentes em relação ao crescimento na carreira.

Novos profissionais, futuros líderes

Hoje, a IA é capaz de automatizar tarefas mais operacionais que, por muito tempo, eram delegadas aos recém-chegados ao mercado de trabalho. Ainda, em meio à busca por eficiência e velocidade do mercado, há menos tempo hábil para o aprendizado, erro e para o processo de tomada de decisões, em uma indústria que encara o desafio da atração e retenção de talentos.

“Automatizamos a tarefa que ajudava o jovem a aprender para depois exigir que ele chegue ao mercado sabendo aquilo que ele não teve oportunidade de aprender”, critica a coordenadora. Ela tece um alerta ao mercado para que vagas de entrada não se transformem em uma vaga de profissional experiente com salário de júnior.

Além disso, as transformações acontecem em um mercado que tem sua relevância ancorada na criatividade, fruto da divergência e diversidade de repertório, em um momento em que as marcas direcionam estratégias para se aproximar da geração Z e se inserir em seus hábitos de consumo.

Fidelis, da Michael Page, reforça maior concorrência na entrada no mercado de trabalho. “É uma corrida que pode gerar uma competição mais saudável justamente no sentido da qualificação. A disputa tende a ficar um pouco mais acirrada, mas, ao mesmo tempo, aumenta a busca pelo desenvolvimento de competências, tanto pessoais quanto técnicas”, alega.

Responsabilidade compartilhada

Os especialistas compreendem um compromisso de formação e desenvolvimento enquanto ecossistema. Enquanto a universidade exerce papel fundamental sobre a formação, englobando habilidades técnicas e formação de pensamento crítico, a experiência profissional dificilmente é obtida fora da prática do mercado de trabalho.

“A universidade prepara para momentos diferentes: entrar no mercado, mudar de área, aprimoramento na evolução da carreira, entre muitas outras possibilidades. O mercado também precisa assumir que forma profissionais”, salienta Roberta. Na publicidade, particularmente dentro das agências, parte do conhecimento é transmitido entre gerações, fruto da coexistência entre diferentes níveis hierárquicos.

Em entrevista concedida ao Meio & Mensagem, Guga Ketzer, CEO da Suno, reconheceu o impacto do choque geracional na indústria e os desafios em gerar talentos no mundo da IA. “Como líderes, precisamos entender que a formação de talentos não será a mesma que a nossa ou de como a geração abaixo está sendo formada”, disse.

Dentro do mercado de marketing, em geral, afirma o diretor da Michael Page, as primeiras empresas pelas quais o profissional passa são determinantes para o futuro da carreira. “Essas experiências ajudam a definir os caminhos que ele pode seguir, seja para o lado de agência, seja para o lado das empresas, entre outras possibilidades”, diz.

Diante da tendência da seniorização, o caminho apontado é o equilíbrio entre perfis, gerações e níveis de experiência. Roberta, da ESPM, ainda chama a atenção para que a IA não ocupe o lugar da aprendizagem. “Não precisamos de pessoas excelentes em pedir respostas para máquinas e muito pouco preparadas para julgar essas respostas”, argumenta.

Recém-chegada ao mercado, a YouDare, do Grupo Dreamers, firmou parceria com a Miami Ad School para lançar um curso de formação em conteúdo, o “War Room: Ativação de eventos na Era da atenção”. O treinamento contempla 13 aulas ao vivo, inclui simulações e um projeto final em que os alunos devem operar uma campanha em tempo real, com briefing fornecido pela agência e um de seus clientes, o iFood.

A empresa ainda tem parceria com a Universidade de São Paulo, voltada para dados, junto aos alunos da faculdade de engenharia, a Escola Politécnica.

“É uma responsabilidade que vai além do trabalho do dia a dia, para ajudarmos, de alguma forma voltar isso para o mercado, formar e trazer as pessoas mais rápido”, comenta Cleber Paradela, vice-presidente de inovação e IA da YouDare. “Para a curva de aprendizado que demorava uma carreira inteira,  agora os jovens terão que pular alguns passos”.