Comunicação

Choro no escritório: os desafios da saúde mental em 2026

Às vésperas da atualização da NR-1, companhias ainda falham em garantir segurança psicológica

i 19 de maio de 2026 - 6h00

Um relatório da plataforma norte-americana de saúde mental Modern Health ouviu mil profissionais e revelou que, nos últimos 30 dias, 51% dos funcionários choraram no escritório. Ao mesmo tempo, 52% dizem ter tido episódios de ansiedade e ataques de pânico no ambiente de trabalho.

Saúde mental no trabalho - Três homens em trajes de negócios demonstrando exaustão e burnout no trabalho.

Levantamento da Suridata revelou que os afastamentos relacionados à saúde mental nas empresas brasileiras cresceram cinco vezes em 2025 (Crédito: Overearth-shutterstock)

A sobrecarga ainda aparece em outros sinais. No estudo, 72% disseram que o empregador prioriza a produtividade em detrimento do bem-estar e mais da metade (57%) se sente pressionada a responder mensagens de trabalho fora do horário comercial.

Apesar de o estudo ter sido realizado nos Estados Unidos, analistas enxergam proximidade com o cenário brasileiro. “Não conseguimos fazer uma transposição direta, mas caminhamos na mesma direção”, aponta Maria Sartori, diretora de marketing da Robert Half e uma das responsáveis pela pesquisa Inteligência Emocional & Saúde Mental no Ambiente de Trabalho, realizada em parceria com a The School of Life Brasil.

Entre os achados do estudo brasileiro, Sartori destaca o fato de 48% dos profissionais liderados afirmarem não se sentir à vontade para se expressar no ambiente de trabalho. Além disso, 40% dizem ter dificuldade recorrente em equilibrar trabalho e vida pessoal.

Na última semana, um levantamento da Suridata revelou que os afastamentos relacionados à saúde mental nas empresas brasileiras cresceram cinco vezes em 2025, na comparação com o ano anterior.

“Ainda vemos o trabalho sendo um grande ofensor na saúde mental das pessoas. E, infelizmente, elas estão se relacionando em ambientes de medo, falta de segurança psicológica e de muito estresse e ansiedade”, analisa Renata Rivetti, consultora e fundadora da Reconnect.

Impacto da IA na saúde mental

Na pesquisa da Modern Health, realizada nos EUA, a inteligência artificial aparece como motor dos níveis de estresse. Dois terços dos respondentes disseram que a IA elevou o nível de expectativa sobre os profissionais no dia a dia. Como resultado, o estresse teria aumentado.

Um em cada quatro profissionais norte-americanos consideram que a IA está, de fato, prejudicando sua saúde mental. No longo prazo, o impacto real da inteligência artificial no ambiente corporativo é incerto.

“Algumas pesquisas e dados mostram que ela vai gerar mais empregos do que tirar. Mas, no final, sabemos que talvez as pessoas que conseguirão novos trabalhos não sejam as mesmas que perderão os empregos. Então, existe um clima hoje de medo, falta de segurança e de ansiedade pela entrada da IA”, aponta Rivetti.

Nesse cenário, o papel das companhias seria garantir uma transição bem conduzida, investindo em capacitação, ajuste gradual de metas e expectativas e, sobretudo, um diálogo claro sobre a aplicação da IA no dia a dia.

Pressão econômica e layoffs

A IA não é a única a produzir ansiedade e estresse nos ambientes organizacionais. O cenário de pressão econômica, com conflitos que impactam toda a cadeia de produção e comprimem as margens de lucro, também cria um ritmo de incerteza. No mês passado, o mercado de tecnologia, por exemplo, acompanhou uma nova leva de demissões.

A diretora da Robert Half explica que essa volatilidade gera não só um aumento no nível de tensão e ansiedade, como pode gerar uma redistribuição de responsabilidades entre os profissionais e uma maior atenção às performances individuais.

No entanto, ela enxerga esse como um momento de adaptação. “Percebemos que as empresas têm buscado equilibrar eficiência com a retenção de talentos, o que ajuda o ambiente ao longo do tempo”, pondera.

Chief happiness officer

Curiosamente, nos últimos anos, cresceu no mercado o número de cargos dedicados ao bem-estar, como o chief happiness officer e chief wellbeing officer. As executivas enxergam um amadurecimento dessas cadeiras. Na prática, as posições que teriam surgido com uma abordagem institucional e, hoje, precisam entregar impacto real e mensurável na organização.

Mas ainda existem desencontros. “O problema é que muitas vezes as empresas entendem a importância do tema, mas tratam de forma superficial. Elas fazem programas de bem-estar e ações pontuais, mas não mexem na causa raiz dos problemas, que é o ambiente tóxico, inseguro, de assédio”, reforça Rivette.

O que muda com a NR-1?

A velocidade desse amadurecimento e a urgência da agenda de saúde mental estão prestes a ganhar um reforço com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que entra em vigor no final desse mês e torna obrigatória a gestão dos riscos que afetam a saúde mental dos trabalhadores.

Para Sartori, o impacto é claro: “As empresas necessariamente vão ter que sair do discurso e ir para a prática, porque vão ser cobradas e auditadas”. E conclui: “Isso vai ajudar a profissionalizar a maneira como as empresas lidam com esse tema, que é tão importante”.