Ana Coutinho quer deixar um legado para as próximas líderes
Movida pela coragem de mudar e pelas pessoas, sócia da Galeria deseja abrir caminhos para novas gerações

Ana Coutinho, vice-presidente de negócios e sócia da Galeria (Crédito: Arthur Nobre)
São João da Boa Vista, cidade do interior de São Paulo com menos de 100 mil habitantes, de acordo com estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), sempre pareceu pequena para Ana Coutinho. Foi a personalidade comunicativa, em grande parte, que a fez trilhar o sonho de partir para a capital paulista, onde se graduou em comunicação social pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Iniciou carreira na extinta Euro RSCG, agência digital que começou a moldar seu olhar para a inovação. Na sequência, um dos marcos foi trabalhar com Washington Olivetto, na W/Brasil. Ao longo dos anos, passou por agências de diferentes naturezas, portes e propostas, atendendo anunciantes como TIM, Itaú, Globo, General Mills, Nestlé e Seara.
“Minha carreira foi pautada por coisas inovadoras, inéditas. Fui traçando esse lugar de estar sempre aprendendo e muito aberta a aprender, a fazer o diferente, a não ter medo, a me colocar na frente da bala e puxar o time para isso”, diz. Durante pouco mais de seis anos, atuou como diretora de contas na antiga DPZ&T, à qual retornou como vice-presidente de negócios após uma passagem de quase dois anos pela WMcCann.
No mais recente marco de sua trajetória profissional, e fora de uma grande holding, Ana embarcou no que classifica como um projeto de vida e grande feito até o momento. Ela tomou a importante decisão de deixar a posição de executiva para exercer um papel maior nos negócios ao integrar a sociedade da Galeria em 2021.
“Todos os momentos de mudança exigem muita coragem e foram moldando o meu caminho até aqui”, declara Ana. “Foi uma chave de ouro essa característica de sempre abraçar os grandes desafios e a transformação. Sou uma entusiasta da mudança”, acrescenta.
Cinco anos depois, segue na vice-presidência de negócios da agência independente que, hoje, integra uma holding de mais de dez empresas em seu portfólio. Além da função, Ana reconhece a importância do papel que exerce, como líder, para que outras mulheres se sintam representadas no mercado.
Meio & Mensagem — Estamos assistindo a uma reorganização da publicidade globalmente. Agências 100% nacionais vêm ganhando uma nova tônica nesse sentido?
Ana Coutinho — Super. Desde a criação da Galeria, vemos esse cenário como uma oportunidade muito grande. Como uma agência independente, temos outro tipo de velocidade, comprometimento e conversa com os clientes. Na maioria das vezes, sentamos dono com dono para tomar decisões. Não temos que pedir permissão ou aprovação para ninguém. É óbvio que o nosso negócio deve estar — e está — muito saudável, o que permite que abramos empresas, façamos fusões e compremos companhias, para que o nosso negócio fique cada vez mais amplo, mais forte. Há uma velocidade e uma agilidade, que são um mega diferencial. Para além disso, existe uma personalidade muito mais difícil de manter quando se pertence a um grupo em que vão acontecendo fusões e misturando lideranças, jeitos e DNAs. Aqui, temos uma personalidade muito clara que vem da liderança, que é sócia, que tem o seu jeito de pensar, de gerir e criar. Esse também acaba sendo um diferencial imenso. Especialmente no mundo da inteligência artificial, onde as coisas podem acabar ficando mais pasteurizadas ou medianas.
M&M — Você cita que, antes de ingressar no mundo de agências, tinha outra ideia sobre a comunicação. Há algum resquício que mantém ou existe uma mudança mais ampla do que tinha em mente?
Ana — Na verdade, fui moldando o que enxergo como comunicação. Porque, quando você mora lá no interior, não sabe exatamente como uma publicidade é feita, por exemplo. Até hoje, a família que mora lá não sabe muito bem como a publicidade é feita. Tem uma coisa de eu ter mais conhecimento, ter me aprofundado e ter passado por diferentes estágios, desafios, e ampliado o meu repertório sobre o que é comunicação. Mas, no final, o que eu consigo perceber é que a comunicação, do ponto de vista da publicidade, sempre teve e sempre terá o consumidor e o cliente como pontos principais. O que foi mudando é a forma como a chegamos até eles, os pontos de contato que se ampliaram muito. O jeito que uma marca se comunicava antes, que era uma mensagem única, hoje é um diálogo. A comunicação foi evoluindo. Foi uma evolução da minha visão sobre comunicação e do mundo também.
M&M — Vemos um retrocesso de pautas sociais relacionadas à diversidade e inclusão. Qual é sua percepção sobre a temática na publicidade brasileira? Há um termômetro maior de avanço, de alguma forma?
Ana — O avanço continua acontecendo, mas talvez de uma forma um pouco mais lenta do que vimos anteriormente. Mas as mulheres que já estão chegando estão puxando, abrindo caminhos. É mais difícil de retroceder, mas a coisa ficou um pouco mais lenta. A nossa busca ainda é muito importante e relevante. O papel da mulher não é por ser feminino. É um papel de relevância para o negócio. A importância de ter mulheres no comando é porque entregam resultado. É uma entrega pautada em performance. Isso nos ajuda a continuar cavando o nosso lugar. Se eu puder falar sobre um legado que gostaria de deixar ao longo da minha carreira é ser essa inspiração e referência para que várias outras mulheres enxerguem que é possível, que possam olhar para cima e ter em quem se inspirar, em quem mirar, ter essas referências. É muito importante, porque, senão, ficamos um pouco desamparadas. Está mudando. É uma luta pessoal de toda mulher. Tenho bastante esse olhar e cuidado com isso. No meu time de negócios, por exemplo, tenho 12 diretoras diretas e um homem.