Luana Ozemela: liderar para transformar
VP de impacto e sustentabilidade do iFood acredita que mudar a sociedade exige dominar as estruturas de poder

CSO e vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood (Crédito: Arthur Nobre)
Natural de uma região periférica de Porto Alegre, Luana Ozemela cresceu em um círculo familiar extremamente intelectualizado e politizado. “Discutíamos em casa desde temas como apartheid na África do Sul, até segregação nos Estados Unidos”. Apesar de viver em um contexto marcado pelo racismo escancarado e por grandes desigualdades sociais da cidade gaúcha nos anos 1980, dentro de casa, Luana sempre recebeu “injeções” de autoestima e preocupação com as injustiças sociais de seus familiares, o que acabou despertando nela um senso de direção, propósito e empoderamento.
Seus pais foram os responsáveis por fomentar a sua consciência social, levando-a, por exemplo, ao cinema para assistir a filmes como Malcom X e Faça a coisa certa, de Spike Lee, e comprando fitas cassetes em bancas de jornal para que a filha pudesse aprender inglês e, consequentemente, ter mais oportunidades na vida.
Seu primeiro contato com a tecnologia, inclusive, veio por meio de seu pai, que comprou um computador quando o acesso à internet ainda engatinhava no Brasil. Aos 19 anos, já emancipada para trabalhar, Luana iniciou sua carreira na Hewlett Packard (HP) como engenheira de software, passando rapidamente a gerente de projetos.
Contudo, após uma década no setor de tech, Luana percebeu que precisava de outras ferramentas para combater as injustiças sociais que a incomodavam desde a infância. Foi então que decidiu mudar sua trajetória profissional. “Decidi estudar economia num momento de lucidez em que me dei conta que precisava dominar as linguagens do poder e economia era uma delas”, conta.
Sua jornada acadêmica e profissional a levou para o mestrado na Inglaterra e o doutorado na Escócia, onde desenvolveu um modelo econômico para as cotas raciais antes mesmo da lei de cotas no Brasil. Logo após seu doutorado, Luana começou a trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), onde fez carreira como economista, liderando projetos de desenvolvimento social.
Após uma carreira consolidada no BID, Luana foi morar no Qatar, onde abriu sua própria empresa de desenvolvimento econômico. Posteriormente, foi para a Noruega, acompanhar o marido em sua oportunidade de trabalho, quando o iFood “a encontrou”, como gosta de contar. “Digo que me encontrou porque realmente não estava buscando uma posição de executiva. Era CEO da minha própria empresa, estava crescendo”, diz.
Luana enfatiza que ficou surpresa com o convite porque achava que não tinha nada a ver com o modelo de negócio da empresa, que, segundo ela, se provou o contrário. “Descobri pelo próprio CEO que o iFood, na verdade, era um laboratório de inovação social, porque era um ecossistema gigante, com a possibilidade de testar soluções para problemas complexos do Brasil, como a informalidade, a educação e a saúde para trabalhadores plataformizados”, complementa.
Além de continuar sua missão como CSO e vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, para o futuro, Luana pretende retomar a Black Women Investment Network, projeto que criou ao lado de uma sócia para aproximar mulheres negras interessadas em investir e construir patrimônio de forma coletiva.
A iniciativa se inspira na história das “ganhadeiras” do Recôncavo Baiano, mulheres que, por meio do próprio trabalho e da poupança, compravam alforrias e fortaleciam suas comunidades. “Somente conseguiremos progredir como população negra quando pudermos ter uma massa significativa de pessoas que consigam fazer isso e puxar outras pessoas”, frisa.
Meio & Mensagem — Em um mercado que ainda tem poucas mulheres, especialmente negras, em posições de alta liderança, quais foram os principais desafios que você enfrentou para chegar aonde está?
Luana Ozemela — Em 2013, visitei um estado do Nordeste, na capacidade de líder de um projeto de desenvolvimento social que buscávamos implementar. Eu era líder da missão e estava junto comigo os dois chefes de divisões do banco. Chegamos no escritório desse secretário, nos sentamos e comecei uma apresentação de cinco minutos falando sobre por que esse projeto era importante para o Estado e para o Brasil. Ao falar um pouco dos desafios econômicos sociais da região, mencionei que o Estado tem quase 70% de pessoas negras, o que inclui pretos e pardos. Ele me para na hora e me diz: “Aqui não tem negro”. Olhei para o meu chefe, para outra chefe de divisão, só dei um sorrisinho de lado de boca e disse: “Secretário, tem sim. São pretos e pardos”. Tentei tratar o tema de uma maneira mais leve, sem constranger ninguém. Enquanto apresentava, entraram na sala duas pessoas, um senhor negro, retinto, para servir o café, e uma senhora indígena para limpar a sala. Ou seja, as pessoas negras naquele Estado são invisíveis. E, quando terminei minha apresentação, o secretário falou: “Tu não é brasileira”. Eu disse: “Sou, sim”. E ele queria argumentar comigo que eu não era. Conto essa história porque esse foi o formato de racismo, discriminação e desafios que enfrentei na minha carreira, que não é o racismo de dar murro, de chamar de feia, preta, de cabelo ruim. O que me feriu sobre vários ângulos internos e externos é essa subestimação das minhas capacidades. Esse é o tipo de discriminação que vivemos no mundo corporativo.
M&M — O que diria para a nova geração de mulheres que sonha em ser líder?
Luana — Dominem a linguagem do poder, mas não percam de vista a sua humanidade. É ela que faz com que nos importemos. A linguagem do poder é a que nos dá o pragmatismo para obter os resultados daquilo que temos humanidade e com que nos importamos. Se somos humanos e nos importamos com as injustiças sociais, precisamos também ter o pragmatismo para operar da mesma maneira que operamos finanças nos temas de justiça social. É pegar emprestado o pragmatismo, não desassociar e dizer: “Aquela galerinha lá que pensa na justiça social, deixa eles fazendo o trabalho deles e deixa aqui o CFO fazendo o dele”. Aqui, não. Absolutamente 100% das vice-presidências, de todo C-level, têm metas de diversidade. Todo mundo tem a sua, porque cada um está numa jornada diferente. Tem áreas que já ultrapassaram as metas, outras estão mais atrás e precisam trabalhar. O que diria para as meninas do futuro é: não percam a sua humanidade, aprendam a linguagem do poder e usem as duas de maneira combinada para promover a transformação social que querem.