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Luana Ozemela: liderar para transformar

VP de impacto e sustentabilidade do iFood acredita que mudar a sociedade exige dominar as estruturas de poder

i 5 de agosto de 2026 - 8h41

(Crédito: Arthur Nobre)

CSO e vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood (Crédito: Arthur Nobre)

Natural de uma região periférica de Porto Alegre, Luana Ozemela cresceu em um círculo familiar extremamen­te intelectualizado e politizado. “Discutíamos em casa desde temas como apartheid na África do Sul, até segregação nos Estados Unidos”. Apesar de viver em um contexto marcado pelo racismo escancarado e por grandes desigualdades sociais da cidade gaúcha nos anos 1980, dentro de casa, Luana sempre recebeu “injeções” de autoestima e preocupação com as injustiças sociais de seus fami­liares, o que acabou despertando nela um senso de direção, propósito e empoderamento.

Seus pais foram os responsáveis por fomentar a sua consciência social, levando-a, por exemplo, ao cinema para assistir a filmes como Malcom X e Faça a coisa certa, de Spike Lee, e compran­do fitas cassetes em bancas de jornal pa­ra que a filha pudesse aprender inglês e, consequentemente, ter mais oportuni­dades na vida.

Seu primeiro contato com a tecnolo­gia, inclusive, veio por meio de seu pai, que comprou um computador quando o acesso à internet ainda engatinhava no Brasil. Aos 19 anos, já emancipada para trabalhar, Luana iniciou sua carreira na Hewlett Packard (HP) como engenheira de software, passando rapidamente a gerente de projetos.

Contudo, após uma década no setor de tech, Luana percebeu que precisava de outras ferramentas para combater as injustiças sociais que a incomodavam desde a infância. Foi então que decidiu mudar sua trajetória profissional. “Decidi estudar economia num momento de lucidez em que me dei conta que preci­sava dominar as linguagens do poder e economia era uma delas”, conta.

Sua jornada acadêmica e profissional a levou para o mestrado na Inglaterra e o doutorado na Escócia, onde desenvol­veu um modelo econômico para as cotas raciais antes mesmo da lei de cotas no Brasil. Logo após seu doutorado, Luana começou a trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), onde fez carreira como economista, lideran­do projetos de desenvolvimento social.

Após uma carreira consolidada no BID, Luana foi morar no Qatar, onde abriu sua própria empresa de desenvolvimen­to econômico. Posteriormente, foi pa­ra a Noruega, acompanhar o marido em sua oportunidade de trabalho, quando o iFood “a encontrou”, como gosta de contar. “Digo que me encontrou por­que realmente não estava buscando uma posição de executiva. Era CEO da minha própria empresa, estava crescendo”, diz.

Luana enfatiza que ficou surpresa com o convite porque achava que não tinha nada a ver com o modelo de negócio da empresa, que, segundo ela, se provou o contrário. “Descobri pelo próprio CEO que o iFood, na verdade, era um la­boratório de inovação social, porque era um ecossistema gigante, com a possibili­dade de testar soluções para problemas com­plexos do Brasil, co­mo a informalidade, a educação e a saúde para trabalhadores plataformizados”, complementa.

Além de continuar sua missão como CSO e vice-presidente de impacto e sustentabilidade do iFood, para o futuro, Luana preten­de retomar a Black Women Investment Network, projeto que criou ao lado de uma sócia para aproximar mulheres ne­gras interessadas em investir e construir patrimônio de forma coletiva.

A iniciativa se inspira na história das “ganhadeiras” do Recôncavo Baiano, mu­lheres que, por meio do próprio traba­lho e da poupança, compravam alforrias e fortaleciam suas comunidades. “Somente conseguiremos progredir como população negra quando pudermos ter uma massa significativa de pessoas que consigam fazer isso e puxar outras pessoas”, frisa.

Meio & Mensagem — Em um mer­cado que ainda tem poucas mulhe­res, especialmente negras, em po­sições de alta liderança, quais fo­ram os principais desafios que você enfrentou para chegar aonde está? 

Luana Ozemela — Em 2013, visitei um estado do Nordeste, na capacidade de líder de um projeto de desenvolvimento social que buscávamos implementar. Eu era líder da missão e estava junto comi­go os dois chefes de divisões do banco. Chegamos no escritório desse secretá­rio, nos sentamos e comecei uma apre­sentação de cinco minutos falando so­bre por que esse projeto era importan­te para o Estado e para o Brasil. Ao falar um pouco dos desafios econômicos so­ciais da região, mencionei que o Esta­do tem quase 70% de pessoas negras, o que inclui pretos e pardos. Ele me para na hora e me diz: “Aqui não tem negro”. Olhei para o meu chefe, para outra chefe de divisão, só dei um sorrisinho de lado de boca e disse: “Secretário, tem sim. São pretos e pardos”. Tentei tratar o tema de uma maneira mais leve, sem constranger ninguém. Enquanto apresentava, en­traram na sala duas pessoas, um senhor negro, retinto, para servir o café, e uma senhora indígena para limpar a sala. Ou seja, as pessoas negras naquele Estado são invisíveis. E, quando terminei mi­nha apresentação, o secretário falou: “Tu não é brasileira”. Eu disse: “Sou, sim”. E ele queria argumentar comigo que eu não era. Conto essa história por­que esse foi o formato de racismo, dis­criminação e desafios que enfrentei na minha carreira, que não é o racismo de dar murro, de chamar de feia, preta, de cabelo ruim. O que me feriu sobre vá­rios ângulos internos e externos é essa subestimação das minhas capacidades. Esse é o tipo de discriminação que vive­mos no mundo corporativo.

M&M — O que diria para a nova ge­ração de mulheres que sonha em ser líder?

Luana — Dominem a linguagem do poder, mas não percam de vista a sua hu­manidade. É ela que faz com que nos importemos. A linguagem do poder é a que nos dá o pragma­tismo para obter os resultados daquilo que temos humanidade e com que nos importamos. Se somos humanos e nos importamos com as injustiças sociais, precisamos também ter o pragmatismo para operar da mesma maneira que operamos finanças nos temas de justiça so­cial. É pegar emprestado o pragmatismo, não desassociar e dizer: “Aquela galerinha lá que pensa na justiça social, dei­xa eles fazendo o trabalho deles e dei­xa aqui o CFO fazendo o dele”. Aqui, não. Absolutamente 100% das vice-presidências, de todo C-level, têm metas de diversidade. Todo mundo tem a sua, porque cada um está numa jornada diferente. Tem áreas que já ultrapassaram as metas, outras estão mais atrás e precisam trabalhar. O que diria para as meninas do futuro é: não percam a sua humanidade, aprendam a linguagem do poder e usem as duas de maneira com­binada para promover a transformação social que querem.