Thais Hagge: “Chegar não é o mesmo que ocupar”
Executiva da Unilever revisita jornada e explica por que curiosidade e aprendizado são fundamentais para ela

Thais Hagge, presidente de beleza e bem-estar da Unilever na América Latina (Crédito: Arthur Nobre)
Apesar de estar há mais de uma década em uma mesma empresa, o comodismo definitivamente não define a carreira de Thais Hagge. Antes de tornar-se presidente de beleza e bem-estar da Unilever América Latina, a executiva passou por diversos cargos e setores da companhia, inclusive, atuando por duas oportunidades fora do Brasil.
Natural da Mooca, tradicional bairro da capital paulista, irmã mais velha de três irmãos e mãe de dois meninos, sempre foi interessada em entender a lógica por trás das coisas. Foi justamente por isso que decidiu cursar engenharia, o que acabou levando-a ao programa de estágio na área técnica de desenvolvimento de embalagens da Unilever por recomendação de um professor.
No entanto, mais realmente encontrou sua vocação após participar de uma feira de negócios por meio de um projeto de marketing. “A engenharia me deu toda a base do pensamento, mas não queria só área técnica, sentia essa necessidade de olhar para o negócio, de conectar, de entender o consumidor”, revela.
Com isso, em 2006, a executiva ingressou no programa de trainee da Unilever, iniciando sua ascensão meteórica na companhia, que a levaria a transitar por todas as divisões da multinacional, de alimentos a personal care e home care.
Todavia, o divisor de águas de sua trajetória profissional, de fato, aconteceu há pouco mais de dois anos, quando aceitou a proposta de ir para Londres, com toda sua família, como vice-presidente global de marketing de Seda e TRESemmé.
Depois de mais de 20 anos na Unilever Brasil, deixou um ambiente conhecido para atuar em um contexto global, lidando com mercados e culturas diferentes, especialmente asiáticos. A experiência, inicialmente cercada de incertezas, serviu para fortalecer sua abertura ao novo e sua disposição para assumir riscos calculados. “O incerto pode ser realmente uma surpresa incrível”, reforça.
Após a temporada em Londres, no início deste ano, retornou ao Brasil com uma bagagem cultural expandida e a certeza de que o País é um criador de tendências, não apenas um seguidor. Sob sua gestão, o foco está em gerar “desejo em escala”, especialmente em uma categoria tão aspiracional quanto a de beleza.
A trajetória demais na Unilever também foi marcada por momentos pessoais. Ela viveu duas importantes promoções próximas às suas licenças-maternidade. Em ambas, ressalta que recebeu apoio da liderança da companhia para se dedicar integralmente da companhia para se dedicar integralmente ao nascimento dos filhos. Inclusive, um desses momentos ocorreu durante a pandemia, quando precisou liderar uma nova equipe sem contato presencial.
A executiva conta que saiu dessa experiência com outra compreensão sobre tempo, empatia e presença. Segundo ela, a maternidade reforçou seu papel como referência para outras mulheres dentro da empresa. “Ainda recebo muitas mensagens de mulheres do time falando que ser uma mulher, mãe, que concilia, que consegue fazer as escolhas, representa muito para elas”.
Nesse contexto, Thais defende uma diferença fundamental entre “chegar” e “ocupar” espaços de liderança. Na sua visão, chegar a uma posição é uma conquista, um privilégio, mas ocupá-la de fato significa usar influência, visibilidade e poder de decisão para transformar estruturas, abrir portas e manter caminhos acessíveis para outras gerações.
Meio & Mensagem — Você sempre defende que “chegar não é o mesmo que ocupar” um espaço de liderança. Como transformar a sua conquista individual em uma mudança estrutural que abra caminho para outras mulheres?
Thais Hagge — Tem que ter intenção. Não dá para fazermos movimentos transformacionais se não existe uma intencionalidade muito forte por trás. A Unilever tinha essa intenção desde quando entrei na organização, de buscar mais mulheres em cargos de liderança, de trabalhar realmente por políticas que permitissem que isso acontecesse. Essa intenção existe dentro da organização, dentro de vários programas, mentorias para mulheres. Faço muito esse movimento, estou sempre mentorando mulheres. Mas existem movimentos estruturais da organização. Tem os grupos de afinidades, ou seja, os times se unem também para falar disso. Tem o movimento que mulheres também estão fazendo com o Código Delas, que é trabalhar com mulheres dentro do universo de tecnologia. Isso vai trazendo muita motivação para quem está aqui, mas, ao mesmo tempo, muita responsabilidade. Quando você é uma empresa que está em 100% dos lares brasileiros, eu falo para o time que a responsabilidade é proporcional à abrangência. Por meio das nossas ações para mulheres, não só para elas, mas dentro dessa transformação, as categorias permitem isso. Um dos movimentos de que gosto muito foi o que fizemos com a princesa Tiana, de soltar o cabelo da primeira princesa da Disney negra, mas que ainda tinha o cabelo preso. Trabalhar isso junto com a Disney vai muito além do seu papel de gestora de negócio, você está fazendo um movimento que impacta a sociedade. Esse é o grande desafio da gestão e da liderança atual, de realmente podermos usar o nosso espaço, influência e cadeira para fazer os movimentos que acreditamos serem necessários também.
M&M — Depois de alcançar uma das posições mais altas da Unilever na América Latina, o que ainda representa um desafio profissional para você?
Thais — A Unilever me dá possibilidades todos os dias de aprender algo novo. Diariamente estou fazendo algo diferente. Já trabalhei em alimentos muito tempo, em limpeza, com desodorantes. A relação que o consumidor tem com o produto é diferente. Hoje, no cargo que tenho, vai muito além disso, porque trabalho em diversas áreas. Então, posso ser uma especialista em uma delas, mas sou conhecedora de outras. Para mim, é poder liderar um país como o Brasil, terceiro maior mercado global da Unilever, com foco em desejo e em escala, sendo o Brasil super relevante para beleza, e ter marcas incríveis. Não vou falar que sempre é normal pensar que trabalho com Dove, Seda e TRESemmé. São marcas que sempre olhei e admirei. Falo isso muito para o meu time e para os meus filhos, inclusive: Não podemos perder a capacidade de nos surpreender todos os dias. Principalmente quando vamos vivendo algumas coisas, vamos começando a achar que elas são normais. Isso que faz esse desafio ser renovado em todos os momentos.