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Thais Hagge: “Chegar não é o mesmo que ocupar”

Executiva da Unilever revisita jornada e explica por que curiosidade e aprendizado são fundamentais para ela

i 5 de agosto de 2026 - 8h11

Thais Hagge, presidente de beleza e bem-estar da Unilever na América Latina (Crédito: Arthur Nobre)

Thais Hagge, presidente de beleza e bem-estar da Unilever na América Latina (Crédito: Arthur Nobre)

Apesar de estar há mais de uma década em uma mesma empresa, o comodismo definitivamente não define a carreira de Thais Hagge. Antes de tornar-se presi­dente de beleza e bem-estar da Unilever América Latina, a executiva passou por diversos cargos e setores da companhia, inclusive, atuando por duas oportunida­des fora do Brasil.

Natural da Mooca, tradicional bairro da capital paulista, irmã mais velha de três irmãos e mãe de dois meninos, sem­pre foi interessada em entender a lógica por trás das coisas. Foi justamente por isso que decidiu cursar engenharia, o que aca­bou levando-a ao programa de estágio na área técnica de desenvolvimento de em­balagens da Unilever por recomendação de um professor.

No entanto, mais realmente encontrou sua vocação após participar de uma feira de negócios por meio de um projeto de marketing. “A engenharia me deu toda a base do pensamento, mas não queria só área técnica, sentia essa neces­sidade de olhar para o negócio, de conec­tar, de entender o consumidor”, revela.

Com isso, em 2006, a executiva ingres­sou no programa de trainee da Unilever, ini­ciando sua ascensão meteórica na compa­nhia, que a levaria a transitar por todas as divisões da multinacional, de alimentos a personal care e home care.

Todavia, o divisor de águas de sua tra­jetória profissional, de fato, aconteceu há pouco mais de dois anos, quando aceitou a proposta de ir para Londres, com toda sua família, como vice-presidente global de marketing de Seda e TRESemmé.

Depois de mais de 20 anos na Unilever Brasil, deixou um ambiente conhe­cido para atuar em um contexto global, lidando com mercados e culturas diferen­tes, especialmente asiáticos. A experiência, inicialmente cercada de incerte­zas, serviu para fortalecer sua abertura ao novo e sua disposição para assumir riscos calculados. “O incerto pode ser realmente uma surpresa incrível”, reforça.

Após a temporada em Londres, no iní­cio deste ano, retornou ao Brasil com uma bagagem cultural expandida e a cer­teza de que o País é um criador de tendên­cias, não apenas um seguidor. Sob sua ges­tão, o foco está em gerar “desejo em escala”, especialmente em uma cate­goria tão aspiracional quanto a de beleza.

A trajetória demais na Unilever também foi marcada por momentos pessoais. Ela viveu duas importantes promoções pró­ximas às suas licenças-maternidade. Em ambas, ressalta que recebeu apoio da liderança da com­panhia para se dedicar in­tegralmente da com­panhia para se dedicar in­tegralmente ao nascimento dos filhos. Inclusive, um desses momentos ocor­reu durante a pandemia, quando precisou liderar uma nova equipe sem contato presencial. 

A executiva conta que saiu dessa experiência com outra compreensão sobre tempo, empatia e presença. Segundo ela, a maternidade reforçou seu papel co­mo referência para outras mulheres dentro da empresa. “Ainda recebo muitas mensa­gens de mulheres do time falando que ser uma mulher, mãe, que concilia, que con­segue fazer as escolhas, representa mui­to para elas”.

Nesse contexto, Thais defende uma diferença fundamental entre “chegar” e “ocupar” espaços de liderança. Na sua visão, chegar a uma posição é uma con­quista, um privilégio, mas ocupá-la de fa­to significa usar influência, visibilidade e poder de decisão para transformar es­truturas, abrir portas e manter caminhos acessíveis para outras gerações.

Meio & Mensagem — Você sempre defende que “chegar não é o mes­mo que ocupar” um espaço de lide­rança. Como transformar a sua con­quista individual em uma mudança estrutural que abra caminho para outras mulheres?

Thais Hagge — Tem que ter intenção. Não dá para fazermos movimentos transformacionais se não existe uma intencionalidade muito forte por trás. A Unilever tinha essa intenção desde quando entrei na organização, de buscar mais mulhe­res em cargos de liderança, de trabalhar realmente por políticas que permitissem que isso acontecesse. Essa intenção exis­te dentro da organização, dentro de vários programas, mentorias para mulheres. Faço muito esse movimento, estou sem­pre mentorando mulheres. Mas existem movimentos estruturais da organização. Tem os grupos de afinidades, ou seja, os times se unem também para falar disso. Tem o movimento que mulheres também estão fazendo com o Código Delas, que é tra­balhar com mulheres dentro do univer­so de tecnologia. Isso vai trazendo mui­ta motivação para quem está aqui, mas, ao mesmo tempo, muita responsabilida­de. Quando você é uma empresa que está em 100% dos lares brasileiros, eu falo pa­ra o time que a responsabilidade é pro­porcional à abrangência. Por meio das nossas ações para mulheres, não só pa­ra elas, mas dentro dessa transfor­mação, as categorias permitem isso. Um dos movimentos de que gosto muito foi o que fizemos com a princesa Tiana, de soltar o cabelo da primeira princesa da Dis­ney negra, mas que ainda tinha o cabelo preso. Trabalhar isso junto com a Disney vai muito além do seu papel de gestora de negócio, você está fazendo um movi­mento que impacta a sociedade. Esse é o grande desafio da gestão e da liderança atual, de realmente podermos usar o nosso espaço, influência e cadeira para fazer os movimentos que acreditamos serem necessários também.

M&M — Depois de alcançar uma das posições mais altas da Unilever na América Latina, o que ainda represen­ta um desafio profissional para você?

Thais — A Unilever me dá possibilidades todos os dias de aprender algo novo. Dia­riamente estou fazendo algo diferente. Já trabalhei em alimentos muito tempo, em limpeza, com desodorantes. A relação que o consumidor tem com o produto é dife­rente. Hoje, no cargo que tenho, vai muito além disso, porque trabalho em diversas áreas. Então, posso ser uma especialista em uma delas, mas sou conhecedora de outras. Para mim, é poder lide­rar um país como o Brasil, terceiro maior mercado global da Unilever, com foco em desejo e em escala, sendo o Brasil super re­levante para beleza, e ter marcas incríveis. Não vou falar que sempre é normal pensar que trabalho com Dove, Seda e TRESemmé. São marcas que sem­pre olhei e admirei. Falo isso muito para o meu time e para os meus filhos, inclu­sive: Não podemos perder a capacidade de nos surpreender todos os dias. Princi­palmente quando vamos vivendo algumas coisas, vamos começando a achar que elas são normais. Isso que faz esse desafio ser renovado em todos os momentos.