Ionah Kochen e a evolução do marketing no Brasil
Da medicina aos negócios, executiva revisita as escolhas que a levaram à liderança e reflete sobre novo papel do CMO

Ionah Kochen, vice-presidente de marketing e comunicação da Nestlé Brasil (Crédito: Arthur Nobre)
Ionah Kochen está onde sempre sonhou. Há quatro anos respondendo como vice-presidente de marketing e comunicação da Nestlé no Brasil, sua trajetória na multinacional suíça é longa.
Ela ingressou na empresa no início da carreira, como trainee na área de marketing — processo que ela patrocina, internamente, até hoje — e exerceu funções em diversos negócios e categorias até integrar o grupo da diretoria da Nestlé, à frente da unidade de Nutrição Infantil, core da companhia.
Além da responsabilidade de posicionar marcas, produtos e serviços, Ionah tem sob seu guarda-chuva, ainda, a comunicação corporativa, voltada para a reputação, e o ESG. Seu percurso comprova que carreiras são feitas de grandes decisões e que, nem sempre, são lineares.
Ionah vem de uma família de imigrantes de guerra, de quem herdou a resiliência, humildade, a vontade de ser incansável e, acima de tudo, a paixão pela vida. Sua ambição, inicialmente, era seguir os passos do pai na pediatria. Chegou a iniciar o curso de medicina, mas, ao final do segundo ano da graduação, optou por migrar para administração, na Fundação Getúlio Vargas (FGV), uma formação mais generalista, que permite o aprendizado e o teste de diversas vias de atuação, diz.
Mas foi no marketing que ela encontrou a conexão como pessoa e profissional. Hoje, ela assiste e protagoniza a importância crescente que a disciplina vem exercendo sobre os negócios globalmente. Somadas aos desafios enfrentados ao longo do caminho, a executiva reconhece as dificuldades da travessia enquanto mulher, em meio à busca pelo utópico equilíbrio, como classifica, entre vida pessoal e corporativa.
“Para ter uma carreira longeva, é preciso um ganha-ganha e querer ser desafiada. Sempre fui muito movida pela curiosidade, fui construindo um repertório que me permitiu, em muitos momentos, ser escolhida para uma nova função e estar apta a fazê-la. Não preparada. São duas coisas diferentes”, defende Ionah.
Diante da imprevisibilidade do futuro, Ionah volta o olhar para o presente. “Quando se deixa uma marca, sempre tem alguém olhando ou se traz uma nova inspiração para que outras pessoas deem um próximo passo”, comenta. Questionada, então, sobre as expectativas para os passos seguintes, a executiva saúda o mesmo entusiasmo que a trouxe até onde está e exalta a vontade de seguir sendo inspirada e servindo como inspiração.
Meio & Mensagem — Quais são as demandas mais latentes dos CMOs diante da relevância crescente da cadeira, sobretudo diante dos Conselhos de Administração?
Ionah Kochen — É uma cadeira que teve uma transformação muito importante e fico muito feliz de estar vivendo esse processo. Foram quatro anos que valeram por muito mais. O marketing deixou de ser fazer uma bela campanha e veicular em um canal com uma cobertura muito grande, falando também com quem não está interessado na mensagem. Viramos um orquestrador dessa intersecção da tecnologia com a arte, que abraça o design, o craft, a humanização e a criatividade, por um lado, mas, por outro, existem os dados e a tecnologia para conhecer mais a fundo o consumidor. Temos plataformas das mais diversas para distribuir a mensagem. Quando se junta tudo para ter um resultado e um impacto visível nos negócios, é isso que se tornou o CMO: um grande orquestrador desse ecossistema, que, hoje, também tem a influência. É uma matéria que trabalhamos na Nestlé já há muitos anos, mas que estamos aprendendo cada vez mais, e montamos um ecossistema poderoso sobre isso. É muito interessante ter passado por essa transformação e ver como o CMO se tornou uma figura importante na decisão de growth, como parceiro do CFO da companhia, para indicar os caminhos de impacto do marketing para gerar demanda e crescimento.
M&M — As outras áreas já têm entendido o papel e o peso da disciplina sobre os objetivos de negócios?
Ionah — Com certeza, houve uma evolução também desse entendimento e das parcerias que se tornaram necessárias entre o CMO, o CFO e até o CTO, porque tecnologia está entrando no debate. Existem zonas nebulosas entre essas cadeiras, no bom sentido. A formação de um CMO passa por também entender de tecnologia, de inteligência artificial (IA), de impacto financeiro sobre o negócio, de modelos econométricos que guiam para o melhor investimento. Esse entendimento está cada vez mais relevante e importante nas empresas.
M&M — O que torna o marketing uma área tão importante e poderosa para articular outras áreas e temas, como a comunicação corporativa e o ESG?
Ionah — O meu papel é conectar estratégia, inovação, reputação, crescimento, tecnologia e impacto positivo sobre a sociedade. É um monte de coisas, mas que estão muito conectadas. É por esse motivo que cabe tudo embaixo desse chapéu. Falamos do marketing e da conexão real com o consumidor através das marcas, das histórias e do cuidado que temos com a sociedade, com a sustentabilidade. Hoje, contamos uma história de Nescafé e colocamos em uma embalagem as pessoas que produzem esse café para nós e nas quais investimos. Fazemos iniciativas como estimular os jovens, que, às vezes, saem do campo e vão estudar fora, para que retornem e tragam os conhecimentos de volta para o campo. Temos histórias que reforçam as marcas e mostram a nossa vontade de estar aqui por mais 100 anos — nós já estamos há 104 no Brasil —, ou seja, de sermos sustentáveis e termos impacto positivo na sociedade. Tudo isso está muito conectado.