Casas Bahia e Marabraz: o que levou o varejo à crise?
Companhias citam a deterioração do cenário macroeconômico, com alta da taxa de juros e endividamento recorde
Nos últimos dias, Casas Bahia e Lojas Marabraz, duas varejistas brasileiras, protocolaram na Justiça de São Paulo pedidos de recuperação judicial para reorganização de suas obrigações financeiras.

(Crédito: roberto-resston-fo-shutterstock-rafaelnlins-adobestock)
De um lado, o Grupo Casas Bahia busca renegociar um passivo de aproximadamente R$17,3 bilhões a serem pagos a bancos, fundos de investimentos, seguradoras, fornecedores, além de aluguéis e dívidas trabalhistas. O pedido se estende também às subsidiárias do grupo.
Em comunicado, o Grupo descreve o pedido como uma nova etapa de sua reorganização e da “Fase 2 do Plano de Transformação” que já envolveu o fechamento de 298 lojas e redução estrutural de custos e despesas. Agora, a companhia prevê uma revisão dos canais digitais, adequação dos estoques e capital de giro, menores investimentos e busca por alternativas de diminuição do custo financeiro.
Do outro lado, o pedido da Marabraz também envolve cinco empresas do grupo e pretende renegociar cerca de R$ 140 milhões em dívidas. Em comum, as duas companhias citam uma deterioração do cenário macroeconômico que pressionaria o varejo.
Quais os desafios macroeconômicos?
Mas, o que configura esse cenário? Os especialistas explicam que o Brasil vive um período prolongado de alta de juros que impacta o setor em duas dimensões. Primeiro, ele deixa o crédito mais caro e dificulta o acesso para o consumidor a bens que dependem de financiamento, como eletrodomésticos, móveis e eletrônicos.
“Com o orçamento apertado, esse consumidor recua e o varejo sente o impacto em dois lados: menos volume de vendas e margens mais comprimidas, forçadas por promoções para não perder o cliente de vez”, explica Vera Bermudo, conselheira, professora na FGV e cofundadora do Wakaro.
O crédito mais caro também dificulta o financiamento de expansões, capital de giro ou a própria concessão de crédito ao cliente. Alberto Serrentino, consultor e fundador da Varese Retail, defende que o varejo brasileiro não está tecnicamente em crise, mas vive um longo ciclo de baixo crescimento.
“Elas não conseguem sustentar uma estrutura de capital saudável com um custo financeiro que, muitas vezes, é superior à capacidade de geração de caixa. Isso está colocando muitas empresas em situação crítica e levando a reestruturações e recuperações extrajudiciais e judiciais, quando realmente não tem como gerar liquidez para girar o negócio”, aponta Serrentino.
Ele cita, ainda, outros fatores como o avanço das plataformas de apostas que drenariam parte da renda discricionária das famílias e a retirada da tributação das plataformas cross-border, o fim da “taxa das blusinhas”.
Em junho, na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, divulgada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, oito em cada dez famílias brasileiras relataram estar endividadas.
“Com 82% das famílias endividadas e quase 30% da renda comprometida, o consumidor não parou de desejar. Ele passou a adiar. E adiamento em eletro e móveis é fácil, porque geladeira velha ainda gela e sofá gasto ainda senta. Categoria de reposição adiável é a primeira a sair do carrinho”, analisa Felipe Wasserman, professor de varejo da ESPM e diretor de marketing da Skyone.
Eficiência operacional e margens baixas
Porém, os gargalos das varejistas não são só internos e passam pela organização dos seus negócios. A professora da FGV aponta que operar com margens de lucro baixas é uma característica do setor, o que torna a eficiência operacional uma questão de sobrevivência.
Outro ponto crítico seria a parcimônia nos investimentos. “Existe uma corrida para ser o maior, quando raramente isso significa ser o mais saudável financeiramente. Expandir em um cenário de juros altos exige que a decisão esteja fortemente ancorada em dados, e o mercado peca aqui com reincidência”, destaca Bermudo.
Outra questão central seria a ascensão dos modelos de e-commerce e marketplace que mudou o comportamento do consumidor e alterou, em definitivo, a competição no varejo.
“Varejistas com operação predominantemente física precisam adaptar seus modelos e essa transformação tem custo. Quem postergou esse movimento ficou exposto em dois flancos ao mesmo tempo: margem pressionada e relevância em declínio”, aponta a professora.
O impacto da recuperação judicial na reputação
Se aceito, o pedido de recuperação judicial dá às companhias um prazo de 180 dias de suspensão das cobranças e execuções. Nesse período, a empresa precisa apresentar seu plano de recuperação com fiscalização judicial.
Além da operação, ele afeta a confiança do consumidor na marca e sua capacidade de cumprir com os seus acordos. Para Wasserman, nesse cenário, o branding funciona como um ativo valioso.
“Décadas de jingle, de personagem, de presença na sala de estar das famílias brasileiras criaram um saldo emocional que nenhum concorrente compra com verba de mídia. Esse saldo é real e é o que permite que o consumidor considere dar mais uma chance”, descreve o professor de varejo da ESPM.
Mas, seria preciso entender a mecânica. O consultor defende que, em uma recuperação judicial, retenção é mais importante que a aquisição de novos clientes. “Reativar quem já comprou custa uma fração do que custa convencer um cético e comunica muito mais para o mercado. Cliente que volta é a prova social que nenhum comunicado ao mercado consegue produzir”, resume Wasserman.

