A trajetória nada linear de Gláucia Montanha
Da venda de coco à liderança da Artplan São Paulo, executiva conta como transformou empregabilidade em carreira

Gláucia Montanha, CEO da Artplan São Paulo e da Convert Digital Business (Crédito: Arthur Nobre)
CEO de uma das principais agências estão dentro do Grupo Dreamers, a Artplan, Gláucia Montanha não teve uma trajetória linear no seu desenvolvimento como profissional. Pensava primeiro na empregabilidade e em como melhorar ocupando essas cadeiras.
Sua empreitada profissional começou cedo, vendo o exemplo da mãe, e em busca de realizar seus sonhos. Aos 15 anos, começou a vender coco na rua visando quitar uma dívida e pagar seus estudos. Na ocasião, no Parque Buenos Aires, em Higienópolis, era onde encontrava os clientes e o local que a observava conciliar todas as suas tarefas, incluindo o trabalho como recepcionista à tarde e os estudos à noite.
Foi com essas credenciais que Gláucia começou a estudar, primeiro fazendo processamento de dados, em um colégio técnico, depois administração hospitalar, nessa época já trabalhando na Associação Paulista de Medicina (APM), e depois focando apenas em administração.
“Nunca pensei em carreira e isso é um divisor para mim. Quando as pessoas precisam de emprego, elas focam em empregabilidade, mas eu mal sabia que isso me ajudaria a construir uma carreira”, diz.
A mudança de área, de administração para comunicação social, também aconteceu de forma não linear. Durante uma prova, ela ficou frustrada por não ter uma calculadora HP, que era um equipamento caro e necessário para a disciplina, e pediu à secretaria da faculdade um curso que não exigisse o uso desse aparelho. Nesse momento, Gláucia ainda não sabia o quanto a publicidade já estava inserida em seu dia a dia como profissional.
Sua iniciação no ramo foi antes mesmo de entrar na faculdade, quando ainda produzia o Guia de Desconto da APM. Na época, Gláucia ligava para as empresas e oferecia anúncios.
Mas foi na Young & Rubicam que ela olhou pela primeira vez para um plano de carreira quando recebeu um convite para ser assistente de mídia na Bates Brasil, que estava em processo de fusão com a agência. “Quando comecei em mídia, não era para olhar planilha e audiência. Quando cheguei na publicidade, ia na criação, vivia nas áreas e foi essa inquietude que me trouxe do começo ao fim do negócio”, diz.
A executiva relembra como sua trajetória a ajudou a construir sua formação como publicitária e como líder. “Vender coco para pagar as contas me trouxe um pouco da realidade de olhar para quem eu quero vender e com quem eu quero falar”, completa.
Meio & Mensagem — Ao longo de sua trajetória, você teve o apoio fundamental de outras mulheres para subir. Pode contar um pouco sobre essas profissionais e o papel de redes de mentoria femininas?
Gláucia Montanha — Foi um homem que me deu uma oportunidade no mercado, mas foram as mulheres que me acolheram. Quando penso sobre isso, tem uma generosidade muito grande. Quando cheguei na empresa, foram as meninas que viram que eu não entendia muito e me acolheram, me ensinavam, me explicavam. Elas tiveram um papel de formação e acolhimento muito importante na minha carreira. Dificilmente você vê uma mulher que não se conecta com a história de outra, que venha de luta. Você pode até não conhecer a pessoa que está ali trabalhando, mas quando conhece a história dela, passa a ter um olhar mais generoso. Isso é uma característica feminina. Eu tive a sorte de conhecer duas que me acolheram desde o dia zero em publicidade. Quando voltei para agência, dava a entender que sabia muito sobre aquele universo, não cheguei vendida. Meu chefe achou que recebeu uma assistente formada. Quando ele falava “hoje faremos OOH”, eu ligava para as meninas, perguntava e elas me orientavam. As mulheres foram muito importantes na minha carreira.
M&M — Como avalia seu papel na formação de novas líderes?
Gláucia — Para mim, há duas grandes responsabilidades nessa cadeira: a primeira sempre será impulsionar novas profissionais. Você vai crescendo na carreira e acaba se distanciando do dia a dia. Estou sempre tentando entender quem são essas pessoas e, a cada reunião, faço questão de dar voz para elas. Quero ouvi-las. Mas existe um outro lado que foi despontando, tão forte quanto uma liderança, que é não deixar as mulheres desaparecerem das conversas. São coisas diferentes. Uma coisa é tentar desenvolver alguém cada vez mais, outro aspecto é estar atenta em um mercado que ainda é muito masculino, sobre como as mulheres estão sendo tratadas. Existem várias cenas da minha carreira em que eu chamei as pessoas e falei: “Precisamos ter uma conversa, você aumentou a voz e em uma gestão feminina isso é inadmissível”. Não há explicação quando uma voz masculina fala mais alto que uma voz feminina. Tenho o dever de cuidar delas, porque pensamos muito no desenvolver, mas não posso me distanciar do acolher. Parece a mesma coisa, mas não é. Precisamos nos incomodar e não achar que chegamos a um equilíbrio. Em alguns momentos, o mercado passava tantos dados e, obviamente, porque precisava passar, e deu a sensação de que chegamos lá. Precisamos, de fato, estar mais atentos. As mulheres estão chegando lá, mas ainda não lideramos os primeiros layers. Quando olhamos para isso, existe um movimento que é entender que estamos em um processo evolutivo. Isso muda a forma como você começa a enxergar as coisas. Precisamos trazer mais mulheres e subir. Somos tão gratas por onde chegamos. Sabe quando você olha para trás e lembra que muitas mulheres não tiveram condições? Somos tão gratas que, às vezes, não percebemos que isso ainda é o começo de um grande movimento.
M&M — Qual foi um episódio que te marcou muito na sua trajetória?
Gláucia — Tenho situações que foram muito bacanas. Quando fui atender uma marca de pneu, a diretora de marketing na época era uma mulher. Já quando atendi a categoria de cerveja, me deparei com um homem e uma mulher ao lado. Foi gratificante olhar categorias que seriam estritamente masculinas terem mulheres dominando o assunto. São coisas que marcaram a minha carreira. Ao mesmo tempo, tive situações em ambientes muito masculinos em que, quando uma mulher tinha uma opinião, ela não valia.