Por que a liderança feminina está tão exausta?
Além da dupla jornada, mulheres líderes enfrentam cobranças e expectativas que ampliam a sobrecarga e o risco de burnout
Em 2025, o Brasil registrou mais de 500 mil afastamentos do trabalho por questões de saúde mental, dos quais mais de 60% foram de mulheres, segundo dados do Ministério da Previdência Social/INSS. A faixa etária mais afetada foi a dos 40 aos 49 anos, sendo a média de idade dos afastados de 41 anos. Em outra pesquisa, Women in the Workplace de 2025, da McKinsey, 60% das mulheres em nível sênior relataram se sentir esgotadas, em comparação a 50% dos homens de mesmo nível.
Tais dados comprovam um cenário de exaustão da liderança feminina. Um dos motivos mais claros é o acúmulo de tarefas e responsabilidades das jornadas duplas e triplas que as mulheres enfrentam. A necessidade de cuidar da casa, dos filhos, por vezes dos pais, e ainda exercer o papel de liderança.
“Durante muito tempo, associamos competência feminina à capacidade de trabalhar, cuidar, acolher, resolver e permanecer disponível, sem demonstrar cansaço. Mas suportar continuamente condições insustentáveis não deveria ser considerado uma virtude”, reflete Tatiana Pimenta, CEO do Vittude.
Talvez elas nem sejam responsáveis pelas tarefas domésticas, mas é a necessidade de antecipar, planejar e administrar o cotidiano que exaure. “É um trabalho mental contínuo, invisível e que raramente entra nas discussões sobre desempenho e carreira”, acrescenta Tatiana.
De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), 708 milhões de mulheres no mundo estão fora do mercado de trabalho devido a tarefas de cuidado não remuneradas. “Estamos diante de modelos de trabalho, de cuidado e de poder que ainda distribuem de maneira profundamente desigual as responsabilidades, os recursos e o direito ao descanso”, continua Pimenta.
Gustavo Medeiros é médico psiquiatra, supervisor do ProDRAS (Programa de Depressão Resistente, Autolesão e Suicidalidade do Instituto de Psiquiatria da USP) e pesquisador colaborador da Universidade de São Paulo, e explica a razão deste cansaço: “Nosso sistema nervoso autônomo precisa de janelas de desativação, ou seja, momentos sem demanda ativa de atenção, para restaurar o equilíbrio do eixo hormonal do estresse e minimizar seus efeitos no corpo. Quando uma mulher alterna o dia inteiro entre ‘modo executiva’ e ‘modo cuidadora’, sem esse intervalo de recuperação, o corpo permanece em estado de ativação contínua, o que é deletério à saúde como um todo.”
Entre expectativas, julgamentos e responsabilidades
Para além das demandas de cuidado, existem ainda outros desafios que sobrecarregam as mulheres e muitas vezes não são percebidos. Um deles é a responsabilidade sobre o cuidado e o acolhimento não somente no ambiente privado, mas nos corporativos. “Quando existe uma mulher num cargo de liderança, é quase subentendido que ela vai resolver conflitos e acolher as dores das pessoas, mas isso não é algo reconhecido ou valorizado nas empresas”, pontua Diana Gabanyi, cofundadora e CEO da The School of Life Brasil.
Espera-se esta postura maternal sobre as lideranças femininas mesmo quando o ambiente não lhe é acolhedor. São modelos de trabalho que não contemplam as necessidades das mulheres quando, por exemplo, não oferecem horários flexíveis quando são mães. A mesma responsabilidade pelo cuidado que recai sobre elas frequentemente impacta oportunidades de crescimento profissional, e, por isso, elas precisam se provar capazes e ultrapassar os próprios limites para superar as expectativas. Por isso, o autoconhecimento é tão importante, avalia Diana. Apenas com o autoconhecimento as lideranças conseguem entender quando estão se aproximando de seus limites e, assim, evitar um burnout.
A pesquisa da McKinsey também mostra que as mulheres sêniores reportam maiores níveis de insegurança em relação ao trabalho (75%) que seus pares homens (69%). “O estresse de precisar provar competência repetidamente contribui para uma sensação de estar sendo constantemente monitorada, um estado de hipervigilância que consome muita energia mental e também favorece o desenvolvimento de problemas de saúde mental, incluindo o burnout”, afirma o Dr. Gustavo.
Existem ainda questões comportamentais como expectativas contraditórias e um escrutínio adicional que intensifica essa sensação de hipervigilância. “Elas precisam demonstrar firmeza, mas podem ser consideradas agressivas; precisam ser acolhedoras, mas essa disponibilidade emocional aumenta ainda mais sua carga; devem entregar resultados, desenvolver pessoas, promover inclusão e, muitas vezes, assumir atividades fundamentais para a cultura da empresa, mas pouco valorizadas nas decisões de promoção e remuneração”, destaca Tatiana.
“Muitas vezes ela tem uma necessidade de se impor e de se colocar que não atende à expectativa do que é esperado do comportamento feminino, e ela pode ser lida como grosseira ou dura. Diferente de um homem, que demonstra a mesmíssima postura e não é lido dessa maneira. Esse cálculo constante do que pode ser dito e como ser dito enquanto mulher é algo que sobrecarrega as mulheres de maneira geral”, adiciona Maíra Liguori, presidente na ONG Think Olga.

Maíra Liguori, presidente na ONG Think Olga (Crédito: Divulgação)
Outra pressão que recai sobre elas, principalmente em ambientes onde elas são minoria, é a responsabilidade por representar as mulheres dentro daquele espaço. “Existe também uma expectativa de que uma mulher líder faça a diferença para as outras mulheres da companhia. Claro que um dos papéis de um líder, homem ou mulher, é inspirar as suas equipes, mas isso se soma como mais uma obrigação para ela, que já está com tantas demandas. Ela já está lutando para conseguir permanecer nesse lugar e ainda precisa causar uma mudança cultural”, adiciona a presidente. Liguori ainda elenca o esvaziamento de propósito e a falta de acolhimento como outros aspectos que causam exaustão nestas lideranças.
Por fim, ainda existem os casos de violência doméstica, microviolências do próprio ambiente corporativo e o assédio, que acrescentam desafios para a saúde mental das mulheres. De acordo com o The School of Life, o assédio causa diferentes consequências para o indivíduo, como dores generalizadas, palpitações, distúrbios digestivos, dores de cabeça, hipertensão, ansiedade, alterações no sono, irritabilidade, isolamento, depressão, entre outros.
Consequências da exaustão feminina
De acordo com Tatiana Pimenta, existem impactos sobre a saúde de uma liderança, principalmente a mental. “A exposição prolongada a demandas excessivas, baixa autonomia, conflitos, discriminação, insegurança e ausência de apoio está associada ao agravamento do sofrimento psíquico e a quadros como ansiedade, depressão e burnout.”
“No burnout, há uma interação indivisível entre mente e corpo, com efeitos no corpo como um todo. O mecanismo central é uma desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, responsável por modular nossa resposta ao estresse. Essa alteração está relacionada a diversos problemas de saúde física, como maior vulnerabilidade cardiovascular, efeitos no sistema imunológico, problemas gastrointestinais, doenças metabólicas, entre outras”, acrescenta Medeiros.

Gustavo Medeiros, médico psiquiatra e pesquisador da USP (Crédito: Divulgação)
Um dos aspectos mais preocupantes, segundo o médico, é que as mulheres em posição de liderança costumam adiar a busca por ajuda por medo de serem interpretadas como frágeis e, quando chegam ao consultório, muitas vezes já apresentam um estágio avançado da doença.
Outro efeito que compromete as mulheres é a capacidade de tomar decisões. “Uma profissional exausta não decide apenas com base em seus desejos ou em seu potencial. Ela escolhe aquilo que consegue sustentar. Pode adiar a maternidade, abrir mão de uma oportunidade internacional, diminuir sua jornada, abandonar uma carreira construída durante anos ou aceitar posições inferiores à sua capacidade para preservar a própria saúde e a vida familiar”, afirma Tatiana.
Impactos corporativos
Esse cenário apresenta custos que ultrapassam a esfera da individualidade da mulher, impactando também a capacidade de liderar e, consequentemente, todo o time e a empresa. “A liderança influencia decisões, relações, clima, confiança, capacidade de inovação e segurança psicológica. Uma pessoa exausta pode apresentar maior dificuldade de concentração, redução da criatividade, menor capacidade de tomar decisões complexas, irritabilidade, distanciamento emocional e perda de energia para desenvolver o time”, adiciona Pimenta.
Tais aspectos contribuem para o fenômeno do presenteísmo, que é quando a pessoa continua trabalhando, mas opera abaixo de sua capacidade. “Esse fenômeno costuma ser menos visível do que o afastamento, porém pode representar perdas expressivas de produtividade, qualidade e capacidade decisória”, continua a CEO.

Tatiana Pimenta, CEO da Vittude (Crédito: Juliana Frug)
Existem ainda impactos sociais, como a evasão de lideranças, que afetam toda a jornada de inclusão das empresas. De acordo com uma pesquisa da Catalyst baseada nos dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), 455 mil mulheres deixaram a força de trabalho nos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2025, sendo que 42% foram por demissões (layoffs) e 58% foram saídas voluntárias. Dentre as saídas voluntárias, 42% citaram responsabilidades de cuidado como principal razão, 20% mencionaram insatisfação com a remuneração, 20% altos níveis de burnout e 22% insegurança no emprego.
“Quando as mulheres que chegaram à liderança adoecem ou desistem, reduzimos a presença feminina nos espaços de decisão, enfraquecemos referências para as próximas gerações e retroalimentamos a narrativa equivocada de que mulheres não desejam ocupar o topo”, reflete Pimenta. Mas o impacto ainda vai além. “Perdemos talentos, experiência e diversidade quando mulheres deixam de aceitar promoções, reduzem suas ambições ou abandonam posições de liderança para preservar a própria saúde”, complementa Alexandra Segantin, CEO do Grupo Mulheres Brasil.
A perda de talentos após anos de investimento custa para as empresas, que precisam substituir aquela liderança, e ainda envolve perdas de conhecimento e memória organizacional, além de relacionamentos, execução, inovação, capacidade de formar equipes, diversidade de pensamento e até competitividade.
“Lideranças saudáveis criam ambientes mais colaborativos, desenvolvem pessoas e inspiram resultados melhores. Quando essas líderes adoecem, toda a organização sente os impactos. A saúde das lideranças influencia diretamente o clima organizacional, o engajamento das equipes e a capacidade de inovação”, pontua Alexandra.

Alexandra Segantin, CEO do Grupo Mulheres Brasil (Crédito: Divulgação)
Há um enfraquecimento de toda a jornada de diversidade e inclusão da empresa e com impactos para as próximas gerações, que deixam de enxergar um exemplo a seguir. “O pipeline de sucessão se torna menos plural e as profissionais mais jovens passam a olhar para o topo não como uma possibilidade de crescimento, mas como um lugar associado a sacrifício e adoecimento”, destaca Tatiana.
“Queremos que meninas e jovens olhem para a liderança feminina como um caminho possível e desejável, e não como um lugar incompatível com qualidade de vida”, complementa Alexandra.
Por fim, existem os impactos financeiros e jurídicos. Entre janeiro e abril de 2025, foram registradas 5.248 novas ações trabalhistas relacionadas a burnout no Brasil, o que representa um aumento de 14,5% em relação ao mesmo período de 2024. O valor total estimado desses processos (pedidos de indenização) é de R$ 3,75 bilhões, com valor médio de R$ 368,9 mil por processo, de acordo com um levantamento do escritório Trench Rossi Watanabe.
“Esses fatores mostram que o burnout deixou de ser tratado como questão exclusivamente de RH e passou a ser pauta de departamento jurídico e financeiro. E, no contexto regulatório brasileiro, vale mencionar que a atualização da NR-01 já exige que empresas identifiquem, monitorem e previnam riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos, ou seja, o que antes era ‘boa prática opcional’ está se tornando obrigação regulatória”, destaca o Dr. Medeiros.
Em suma, as empresas são feitas de pessoas. “Se a gente não tem pessoas engajadas, performando e com saúde social e mental, não existe uma empresa. São impactos na própria sustentabilidade do negócio, com perda financeira por afastamentos e produtividade”, acrescenta Liguori.