Quando a liderança se torna avó
Líderes femininas refletem sobre como função transformou suas prioridades, relações familiares e estilo de liderança
O Dia dos Avós é celebrado dia 26 de julho aqui no Brasil. O estereótipo da avó é aquela mulher de cabelos prateados, matriarca da família que cozinha a comida preferida dos netos e comanda a casa e as reuniões familiares. Mas esta nem sempre é a realidade. As mulheres que reunimos aqui são avós, mas também são lideranças, executivas com rotinas atarefadas que equilibram cuidado, lazer, vida pessoal e carreira. Muitas não precisam mais cuidar dos filhos, mas escolhem cuidar e passar tempo de qualidade com os netos. Num papel diferente. Não de mãe, mas de avó.
Perguntamos às executivas o que significa ser avó, como este papel mudou sua vida pessoal e seu olhar sobre sua liderança. As respostas falam sobre amor, legado, inspiração e memórias e dizem respeito às transformações da vida da mulher profissional.
Há um tipo de liderança que não se aprende em nenhum MBA. Ela chega, geralmente, no colo de um neto, junto com um choro, um sorriso desdentado, uma mãozinha que aperta o dedo pela primeira vez. Para um grupo de mulheres que passou décadas construindo empresas, marcas e carreiras, a avosidade se revelou uma escola inesperada: a de liderar com mais escuta, mais paciência e mais propósito.
Um amor sem culpa, sem pressa
Tornar-se avó não é apenas um novo capítulo afetivo: é uma mudança de perspectiva sobre o próprio amor. “Ser avó é viver o amor de um jeito completamente diferente. Eu acompanho o crescimento do meu neto com um olhar mais leve. Não tem aquele peso, aquela responsabilidade do dia a dia que a maternidade carrega”, diz Mariana Caram, fundadora da DEA Design, consultoria de branding. “Tem uma liberdade de simplesmente estar presente, brincar, criar memórias e aproveitar cada momento com ele sem culpa nenhuma”, continua.

Mariana Caram, fundadora da DEA Design (Crédito: Divulgação)
Denise Cassou, co-fundadora da Gallerist, marca de curadoria de moda e objetos, completa esse sentimento: “Ser avó é um dos presentes mais especiais que a vida me deu. É uma oportunidade de viver o amor de uma forma ainda mais leve e generosa, sem a ansiedade que muitas vezes acompanha a maternidade”. Ao todo, Denise é avó de 6 netos.
Há também quem descreva a experiência como uma expansão. “Ter um filho é como expandir o tamanho do amor que cabe dentro da gente. É espremer seu coração para caber um outro ali dentro”, reflete Rita Almeida, líder do Lab Humanidades da AlmapBBDO. “É desse lugar que uma avó parte para olhar seu neto, sua neta. Por isso, tantas vezes dizemos que o amor que nutrimos pelos netos é ainda maior do que o amor pelos filhos: ele mistura e amplia o que já sentíamos”. Rita possui 4 netos, com idades 2, 4, 7 e 15.

Rita Almeida, head do Lab Humanidades da AlmapBBDO (Crédito: Camila Cara)
Neusa Silveira, fundadora da Kurotel, resort de saúde, que soma dez netos, resume com simplicidade a força desse afeto: “Costumo dizer a eles que todos são igualmente importantes para mim. Amo cada um em sua individualidade, com seu jeito, sua personalidade e suas diferenças. Ser avó ampliou minha capacidade de amar e trouxe ainda mais sentido à minha vida”.
O legado que atravessa gerações
Se a maternidade acontece em meio à correria da construção de uma carreira, a avosidade chega em outro momento da vida, e isso muda a relação com o futuro e com aquilo que se deseja deixar como herança. “Comecei a Água de Coco muito nova, e hoje, quarenta anos depois, entendo que o legado não é só a marca, é quem caminha comigo: minha família, meu time e agora meu neto também”, diz Liana Thomaz, fundadora da Água de Coco, marca de moda praia. “São eles que dão sentido pra tudo isso, no fim das contas”.

Liana Thomaz, fundadora da Água de Coco, e família (Crédito: Divulgação)
Para Neusa Silveira, o legado tem menos a ver com patrimônio e mais com valores: “Ser avó é compreender que o maior legado que podemos deixar não está apenas no que construímos, mas, principalmente, nos valores que conseguimos transmitir. É isso que desejo deixar para cada um dos meus netos”.
Marília Prado, diretora comercial da Cielo, por sua vez, observa como essa nova geração amplia seu próprio horizonte: “A chegada dos meus netos ampliou meu olhar sobre o futuro. Passei a ter mais uma geração pela qual torcer, incentivar e querer construir um mundo melhor”, afirma. Marília possui cinco netos, com idades que variam dos 7 meses aos 19 anos.

Marília Prado, diretora comercial da Cielo (Crédito: Divulgação)
Riccy Souza Aranha, fundadora da Mixed, destaca como as novas gerações despertam novas formas de enxergar o mundo. “A avosidade reforçou a importância de acompanhar o tempo e de estar aberta às novas gerações. Ter uma convivência próxima e verdadeira com os netos me mantém conectada, com um olhar mais atento e antenado às novas formas de pensar e enxergar o mundo. Isso enriquece minha forma de liderar, tornando minha liderança mais humana, atual e sensível”, conta. Riccy é avó de 12 netos, com idades que variam dos 5 aos 22 anos.

Riccy Souza Aranha, fundadora da Mixed, e família (Crédito: Divulgação)
A maturidade que ensina paciência
A avosidade também trouxe, para muitas delas, uma relação renovada com o tempo. “Fiquei muito mais consciente do valor do tempo. A rotina continua corrida, os compromissos não diminuíram, mas eu comecei a olhar para os momentos de qualidade de outro jeito e a aproveitá-los de verdade, sem pressa”, conta Mariana Caram, que conta com um neto de seis anos.
Neusa Silveira lembra da primeira neta como um marco de aprendizado pessoal: “Minha primeira neta se chama Maria Catharina, filha da minha filha mais velha, e nós somos muito ligadas. Como ela foi a primeira, aprendi muito com essa relação. Aprendi a ter mais paciência, a abrir espaço na minha agenda, mesmo sempre tão atribulada, e a exercitar ainda mais a compreensão”,
Já Denise Cassou destaca a inversão de papéis que a experiência provoca: “A minha vida ganhou cores e ritmos diferentes. Quando somos mães, estamos na linha de frente da rotina, da educação e da construção do dia a dia. Como avó, a transformação veio de forma mais leve, com o olhar mais voltado a aprender do que ensinar”, reflete.

Denise Cassou, co-fundadora da Gallerist (Crédito: Divulgação)
Uma liderança mais humana
A chegada da avosidade é uma transformação surpreendente. Para essas mulheres, ser avó não as afastou do comando, mas reformulou o jeito como exercem a liderança. “Ela não mudou quem eu já era, mas fortaleceu muito características que eu sempre valorizei, como a escuta, a empatia, essa vontade genuína de ver as pessoas crescerem”, afirma Mariana Caram. “Hoje, eu acredito ainda mais que liderar não é só alcançar meta e entregar resultado. É também construir um ambiente onde cada pessoa tenha espaço para se desenvolver”, pontua.
Marília Prado viveu essa mudança em um momento decisivo da carreira: “Conciliar uma posição executiva com essa nova fase da vida me fez refletir muito sobre equilíbrio. Aprendi que liderança vai muito além da entrega de resultados: é sobre desenvolver pessoas, criar relações de confiança e ajudar cada profissional a enxergar propósito no que faz”. E resume: “No fim, os cargos passam. O que permanece é o exemplo que deixamos, as relações que construímos e as pessoas que ajudamos a crescer”.
No Kurotel, essa filosofia ganhou até um nome. “Anualmente, realizamos um seminário chamado Raízes, no qual mostramos como tudo foi construído: o respeito pelo trabalho, pelos clientes, pelos fornecedores e por todas as pessoas que fazem parte do universo Kur”, conta Neusa Silveira. “Mais do que preparar sucessores, buscamos formar pessoas conscientes de suas raízes”.

Neusa Silveira, fundadora do Kurotel, e família (Crédito: Divulgação)
Denise Cassou fala sobre como a avosidade a ensinou a importância do desenvolvimento profissional: “Ofereço uma base sólida de experiência, junto a uma visão estratégica de longo prazo, ao mesmo tempo em que exerço uma liderança focada em acolher, incentivar e criar espaço para que cada um desenvolva seu potencial”.
Um dos grandes resultados que esta fase traz é a valorização sobre o desenvolvimento individual de cada um. “O que aprendi com essa experiência é olhar para cada pessoa que está ao meu lado no trabalho com o mais sincero desejo de que ela tire o melhor do seu caminho e consiga construir um futuro que faça sentido. Não há maior prazer na liderança do que ver seus liderados crescerem em direção aos seus sonhos. E, com sorte, podermos ser, para eles, uma força e inspiração”, complementa Rita Almeida.
Para Sandra Marques, fundadora do Grupo Capim Santo, essa forma de liderar, com foco na influência ao invés do comando, é quase hereditária: “A questão da liderança em uma avó, em uma mulher, está no DNA. Todas nós já nascemos carregando os genes das nossas avós e vamos perpetuando esse legado nas gerações seguintes. Uma avó lidera pela influência, pelo exemplo, pela capacidade de ouvir e de acolher”, destaca. Avó de quatro netos, dois de 6 anos, uma de 8 e a mais velha de 17.

Sandra Marques, fundadora do Grupo Capim Santo (Crédito: Divulgação)
Liana Thomaz reforça esta ideia e adiciona reflexão sobre sucessão: “Com o tempo fui entendendo que liderar tem mais a ver com inspirar do que dar ordens. Virar avó reforçou isso em mim: a confiança, a escuta e a generosidade de deixar o outro seguir do jeito dele. Meu papel agora é contar essa história, passar o que aprendi, e confiar que ela vai continuar do jeito dela”.
As histórias reunidas aqui mostram um fio condutor: para essas mulheres, o comando de uma empresa e o colo de um neto não competem, eles se completam. A avosidade não as afastou do topo, mas trouxe mais sensibilidade para exercê-lo. E é assim, entre reuniões de diretoria e tardes de brincadeira, que elas seguem escrevendo, com a mesma mão firme que construiu seus negócios, a história que pretendem deixar para a próxima geração.