“Sou o cara das causas impossíveis”, diz Quintela, de saída do WPP
Ao deixar posto de chairman da VML, relembra como, há 22 anos, ingressou na publicidade de forma inesperada

Marcos Quintela despede-se do WPP: “Próximas gerações de líderes são muito promissoras” (Crédito: Divulgação)
Após 22 anos, Marcos Quintela deixa o WPP. Sua saída vinha sendo planejada há dois anos junto à liderança da holding.
Desde 2017, o profissional ocupava a cadeira de chairman da VML, atuando como figura estratégica na prospecção e negociação com clientes – algo que fez ao longo de toda sua trajetória na holding, que começou por meio do Grupo Newcomm, fundado em 1998 por Roberto Justus e do qual se tornou sócio em 2011.
O grupo nacional, que controlava agências como Y&R, Grey, Wunderman, VML e Red Fuse, foi comprado pelo WPP em 2004 e posteriormente transformado em Grupo VMLY&R.
Depois de presidir o Newcomm e a Y&R, Quintela assumiu como chairman da então VMLY&R, que, após fusão com a Wunderman Thompson, em 2023, foi rebatizada com o nome original: VML.
Entrada inesperada, mas duradoura
“Fui levado para a propaganda pelo Roberto Justus. Quando ele saiu, em 2017 – e ano que vem fará dez anos que ele saiu fisicamente –, as pessoas tinham algum tipo de desconfiança em relação à permanência do Quintela, porque éramos meio Batman e Robin. Ali foi o momento de eu me reinventar dentro de uma companhia, na qual estou até hoje e possuo imensa gratidão”, comenta.
Antes de sequer imaginar adentrar o mercado publicitário, um ainda adolescente Quintela foi integrante do Dominó, famoso na década de 1980. A carreira na música pop o fez pegar gosto pelo gerenciamento de carreiras: foi empresário e sócio da apresentadora Eliana, quando ela fazia parte do quadro de funcionários do SBT.
Mas foi na publicidade que vivenciou seu ciclo mais longo: “Não imaginava que seria assim. Ficar tanto tempo em uma companhia, que passa por fusões, aquisições, mudanças regionais, locais, exige uma resiliência não apenas na forma de conduzir tudo, mas de como você consegue agregar alguma coisa. Não tive um momento ruim com o WPP, tampouco com os CEOs. A Karina é espetacular, fala quando tem que falar e ouve muito mais do que fala. O Stefano (Zunino, country manager do WPP no Brasil), com aquele jeitão italiano dele, sempre olhando para os negócios, é um enciclopédia da propaganda”, diz.
Homem de negócios
Apesar de ter entrado desavisado no mercado publicitário, Quintela logo se familiarizou com a indústria a partir de seu tino para os negócios. Nunca foi um profissional de criação, tampouco de estratégia, embora tenha bebido das duas áreas para conseguir fazer negócios com os anunciantes. “Sou um cara das causas impossíveis. Acordo fazendo negócio e vou dormir fazendo negócio. Isso não tem a ver apenas com a grana. Se um criativo muito importante e promissor está decidido a sair e vai nos causar prejuízo institucional, financeiro, o negócio naquele momento é reter aquele talento”, exemplifica.
O mesmo vale para clientes que estão a ponto de sair pela porta da qual entraram. Segundo Quintela, há salvação para a insatisfação dos clientes em pelo menos 95% dos casos e, muitas vezes, a negociação não é com o CEO tampouco o CMO, mas com pessoas inesperadas que estão dentro da organização.
Com a saída do WPP, o profissional passa a ter mais tempo – físico e mental, frisa – para se dedicar como investidor na área de entretenimento e no setor imobiliário de alta renda. Dependendo da oportunidade, pretende avançar um pouco mais nesses terrenos. Também é sócio de um multi family office, que cuida da gestão de patrimônio de famílias, há mais de cinco anos.
Processo seletivo, IA e próximas gerações
Na publicidade, Quintela observa atentamente a entrada da inteligência artificial nos negócios. “Vários talentos que tinham algum tipo de insegurança por custos relativos a despesas ordinárias para abrir uma agência, agora podem fazer uma agência muito bacana, se aplicarem a IA de maneira correta. Mas, ao mesmo tempo, essa corrida pela tecnologia tem uma importância no CaPex de toda a indústria. O WPP Open, estrutura de IA do WPP, é um exemplo disso”.
Nesse contexto, ele acredita que haverá um processo seletivo entre os gigantes, que continuarão se adaptando, e as independentes, que continuarão surgindo, mesmo que muitas morram pelo caminho.
De maneira geral, Quintela diz sentir falta de um olhar mais voltado para o negócio. “É sentar com o cliente e não falar de propaganda com ele. É falar do negócio, da margem, do produto”, afirma. No caso específico do WPP, acredita que a companhia deu dois passos para trás para dar cinco para frente, em relação ao campus e ao investimento bilionário em IA. “As próximas gerações de líderes são muito promissoras”.